16.10.2014

:: Pra Entrar pros Anais ::

Aviso: este blog se dedica, entre outras questões menos (ou mais) *nobres*, ao jornalismo. Este post, aparentemente sadô-masô, deve ser lido sob esta ótica (pelo menos é nossa intenção). 'Brigado.

Notícia de um ano atrás, lembro-me de tê-la vista na época, mas talvez a *emoção* me tenha impedido de registrá-la aqui. Deu (ôps!) n'ODiário, de Londrina, Paraná: *Vibrador ecologicamente correto transforma prazer em terror em Maringá*. Sem nenhum dúvida, merece *entrar pros (nos?) anais* (ôps! ôps!) do jornalismo, sob a rubrica *história universal da infâmia* -- menos que a notícia em si (se é verídica ou não, é o que menos importa), mas principal e fundamentalmente pela forma com que foi relatada com a sensibilidade e, digamos, singeleza, pelo escriba Clóvis Augusto Melo. Segue:
Um homem solitário. Um filme pornô. E uma abobrinha. Esses três itens, aparentemente sem nenhuma, ou pouca, conexão, se tornaram personagens de uma história inusitada em Maringá nesta semana. E que acabou em uma cirurgia de emergência.

O homem de 63 anos estava em casa, alta madrugada de uma terça-feira sem graça, e decidiu assistir a um filme pornográfico. Entusiasmado com as performances dos atores, resolveu inserir um pouco mais de prazer em sua vida. Na falta de um consolo, revirou a despensa e reparou que, nas formas inocentes de uma abobrinha, havia um instrumento erótico em potencial.

Voltou à sala, o sexo correndo solto no DVD. Excitado, sacou da fruta (sim, é uma fruta) e introduziu seu vibrador ecologicamente correto no ânus. Triste destino o do vegetal, que escapou da panela para cair diretamente no fogo de uma paixão proibida.

O prazer se transforma em medo. Desconhecendo o poder de sucção de seu próprio reto, o homem se vê às voltas com uma abobrinha entalada e que não quer mais sair. Desesperado, tenta arrancar a fruta cilíndrica a todo custo - e quebra a dita ao meio. Um pedaço de tamanho considerável teimosamente se aloja no âmago do homem, cuja excitação inicial deu lugar a um terror incontrolável.

Às favas com a privacidade. Para salvar o próprio traseiro, é preciso colocá-lo na reta. Encaminha-se ao hospital, diz que há um objeto estranho em seu ânus. Enrola para dizer o que é e como foi parar lá dentro. Os médicos alertam que qualquer tipo de intervenção tem risco redobrado se eles não souberem exatamente o que aconteceu, e como. Pedem que o homem se acalme e sente para contar detalhadamente seu caso. Ele permanece em pé e se rende às argumentações dos especialistas. Conta tudo, afogueadamente, mas falando baixinho.

É um caso sério. Guias são preenchidas, exames são solicitados. Um raio-x descortina o renitente pedaço de abobrinha no interior do homem, a prova de um impossível caso de amor entre dois espécimes de reinos distintos. Aturdidos, os médicos decidem que é um caso de cirurgia. E de urgência.

O procedimento é realizado, o SUS - esse instituto tão criticado e vilipendiado - custeia a devolução da dignidade ao maringaense incauto. Aquele pedaço de mau caminho foi definitivamente retirado da vida dele.
Por Paulo Bicarato, às 14:59 de 16.10.2014 - 1 já comentou aqui
Categoria: Primeira Edição

08.10.2014

:: D. Pedro, o *Demonão* ::

carta_D_Pedro

Pra quem não conseguiu ler o original:
*Este lindo paçarinho
Canta, brinca, pica e fura
Mas quando torna repicar,
He mais doce a pica-dura*
Bilhetinho safadinho, né? Mas esse é um blog de respeito, e o post em questão tem outro propósito: alimentar, com o bilhete acima, o nosso repertório histórico, independentemente de vivermos essa época chata de pseudo-moralismo politicamente correto. Pois então, esse é só um exemplo de como o imperador D. Pedro I se correspondia com sua amante, a Marquesa de Santos. Auto-apelidado de *Demonão*, D. Pedro endereçava as cartinhas picantes à *Titília* (Domitila) -- o pesquisador Paulo Rezzutti publicou 94 cartas, datadas de 1824, pela Geração Editorial.

Titília_Demonão
Por Paulo Bicarato, às 15:56 de 08.10.2014 - Comentem!
Categoria: Biblios

29.09.2014

:: Jarbas, *o* Cara ::

Solidariedade, sustentabilidade, criatividade: tenho orgulho de dizer que sou amigo do Jarbas Noronha, um exemplar (graças a Deus, nem tão raro assim) de *gente do bem*. Já falei dele aqui no Alfarrábio mais de uma vez, e um causo é melhor que o outro: aqui, aqui e aqui.

