23.10.2014

:: Miguilim ::

Nesse turbilhão de informações, vira-e-mexe me surpreendo com um jornal da semana passada ou retrasada (algum suplemento cultural que guardei pra ler com calma), ou ainda com algum link aberto numa das dezenas de abas aqui do Firefox (que, da mesma maneira, abri em algum momento e deixei pra ler depois). Aí é que vou tentar me lembrar de onde surgiu aquele link: alguém me enviou? será de algum post do feicebúqui ou tuíter? foi um link-do-link-do-link... de onde? Na maioria das vezes, desisto de tentar rastrear esses passos -- fica o gostinho de *mistério*, se contrapondo à instantaneidade de uma googlada pra se checar uma informação simples.

Esse intróito vem pra justificar essa grata surpresa: uma moça italiana comentando nada menos que o *Miguilim*, do Guimarães Rosa. Assisti umas três vezes, tentando captar o que ela diz -- é, ainda que descendente de italianos, não *parlo niente, cáspita!*. Me contentei em me deliciar mais com a emoção da moça, que compartilho aqui (depois, descobri o blog dela e a fonte do vídeo):


Ao mesmo tempo, mandei o link pra quem de direito: seu Toninho (sim, meu pai). A resposta veio rápida -- curta, mas que ainda vai render outros papos:
Oi, Pô.
Uma análise muito interessante. Destrincha o livro todo.
Pena que não consegui guardar tudo. Em essência, ela diz que se trata de cenas simples, ou aparentemente simples, da vida, de uma vida localizada, mas que se aplica à vida universal. Diz que Rosa não narra uma história, mas a história. É uma história nostálgica, mas não de uma nostalgia puramente lembrança morta do passado, mas uma nostalgia que envolve todo o espaço. Conta, por exemplo, que Miguilim (Migulim, para ela) pergunta à mãe o que é o mar. Diante da resposta da mãe de que o mar é uma coisa muito grande, Miguilim compara a nostalgia ao mar...

Pai.
(Em tempo: *Pô* é meu apelido de infância, é como sou chamado até hoje na *famiglia*.) Do alto da sua vasta (vastíssima!) erudição, meu pai já me confessou que lamenta pouco ter lido o Rosa (comento mais a seguir) e, além das minhas impertinentes referências, é interessante como ele interpreta a interpretação-leitura de uma italiana. Mas, claro, uma coisa puxa outra, e vou eu fuçar aqui no meu baú virtual e reencontro uma mensagem de 2005, do copoanheiro Rai, este sim um legítimo roseano -- como se pode comprovar:
Cê não vai acreditar o que sucedeu comigo noite passada. Sonhei que estava na roça do Miguilim, o Mutum. Foi muito legal, acordei emocionado.

No sonho, eu estava vendo ele e a preta véia que é chegada na cachaça e mora num cafofo no fundo da roça, que agora não me recordo do nome e nem consigo encontrar meu exemplar de "Manuelzão e Miguilim", naquela passagem que eles estão fazendo um túmulo para enterrar as coisas do Ditinho. O mais emocionante é que os dois estavam conversando e só repetiam a frase da mãe enquanto ela lavava o pé do muleque morto e ficava repetindo "como era bonito o meu filhinho, como era bonito o cabelinho dele", e eles ficavam botando pedrinhas no túmulo e depois começaram a chorar. Foi um sonho, realmente.

O pior é que já procurei o livro para dar uma relida nesta parte, mas acho que minha irmã carregou o dito cujo na última vez que ela esteve aqui em casa. O pior, ou melhor, é que este sonho, como todo sonho, acho, tem toda aquela atmosfera onírica que fica com uma imagem embaçada e não dava para ver direito a cara do miguilim e da preta véia. Eu só recordo que os dois estavam de roupa branca e agachados num lugar que parecia o quintal da roça da minha mãe e que eu estava vendo eles de um lugar meio afastado, que dava para ver as duas siluetas de lado.

Nunca tinha sonhado com nada do Rosa, nem de outros escritores que costumo reler com frequência e paixão, antes e, sinceramente, acho que este foi uma dádiva. Foi uma puta experiência. Pena que durou pouco, pelo menos é o que me parece. Mas é isto, Bicarato, acho que cê vai gostar de saber sobre este sucedido. Agora vou ter que correr que a Dona Maria vai passar aqui para a gente ir ao cinema. Depois a gente proseia mais. Amplexos (como cê mêsss diz) e ósculos.