Por Paulo Bicarato, às 14:56 de 29.09.2014 - 1 já comentou aqui
Categoria: Linux Vida Open Source

24.09.2014

:: Eis uma Santa ::

Dona Maria Ribeiro da Silva Tavares se encantou, aos 102 anos. Eis aí uma pessoa que dignifica a espécie e considero como a expressão perfeita de como Guimarães Rosa se referia ao *passamento*:
*as pessoas não morrem, ficam encantadas*
Ou, parafraseando o Manuel Bandeira:
*imagino Maria entrando no céu:
- Licença, meu branco!
E São Pedro bonachão:
- Entra, Maria. Você não precisa pedir licença*
Mandei a notícia pro seo Toninho (ou: meu pai), que resumiu:
Exemplos de santas e santos como Maria Ribeiro,
graças a Deus, existem e não são poucas(os).
Pena que nossa mídia, QUASE TODA vendida ao crime,
só tem olhos para rebeliões e fugas de presídios.
Enriqueça seu blogue, Paulo, exibindo casos como esse.
Como sou um cara obediente, registro aqui minha pequena homenagem a essa *Santa*. 'Brigado, dona Maria! :-)

*Se a mídia se dedicasse a mais coisas boas ao invés de tanta desgraça, talvez a sociedade estivesse contaminada não de medo e vingança, mas de afeto.* (A frase é da Nathalia, que não conheço, e me chegou via Feicebúqui.)

Leia mais:
>> Idosa que era cuidada por presos morre aos 102 anos em Porto Alegre
Maria Ribeiro da Silva Tavares fundou, em 1942, o Patronato Lima Drummond, que abriga presidiários do regime semiaberto

>> Presos tomam conta de mulher de 102 anos

Dona_Maria
Dona Maria com o cuidador Roberto Sotello,
em férias na lagoa dos Patos (RS)


Dona_Maria
Maria Tavares rodeada por seus anjos em 2013,
no patronato Lima Drumond, em Porto Alegre
Por Paulo Bicarato, às 15:06 de 24.09.2014 - Comentem!
Categoria: Primeira Edição

02.09.2014

:: Iauaretê ::

pixuna



Nota de rodapé: Ler nos remendos


Fotos: Araquém Alcântara

Meu Tio o Iauaretê

Eh, aí eu levantei, ia agarrar Maria Quirinéia na Goela. Mas ela que falou: -“Ói: sua mãe deve de ter sido muito bonita, boazinha muito boa, será?” Aquela mulher Maria Quirinéia muito boa, bonita, gosto dela muito, me alembro. Falei que todo o mundo tinha morrido comido de onça, que ela carecia de ir s’embora de mudada, naquela mesma hora, ir já, ir já, logo, mesmo... Pra qualquer outro lugar, carecia de ir. Maria Quirinéia pegou medo enorme, montão, disse que não podia ir, por conta do marido doido. Eu falei: eu ajudava, levava. Levar até na Vereda da Conceição, lá ela tinha pessoas conhecidas. Eh, fui junto. Marido dela doido nem deu trabalho, quage. Eu falava: -“Vamos passear, seo Nhô Suruvéio, mais adiante?” Ele arrespondia: -“A’pois, vamos, vamos, vamos...” Vereda cheia, tempo de chuva, isso que deu mais trabalho. Mas a gente chegou lá, Maria Quirinéia falou despedida: -“Mecê homem bom, homem corajoso, homem bonito. Mas mecê gosta de mulher não...” Aí, que eu falei: -“Gosto mesmo não. Eu –eu tenho unha grande...” Ela riu, riu, riu, eu voltei sozinho, beiradeando essas veredas todas.

Uê, uê, rodeei volta, despois, cacei jeito, por detrás dos brejos: queria ver veredeiro seo Rauremiro não. Eu tava com fome, mas queria de-comer dele não – homem muito soberbo. Comi araticum e fava doce, em beira de um cerrado eu descansei. Uma hora, deu aquele frio, frio, aquele, torceu minha perna... Eh, despois, não sei, não: acordei – eu tava na casa do veredeiro, era de manhã cedinho. Eu tava em barro de sangue, unhas todas vermelhas de sangue. Veredeiro tava mordido morto, mulher do veredeiro, as filhas, menino pequeno... Eh, juca-jucá, atiê, atiuca! Aí eu fiquei com dó, fiquei com raiva. Hum, nhem? Cê fala que eu matei? Mordi mas matei não... Não quero ser preso... Tinha sangue deles em minha boca, cara minha. Hum, saí, andei sozim p’los matos, fora de sentido, influição de subir em árvore, eh, mato é muito grande... Que eu andei, que eu andei, sei quanto tempo foi não. Mas quando que eu fiquei bom de mim outra vez, tava nu de todo, morrendo de fome. Sujo de tudo, de terra, com a boca amargosa, atiê, amargoso feito casca de peroba... Eu tava deitado no alecrinzinho, no lugar. Maria-Maria chegou lá perto de mim...

Mecê tá ouvindo, nhem? Tá aperceiando... Eu sou onça, não falei? Axi. Não falei – eu viro onça? Onça grande, tubixaba. Ói unha minha: mecê olha – unhão preto, unha dura... Cê vem, me cheira: tenho catinga de onça? Preto Tiodoro falou eu tenho, ei, ei... Todo dia eu lavo corpo no poço... Mas mecê pode dormir, hum, hum, vai ficar esperando camarada não. Mecê tá doente, carece de deitar no jirau. Onça vem cá não, cê pode guardar revólver...
Aaã! Mecê já matou gente com ele? Matou, a’pois, matou? Por quê que não falou logo? Ã-hã, matou, mesmo. Matou quantos? Matou muito? Hã-hã, mecê homem valente, meu amigo... Eh, vamos beber cachaça, até a língua da gente picar de areia... Tou imaginando coisa, boa, bonita: a gente vamos matar camarada, ’manhã? A gente mata camarada, camarada ruim, presta não, deixou cavalo fugir p’los matos... Vamos matar?! Uh, uh, atimbora, fica quieto no lugar! Mecê tá muito sopitado... Ói: mecê não viu Maria-Maria, ah, pois não viu. Carece de ver. Daqui a pouco ela vem, se eu quero ela vem, vem munguitar mecê...

Nhem? A’bom, a’pois... Trastanto que eu tava lá no alecrinzinho com ela, cê devia de ver. Maria-Maria é careteira, raspa o chão com a mão, pula de lado, pulo frouxo de onça, bonito, bonito. Ela ouriça o fio da espinha, incha o rabo, abre a boca e fecha, ligeiro, feito gente com sono... Feito mecê, eh, eh... Que anda, que anda, balançando, vagarosa, tem medo de nada, cada anca levantando, aquele pêlo lustroso, ela vem sisuda, mais bonita de todas, cheia de cerimônia... Ela rosnava baixinho pra mim, queria vir comigo pegar o preto Tiodoro. Aí, me deu aquele frio, aquele friiio, a cãimbra toda... Eh, eu sou magro, travesso em qualquer parte, o preto era meio gordo... Eu vim andando, mão no chão... Preto Tiodoro com os olhos doidos de medo, ih, olho enorme de ver... Ô urro!...

Mecê gostou, ã? Preto prestava não, ô, ô, ô... Ói: mecê presta, cê é meu amigo... Ói: deixa eu ver mecê direito, deix’eu pegar um tiquinho em mecê, tiquinho só, encostar minha mão...

Ei, ei, que é que mecê tá fazendo?

Desvira esse revólver! Mecê brinca não, vira o revólver pra outra banda... Mexo não, tou quieto, quieto... Ói: cê quer me matar, ui? Tira, tira revólver pra lá! Mecê tá doente, mecê tá variando... Veio me prender? Ói: tou pondo mão no chão é por nada, não, é à-toa... Ói o frio... Mecê tá doido?! Atiê! Sai pra fora, rancho é meu, xô! Atimbora! Mecê me mata, camarada vem, manda prender mecê... Onça vem, Maria-Maria, come mecê... Onça meu parente... Ei, por causa do preto? Matei preto não, tava contando bobagem... Ói a onça! Ui, ui, mecê é bom, faz isso comigo não, me mata não... Eu – Cacuncozo... Faz isso não, faz não... Nhenhenhém... Heeé!...

Hé... Aar-rrâ... Aaâh... Cê me arrhoôu... Remuaci... Rêiucàanacê... Araaã...Uhm... Ui... Ui... Uh... uh... êeêê... êê... ê...

(João Guimarães Rosa, Estas Histórias, Rio, José Olympio, 1962)
"Meu Tio o Iauaretê" (jaguaretê, jaguar, do tupi yaware'te - onça verdadeira) é um monólogo-diálogo de um bugre contratado para "desonçar o mundo". Exímio caçador, ele começa a liquidar pinimas (a pintada, ou cangussu), pixunas (a preta) e suaçuranas (a parda, também chamada de sussuarana, onça-vermelha, puma ou leão-baio) mas, aos poucos, vai se identificando com elas, até se arrepender e passar a protegê-las. Parou de matar.
Por Paulo Bicarato, às 19:26 de 02.09.2014 - Comentem!
Categoria: Biblios

15.08.2014

:: Suassuna no Céu ::

Copy&paste do blog do Leonardo Boff -- charge do Dalcio.

A chegada de Ariano Suassuna no Céu

Autores: Klévisson Viana e Bule-Bule

Nos palcos do firmamento / Jesus concebeu um plano / De montar um espetáculo / Para Deus Pai Soberano / E, ao lembrar de um dramaturgo, / Mandou buscar Ariano.

Jesus mandou-lhe um convite, / Mas Ariano não leu. / Estava noutro idioma, / Ele num canto esqueceu, / Nem sequer observou / Quem foi que lhe escreveu.

Depois de um tempo, mandou / Uma segunda missiva. / A secretária do artista / Logo a dita carta arquiva, / Dizendo: — Viagem longa / A meu mestre não cativa.

Jesus sem ter a resposta / Disse torcendo o bigode: / — Eu vejo que Suassuna / É teimoso igual a um bode. / Não pode, mas ele pensa / Que é soberano e pode!

Jesus, já perdendo a calma, / Apelou pra outro suporte. / Para cumprir a missão, / Autorizou Dona Morte: / — Vá buscar o escritor, / Mas vê se não erra o corte!