Rai.
Que o Miguilim é um dos alter-egos do Rosa, todos sabemos. A mítica imagem do médico emprestando os óculos pro Miguilim, que magicamente passa a enxergar o mundo, é antológica. Não à toa, a dona Calina, prima do Rosa, fundou o grupo Miguilim (mais aqui): sou testemunha de como, literalmente, o Rosa abriu horizontes pra muitos garotos e garotas de Cordisburgo, que passaram a enxergar muito além do Mutum. Que o diga a querida Magna, a Menina da Terceira Margem do Rio -- reproduzo o causo aqui:
Esse sertão do tamanho do mundo tem veredas que se cruzam e a gente fica sem entender como e por quê. Ou: as veredas existem só pra se cruzarem, mesmo...

Lá pelos idos de 1999, escapei uns dias e fui conhecer Cordisburgo, um *quase-lugar* que foi o berço do Guimarães Rosa. Vai que, tomando uma cerveja num boteco lá, fiquei sabendo dos *Miguilins* --crianças da cidade que eram incentivadas a lerem Rosa para depois apresentarem, narrando/interpretando/re-vivendo cada conto. Mais um pouco de conversa, e consegui agendar uma apresentação exclusiva de alguns Miguilins. Levado à casa de um deles, no quintal, meia dúzia de adolescentes me cercaram e começaram a declamar Burrinho Pedrês, Matraga e muito mais.

Não dá pra descrever a emoção. Mas uma das meninas conseguiu tirar de mim todas as lágrimas que nunca tive, recriando ali, ao vivo e em cores, letra por letra, toda a *Terceira Margem do Rio*. Saí dali mais vivo, mais leve, mais apaixonado pelo Rosa e por todos os Miguilins desse sertão sem fim.

Passam-se mais uns anos e, em 2001, um evento de/sobre o Rosa toma conta da *Casa das Rosas*, em plena Avenida Paulista. Lá, entre filmes, fotos, escritos, trouxeram também alguns Miguilins. Entre eles, revejo a Menina da Terceira Margem, aquela mesma que me fez chorar em Cordisburgo. Revivi e renasci mais uma vez.

Já contei essa historinha aqui mesmo no Alfarrábio, e a novidade vem agora: eis que, de repente, recebo uma mensagem de quem? Ela mesma, a Menina da Terceira Margem, a Magna --sim, pra completar, ela tem um nome mais do que apropriado...
Oi! Sou a Magna do Grupo Miguilim, de Cordisburgo. Vi seu comentário e não pude deixar de me emocionar. Moro em BH e faço Letras na UFMG. Gostaria de trocar idéias.
Li, reli, trili a mensagem, tentando acreditar que era verdade. E é!

Naquele dia, em Cordisburgo, fiz questão de pegar *autógrafos* de todos os Miguilins. Cada um, com letrinhas caprichadas, deixou uma citação do Rosa cercada de desenhinhos. Claro, tenho essa cadernetinha guardada até hoje --o *autógrafo* dessa moça-miguilim, ah! não vendo por nada desse mundo.
Ah, duvidam, é? Taí a prova:
Magna

Mas, das histórias e causos do Miguilim, lembro vagamente que, há tempos, li um relato de alguém que teve um parente que provavelmente teria servido de inspiração pra uns dos personagens do conto... (sim, lembrança vaga mesmo). Então, lá vamos nós garimpar essas internets -- nas penumbras da memória, sabia que o texto foi publicado num suplemento literário de algum jornalão, mas qual? Fuça daqui, fuça dali (não me perguntem o passo-a-passo), eureka! O texto é do sociólogo Sérgio Abranches, e saiu na Ilustríssima, em 17 de junho de 2012. Se alguém tem dúvidas sobre Miguilim ser um dos alter-egos do Rosa, segue:
Arquivo Aberto - Memórias que viram histórias
Vovô Juca e Miguilim

Curvelo, anos 1950
Sérgio Abranches

Guimarães Rosa é uma influência quase atávica, meio mágica. Nós somos do mesmo pedaço do sertão cerrado mineiro. Nossas biografias têm uma conexão de profunda significação para mim e consequências importantes para Guimarães.

Meu bisavô, avô de minha mãe, era um excepcional médico, em Curvelo, cidade vizinha à Cordisburgo de Guimarães. Era "o médico do Curvelo", desses que o interior raramente tem, respeitado pela comunidade médica mineira como "par inter pares". De formação germânica, era austero e distante. Mas sabia deixar claras suas preferências e seu afeto.

Um dos gestos dele que mais me encantavam era o de me entregar um novo estilingue -falávamos bodoque em Curvelo-, na minha infância, sempre que eu chegava para passar as férias.