A morte veio ao País / Como turista estrangeiro, / Achando que o Brasil / Era só Rio de Janeiro. / No rastro de Suassuna, / Sobrou pra Ubaldo Ribeiro.

Porém, antes de encontrá-lo, / Sofreu um constrangimento / Passando em Copacabana, / Um malfazejo elemento / Assaltou ela levando / Sua foice e documento.

A morte ficou sem rumo / E murmurou dessa vez: / — Pra não perder a viagem / Vou vender meu picinez / Para comprar outra foice / Na loja de algum chinês.

Por um e noventa e nove / A dita foice comprou. / Passando a mão pelo aço, / Viu que ela enferrujou / E disse: — Vai essa mesma, / Pois comprar outra eu não vou!

A morte saiu bolando, / Sem direção e sem tino, / Perguntando a um e a outro / Pelo escritor nordestino, / Obteve informação, / Gratificando um menino.

Ao encontrar João Ubaldo, / Viu naufragar o seu plano, / Se lembrando da imagem / Disse: — Aqui há um engano. / Perguntou para João / Onde é que estava Ariano.

Nessa hora João Ubaldo, / Quase ficando maluco, / Tomou um susto arretado, / Quando ali tocou um cuco, / Mas, gaguejando, falou: / —Ele mora em Pernambuco!

A morte disse: — Danou-se / Dinheiro não tenho mais / Para viajar tão longe, / Mas Ariano é sagaz. / Escapou mais uma vez, / Vai você mesmo, rapaz!

Quando chegou lá no Céu / Com o escritor baiano, / Cristo lhe deu uma bronca: / — Já foi baldado o meu plano. / Pedi um da Paraíba / E você trouxe um baiano.

João Ubaldo é talentoso, / Porém não escreve tudo. / “Viva o Povo Brasileiro” / É sua obra de estudo, / Mas quero peça de humor, / Que o Céu tá muito sisudo.

Foi consultar os arquivos / Pra ressuscitar João, / Mas achou desnecessário, / Pois já era ocasião / Pra ele vir prestar contas / Ali na Santa Mansão.

Jesus olhou para a Morte / E disse assim: — Serafina, / Vejo não és mais a mesma. / Tu já foste mais malina, / Tá com pena ou tá com medo, / Responda logo, menina?!

— Jesus, eu vou lhe falar / Que preciso de dinheiro. / Ariano mora bem / No Nordeste brasileiro. / Disse o Cristo: —Tenho pressa, / Passe lá no financeiro!

— Só faço que é pra o Senhor. / Pra outro, juro não ia. / Ele que se conformasse / Com o escritor da Bahia. / Se dependesse de mim, / Ariano não morria.

A morte na internet / Comprou passagem barata. / Quase morria de susto / Naquela viagem ingrata. / De vez em quando dizia: / — Eita que viagem chata!

Uma aeromoça lhe trouxe / Duas barras de cereais. / Diz ela: — Estou de regime. / Por favor, não traga mais, / Porque se vier eu como, / Meu apetite é voraz!

Quando chegou no Recife, / Ficou ela de plantão / Na porta de Ariano / Com sua foice na mão, / Resmungando: — Qualquer hora / Ele cai no alçapão!

A morte colonizada, / Pensando em lhe agradar, / Uma faixa com uma frase / Ela mandou preparar, / Dizendo: “Welcome Ariano”, / Mas ele não quis entrar.

Vendo a tal faixa, Ariano / Ficou muito revoltado. / Começou a passar mal, / Pediu pra ser internado / E a morte foi lhe seguindo / Para ver o resultado.

Eu não sei se Ariano / Morreu de raiva ou de medo. / Que era contra estrangeirismos, / Isso nunca foi segredo. / Certo é que a morte o matou / Sem lhe tocar com um dedo.

Chegou no Céu Ariano, / Tava a porta escancarada. / São Pedro quando o avistou / Resmungando na calçada, / Correu logo pra o portão, / Louvando a sua chegada.

Um anjinho de recado / Foi chamar o Soberano, / Dizendo: – O Senhor agora / Vai concretizar seu plano. / São Pedro mandou dizer / Que aqui chegou Ariano.

Jesus saiu apressado, / Apertando o nó da manta / E disse assim: — Vou lembrar / Dessa data como santa / Que a arte de Ariano / Em toda parte ela encanta.

São Pedro lá no portão / Recebeu bem Ariano, / Que chegou meio areado, / Meio confuso e sem plano. / Ao perceber que morreu, / Se valeu do Soberano.

Com um chapelão de palha / Chegou Ascenso Ferreira, / O grande Câmara Cascudo, / Zé Pacheco e Zé Limeira. / João Firmino Cabral / Veio engrossar a fileira.

E o próprio João Ubaldo / (Que foi pra lá por engano) / Veio de braços abertos / Para abraçar Ariano. / E esse falou: – Ubaldo, / Morrer não tava em meu plano!

Logo chegou Jorge Amado / E o ator Paulo Goulart. / Veio também Chico Anysio / Que começou a contar / Uma anedota engraçada / Descontraindo o lugar.

Logo chegou Jesus Cristo, / Com seu rosto bronzeado. / Veio de braços abertos, / Suassuna emocionado / Disse assim: — Esse é o Mestre, / O resto é papo furado!

Suassuna que, na vida, / Sonhou em ser imortal, / Entrou para Academia, / Mas percebeu, afinal, / Que imortal é a vida / No plano celestial.

Jesus explicou seus planos / De fazer uma companhia / De teatro e ele era / O escritor que queria / Para escrever suas peças, / Enchendo o Céu de alegria.

Nisso Ariano responde: / — Senhor, eu me sinto honrado, / Porém escrever uma obra / É serviço demorado. / Às vezes gasto dez anos / Para obter resultado.

Nisso Jesus gargalhou / E disse: — Fique à vontade. / Tempo aqui não é problema, / Estamos na eternidade / E você pode criar / Na maior tranquilidade.

Um homem bem pequenino / Com chapeuzinho banzeiro, / Com um singelo instrumento, / Tocou um coco ligeiro / Falando da Paraíba: / Era Jackson do Pandeiro.

Logo chegou Luiz Gonzaga, / Lindu do Trio Nordestino, / E apontou Dominguinhos / Junto a José Clementino / E o grande Humberto Teixeira, / Raul e Zé Marcolino.

Depois chegou Marinês / Com Abdias de lado / E Waldick Soriano, / Com um vozeirão impostado, / Cantou “Torturas de Amor”, / Como sempre apaixonado.

Veio então Silvio Romero / Com Catulo da Paixão, / Suassuna enxugou / As lágrimas de emoção / E Catulo, com seu pinho, / Cantou “Luar do Sertão”.

Leandro Gomes de Barros / Junto a Leonardo Mota, / Chegou Juvenal Galeno, / Otacílio Patriota. / Até Rui Barbosa veio / Com título de poliglota.

Chegou Regina Dourado, / Tocada de emoção, / Juntinho de Ariano, / Veio e beijou sua mão / E disse: — Na sua peça / Quero participação.

Ariano dedicou-se / Àquele projeto novo. / Ao concluir sua peça, / Jesus deu o seu aprovo / E a peça foi encenada / Finalmente para o povo.

Na peça de Ariano / Só participa alma pura. / Ariano virou santo, / Corrigiu sua postura. / Lá no Céu ganhou o título / Padroeiro da cultura.

Os artistas que por ele / Já nutriam grande encanto / Agora estando em apuros, / Residindo em qualquer canto, / Lembra de Santo Ariano / E acende vela pro santo.

Ariano foi Quixote / Que lutou de alma pura. / Contra a arte descartável / Vestiu a sua armadura / Em qualquer dia do ano / Eu digo: viva Ariano / Padroeiro da Cultura!

FIM

suassuna
Por Paulo Bicarato, às 14:12 de 15.08.2014 - Comentem!
Categoria: Biblios

14.08.2014

:: À Flor da Pele ::

aflordapele


13 de agosto, início da tarde, meu pai me liga pra comentar sobre o acidente fatídico com o candidato Eduardo Campos. Mas, além da vítima ilustre, meu pai estava preocupado se havia algum conhecido meu, colega jornalista, na equipe. Não, não conhecia nenhum deles -- Alexandre Severo, fotógrafo; Percol, assessor; Marcelo Lyra, cinegrafista; Pedrinho Valadares, assessor de campanha; Geraldo Magela Barbosa da Cunha, piloto; e Marcos Martins, piloto.

Mas logo na sequência pipocaram links pra um projeto do fotógrafo Alexandre Severo [site/portfólio aqui], que recebeu menção honrosa no prêmio Wladimir Herzog. O ensaio fotográfico fala por si, mas, além da bela apresentação a seguir, assinada por João Valadares, pensei apenas que o nome, *À Flor da Pele*, bem poderia prescindir da crase -- *A Flor da Pele* --, além da associação direta com *A Cor da Pele*. Mas tô divagando... fiquemos com o belíssimo e sensível ensaio do Alexandre.

severoÀ Flor da Pele

Nasceram sem cor, numa família de pretos. Três irmãos que sobrevivem fugindo da luz, procurando alegria no escuro. O mais novo diz que é branco vira-lata. Os insultos do colégio viraram identidade. A mãe cochicha que são anjinhos. Eles têm raça sim. São filhos de mãe negra. O pai é moreno. Estiraram língua para as estatísticas e, por um defeito genético, nasceram albinos. Negros de pele branca. A chance dos três nascerem assim na mesma família era de uma em um milhão. Nasceram. Dos cinco irmãos, apenas a mais nova é filha de outro pai. Esta é a história do contrário.

>> https://www.youtube.com/watch?v=MulO4kftPtE
Por Paulo Bicarato, às 14:08 de 14.08.2014 - Comentem!
Categoria: Coleguinhas

08.08.2014

:: Aqualung ::

Camarada recém-conhecido, e que descobrimos ser primo de outro camarada véio-de-guerra, diz que sempre me via no *escritório* (ou: parada obrigatória pós-expediente) e me associava a uma imagem antológica: nada mais nada menos que a silhueta do Ian Anderson, do Jethro Tull.

Isso é pra quem pode, né? :-)

Jethro Tull
Por Paulo Bicarato, às 15:19 de 08.08.2014 - Comentem!
Categoria: Egotrip

04.08.2014

:: Menino-Passarinho ::

passarim
Surge um moleque, do nada, e se aboleta numa árvore. Por sorte ou azar, foi escolher logo um bairro nobre, próximo a um shopping. Dão-lhe o apelido de menino-passarinho -- ele sonha em ser mágico, *daqueles de baralho*.

Mas o moleque incomoda: chegam a sugerir que *derrubem a árvore para ver se ele vai embora*, sofismam tentando esconder o olhar sanitarista (*não existe preconceito em relação a ele, o problema é a atitude que ele tem* -- que atitude?).

*De onde eu venho todo mundo vive em árvores, moça. E eu já morei em outra dessas no fim da rua. Escolhi esta aqui porque testei e nela foi mais fácil colocar minha coisas.* Mas ele também angaria a simpatia de alguns (ainda que minoria, criam um cinturão de proteção), e ganha alimentos, roupas, sobras dos outros. Com duas garrafinhas de refrigerante pela metade, ele divide seu nada com a repórter: *pode levar essa, moça; uma só já dá pra mim*.

Se ele voou do Rio pra Sampa só pra nos dar uma lição, fez muito bem feito. 'Brigado, Passarim!
*Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão...
Eu passarinho!*
>> Mário Quintana
O causo tá aqui, e o final feliz, aqui.

Segundo clichê: comentário do seu Toninho, mais conhecido como *meu pai*:
Esqueçamos tudo e fiquemos com o "final feliz".
Prova de que Deus ainda não se esqueceu do mundo é que para um "Pio de Almeida" mais um que outro morador da Veiga Filho, o "Menino-Passarinho" encontrou Marias Nilzas, Dulces Santucci, Lucianas Sodré, Marias Rosálias, Gabrielas Nunes, Eduardos Lemos e Nicks Ayer.
Estes podem ter certeza: no dia que "partirem daqui" farão parte da linha de frente da "Unidos da Veiga Filho", mas não cá em baixo. Lá em cima.
Terceiro clichê: Nicolau, Belisa, Gabi, Eduardo, Rosália, Luciana, Cauê e Tamiê: eis as mães e pães do Gabriel, o menino-passarinho -- a história tá aqui.

mães do Gabriel
Por Paulo Bicarato, às 14:56 de 04.08.2014 - Comentem!
Categoria: Etilíricas

24.07.2014

:: De: João Grilo e Chicó -- para: Ariano Suassuna ::

João GriloHá tempos eu não via uma homenagem tão bacana, belíssima mesmo -- e ainda mais nesses tempos em que se vão João Ubaldo, Rubem Alves... e, agora, o Mestre Ariano Suassuna.

Mas os atores Matheus Nachtergale e Selton Mello -- ou melhor, o João Grilo e o Chicó -- deixam provas de que a obra de um autor é muito maior do que ela mesma. Eles mostram, nos belos textos-homenagens ao Mestre Suassuna, que não apenas interpretaram as personagens (o que não lhes tira os méritos como atores, ótimos), mas incorporaram a filosofia armorial, a crítica, o bom humor e a verve do Suassuna.

Entre inúmeros outros textos, mais ou menos críticos, destaco as homenagens do João Grilo e do Chicó por terem sido duas personagens que popularizaram a obra do Mestre, com o *Auto da Compadecida*, dirigido por Guel Arraes em 2000, inspirado na peça homônima que Suassuna escreveu em 1955.


"Carta para Ariano,

Quem te escreve agora é o Cavalo do teu Grilo. Um dos cavalos do teu Grilo. Aquele que te sente todos os dias, nas ruas, nos bares, nas casas. Toda vez que alguém, homem, mulher, criança ou velho, me acena sorrindo e nos olhos contentes me salva da morte ao me ver Grilo.

Esse que te escreve já foi cavalgado por loucos caubóis: por Jó, cavaleiro sábio que insistia na pergunta primordial. Por Trepliev, infantil édipo de talento transbordante e melancólicas desculpas. Fui domado por cavaleiros de Shakespeare, de Nelson, de Tchekov. Fui duas vezes cavalgado por Dias Gomes. Adentrei perigosas veredas guiado por Carrière, por Büchner e Yeats. Mas de todos eles, meu favorito foi teu Grilo.

O Grilo colocou em mim rédeas de sisal, sem forçar com ferros minha boca cansada. Sentou-se sem cela e estribo, à pelo e sem chicote, no lombo dolorido de mim e nele descansou. Não corria em cavalgada. Buscava sem fim uma paragem de bom pasto, uma várzea verde entre a secura dos nossos caminhos. Me fazia sorrir tanto que eu, cavalo, não notava a aridez da caminhada. Eu era feliz e magro e desdentado e inteligente. Eu deixava o cavaleiro guiar a marcha e mal percebia a beleza da dor dele. O tamanho da dor dele. O amor que já sentia por ele, e por você, Ariano.

Depois do Grilo de você, e que é você, virei cavalo mimado, que não aceita ser domado, que encontra saídas pelas cêrcas de arame farpado, e encontra sempre uma sombra, um riachinho, um capim bom. Você Ariano, e teu João Grilo, me levaram para onde há verde gramagem eterna. Fui com vocês para a morada dos corações de toda gente daqui desse país bonito e duro.

Depois do Grilo de você, que é você também, que sou eu, fui morar lá no rancho dos arquétipos, onde tem néctar de mel, água fresca e uma sombra brasileira, com rede de chita e tudo. De lá, vê-se a pedra do reino, uns cariris secos e coloridos, uns reis e uns santos. De lá, vejo você na cadeira de balanço de palhinha, contando, todo elegante, uma mesma linda estória pra nós. Um beijo, meu melhor cavaleiro.

Teu,
Matheus Nachtergale"
.::|::."E o Brasil ficou mais pobre.
E triste.
Ariano, poeta entendedor do Brasil profundo.
Defensor de nossa riqueza cultural e emocional.
Sua obra descomunal fica para sempre.
Tive a honraria graúda de dar vida a um de seus passarinhos (era como se referia a seus personagens queridos).
Chicó fui eu, Chicó é Ariano, Chicó é tu.
Chicó e João Grilo têm morada no coração dos brasileiros.
E na minha mente e coração sempre estarão gravadas as palavras sublimes que proferi em O Auto da Compadecida:

"Cumpriu sua sentença. Encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca do nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados."

Celebre-se o homem, celebre-se o brasileiro, celebre-se o artesão das palavras.
E se um dia perguntarem se tudo que criou foi exatamente assim como ele idealizou, imaginarei Ariano dizendo com um sorriso de menino nos lábios: "Não sei, só sei que foi assim.""

Selton Mello


No vídeo, trecho do filme com o julgamento do João Grilo, que tem por advogada Nossa Senhora:



Por Paulo Bicarato, às 13:33 de 24.07.2014 - Comentem!
Categoria: Biblios

15.07.2014

:: Balada para un Loco ::

Astor Piazzolla & Amelita Baltar - *Balada para un loco*

Letra e versão em português aqui.

Por Paulo Bicarato, às 14:30 de 15.07.2014 - Comentem!
Categoria: Pensatas

13.06.2014

:: Walk Again ::

Miguel Nicolelis: o pontapé foi apenas o primeiro passo. Conheça os bastidores do projeto Walk Again.


Por Paulo Bicarato, às 14:34 de 13.06.2014 - Comentem!
Categoria: Primeira Edição

23.05.2014

:: Ô, fôia, quéisso? ::

Tem colega aqui que jura que é *apenas* um errinho, um clique errado na hora de publicar. A Pollyana concorda, mas eu fico mêsss é com o sifonáptero na parte posterior do pavilhão auricular. Cumãssim?

Matéria publicada no site (não vi na edição impressa, recebo a edição regional), aqui, com data de ontem, 23/5, quando salvei a tela, traz materinha recauchutada e deixa explícita a data original: 29/5/2001 -- sim, isso mêss: 13 anos atrás!

folha01


Fui lá nos arquivos digitais da própria fôia, aqui -- a data é da edição impressa, 30/5/2001:

folha02


Sei lá, entendem? Tirem suas conclusões.

O post original do feicebúqui tá aqui, com a tela salva no dia 20/5.
Por Paulo Bicarato, às 15:56 de 23.05.2014 - Comentem!
Categoria: PretoNoBranco

22.04.2014

:: Manual do Polemista de Plantão ::

Segundo as lições de tio rei, a fórmula não é muito complicada, mas é preciso atenção pa sincronizar todos os elementos de forma a parecer (só parecer) algo coerente e uniforme. Vamos lá:
- odeie as esquerdas, todas! se você teve a desventura de nascer canhoto, aplique o cilício em penitência eterna, e esforce-se por escrever com a mão direita (isso vai entortar ainda mais sua escrita);
- seja politicamente correto, mas ao contrário: destile toda sua verborragia contra mulheres, gays, minorias, índios, negros, pobres, o papa, as mães dos esquerdistas, as avós dos esquerdistas, o Lula (pai dos esquerdistas), qualquer coisa que remeta à cor vermelha, qualquer coisa que fale em igualdade, fraternidade;
- cultue a tradição, a família e a propriedade como se vivêssemos no século XIV, por aí;
- vá aos EUA pelo menos uma vez por ano, pra se desintoxicar desse paisinho subdesenvolvido em que teve o azar de nascer e é condenado a viver -- e exiba, orgulhoso, como você consumiu e consumiu e consumiu (você não *gasta*, *consome*) em um monte de tanqueiras desnecessárias e passeios insossos;
- eleja uma crise por mês -- na falta de opção, ponha sempre a culpa no preço do tomate: é batata!;
- em seus textos, deixe pra lá a coerência, inclusive a formal: qualquer relação causal entre os fatos (negativos) e os culpados (sempre o governo, claro) é absolutamente dispensável -- a falácia é sua arma mais poderosa;
- destile ódio e não poupe adjetivos, principalmente exaltando seu rico vocabulário (ninguém precisa entender mesmo);
- pode deixar explícito seu insucesso amoroso, e revele que sua adolescência foi frustrada (porque sempre pautada pela *razão*, deixando as *paixões*, ora, pros fracos e sensíveis) -- assim você se exime de culpa e se torna vítima do aparelhamento ideológico a que fomos submetidos;
- seja chato, babaca, imbecil, e comemore as pedradas com o gozo de quem não sabe e nem quer aprender a gozar (é uma gozação pra com os outros e pra consigo mesmo, entende?).
Alguém mais tem dicas?

P.S.: post sujeito a atualizações permanentes, devido à *riqueza* do tema...
Por Paulo Bicarato, às 16:02 de 22.04.2014 - 1 já comentou aqui
Categoria: PretoNoBranco

27.03.2014

:: Pegue sua Toalha ::

Se vai ter água, é mero detalhe.
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*A toalha é um dos objetos mais úteis para um mochileiro interestelar. Em parte devido a seu valor prático: você pode usar a toalha como agasalho quando atravessar as frias luas de Beta de Jagla; pode deitar-se sobre ela nas reluzentes praias de areia marmórea de Santragino V, respirando os inebriantes vapores marítimos; você pode dormir debaixo dela sob as estrelas que brilham avermelhadas no mundo desértico de Kakrafoon; pode usá-la como vela para descer numa minijangada as águas lentas e pesadas do rio Moth; pode umedecê-la e utilizá-la para lutar em um combate corpo a corpo; enrolá-la em torno da cabeça para proteger-se de emanações tóxicas ou para evitar o olhar da Terrível Besta Voraz de Traal (um animal estonteantemente burro, que acha que, se você não pode vê-lo, ele também não pode ver você -- estúpido feito uma anta, mas muito, muito voraz); você pode agitar a toalha em situações de emergência para pedir socorro; e naturalmente pode usá-la para enxugar-se com ela se ainda estiver razoavelmente limpa.

Porém o mais importante é o imenso valor psicológico da toalha. Por algum motivo, quando um estrito (isto é, um não-mochileiro) descobre que um mochileiro tem uma toalha, ele automaticamente conclui que ele tem também escova de dentes, esponja, sabonete, lata de biscoitos, garrafinha de aguardente, bússola, mapa, barbante, repelente, capa de chuva, traje espacial, etc, etc. Além disso, o estrito terá prazer em emprestar ao mochileiro qualquer um desses objetos, ou muitos outros, que o mochileiro por acaso tenha “acidentalmente perdido”. O que o estrito vai pensar é que, se um sujeito é capaz de rodar por toda a Galáxia, acampar, pedir carona, lutar contra terríveis obstáculos, dar a volta por cima e ainda assim saber onde está sua toalha, esse sujeito claramente merece respeito.*
Isso tudo porque acabamos de receber um aviso:
*Povo da Terra, atenção, por favor.
Aqui fala Prostetnic Vogon Jeltz, do Conselho de Planejamento do Hiperespaço Galático. Como todos vocês certamente já sabem, os planos para o desenvolvimento das regiões periféricas da Galáxia exigem a construção de uma via expressa hiperespacial que passa pelo seu sistema estelar e infelizmente o seu planeta é um dos que terão que ser demolidos. O processo levará pouco menos de dois minutos terrestres. Obrigado.*

[terror!]

*Esta surpresa é injustificável. Todos os planos do projeto, bem como a ordem de demolição, estão em exposição no seu departamento local de planejamento, em Alfa Centauro, a 50 dos seus anos terrestres, e portanto todos vocês tiveram muito tempo para apresentar qualquer reclamação formal, e agora é tarde demais para criar caso.*

[mais terror, e alguém consegue enviar uma mensagem aos Vogons]

*Como assim, nunca estiveram em Alfa Centauro? Ora bolas, humanidade, fica só a quatro anos-luz daqui! Desculpem, mas se vocês não se dão ao trabalho de se interessar pelas questões locais, o problema é de vocês.*
Tô eu relendo, depois de uns bons anos, *O guia do mochileiro das galáxias*. Quando do informe e comentários do digníssimo Prostetnic Vogon Jeltz, do Conselho de Planejamento do Hiperespaço Galático, não consegui deixar de associar com a atual situação que vivemos com relação ao abastecimento de água na Grande São Paulo, e as brilhantes *propostas* do sr. governador -- o projeto existe, tá logo ali em Alfa Centauro, e a culpa é nossa por não termos tido interesse em conhecê-lo...

Baseado na prestigiosa colaboração do brôu Marcelo], a conclusão:
Alpha Tauri, ou α Tau, ou الدبران, ou ainda Aldebaran, fonte de energia de 39 galáxias, vai vendo, quase impotente, sua capacidade de produção e distribuição caindo a cada dia, por absoluta falta de competência do Comitê Estelar.

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Por Paulo Bicarato, às 17:02 de 27.03.2014 - Comentem!
Categoria: Primeira Edição