Ele escolhia a melhor forquilha, o melhor pedaço de couro, a mais elástica câmera de pneu, tudo cortado meticulosamente com seu canivete afiado. Minha mãe, sempre cheia de cuidados, proibia tudo o que lhe parecia perigoso. Bodoque, então, nem pensar.

Chegávamos à casa de "vovô Juca", ele nos beijava e me dava o novo bodoque, de alta precisão para estilingues artesanais, que eu ostentaria pendurado no pescoço como um colar de galardão.

Sua autoridade de patriarca anulava e calava toda contra-ordem. Se dizia podia, então podia. Se dizia não, era não, universalmente, obediência geral. Logo bodoque podia e pronto.

"Não pode matar passarinho, é só para colher frutas", dizia.

A precisão era necessária, pois, para colher frutas sem estragá-las, era preciso atingir o ponto mínimo que unia o talo à fruta. Assim colhia mangas, laranjas e mexericas.

Ele nunca me contou de sua vida. O que sei e sabia me foi contado por minha avó e por minha mãe.

Por isso, foi com espanto e maravilhamento que o encontrei, inesperado e desconhecido, ao final da história de "Manuelzão e Miguilim": o doutor que descobre que Miguilim é curto da vista, lhe empresta os óculos redondos e elimina momentaneamente sua miopia. José Lourenço Vianna, o médico do Curvelo, meu bisavô, entrava a cavalo na história de Miguilim!

"Era o doutor José Lourenço, do Curvelo. Tudo podia."

Essa descoberta foi, infelizmente tardia. Aconteceu seis meses depois de ele ter morrido, quando eu tinha 16 anos. Acompanhei seus últimos momentos e nunca me esqueci do olhar de amor, orgulho e gratidão, em seus olhinhos muito azuis. O orgulho vinha das conversas longas que tínhamos, eu falando da mais variadas coisas e ele ouvindo, com a vida por um fio, sem forças para falar muito, poupando fôlego. Disse à minha mãe que eu havia me tornando um jovem muito culto.

Queria tê-lo interrogado, aflito de curiosidade, maravilhado e orgulhoso, sobre como chegou ao Mutum para descobrir a miopia de Miguilim.

Descobri depois que sua jornada até o Mutum era, na verdade, a transposição literária da gratidão de Guimarães Rosa ao médico, meu bisavô, que, em sua casa de Cordisburgo, em visita ao seu Rosa, o pai, descobriu que aquele menino predestinado a ser o maior entre os maiores da literatura brasileira era míope.

E lhe emprestou seus óculos redondinhos e ele viu que o seu mundo de Cordisburgo, o qual conhecia por partes, micropedaços que enxergava ajoelhado nas folhagens e nas pedras, sempre muito de perto, sem nunca perceber o conjunto com precisão, era bonito. "O Mutum era bonito! Agora ele sabia". Miguilim, reproduz aquela descoberta infantil crucial de Guimarães Rosa.

Na minha adolescência, mergulhava nos livros de Guimarães sempre com a sensação de encontrar ecos na minha alma. Ele via com muito mais poesia, profundidade e exatidão aquelas coisas do sertão que me impregnaram de sensações indeléveis e se inscreveram em minha memória inapagáveis.

Sérgio Abranches, PhD, sociólogo, cientista político, analista político e escritor. Autor de Copenhague: Antes e Depois, Civilização Brasileira, 2010, sobre a política global do clima; e de O Pelo Negro do Medo, romance, Record, 2012. Prêmio Jornalistas&Cia HSBC de Imprensa e Sustentabilidade: Personalidade do Ano em Sustentabilidade 2011. Prêmio Chico Mendes de Jornalismo Socioambiental 2013 (rádio).
Mas voltemos ao seu Toninho, comentando outro vídeo que mandei há algum tempo:
Pô, querido filho!

Terminados serviços "urgentes" que preencheram toda a semana, estou me dando uma folga para ver os e-mails, mais devido ao cansaço do que por não ter o que fazer. Foi então que abri o "Trecho do Guimarães Rosa". Se eu, que nada entendo do Rosa, me maravilhei, imagino você...

O Grande Sertão é, como a Bíblia, inesgotável em seu conteúdo. Quanto mais se volta à sua leitura, mais dele se tiram saberes.

Guimarães é mesmo alguém que, por mais lido e estudado que seja, sempre terá "boa-nova" para comunicar.

Pra completar, o Lima Duarte ainda recita um verso do Catulo da Paixão Cearense, pra mim um dos maiores intérpretes da alma do sertanejo.

Benditos esses homens que sabem captar nuanças do linguajar e idiossincrasias do nosso povo, que são imperceptíveis aos olhos do comum dos mortais. Perpetuam no história o "jeito brasileiro de ser".

Pai.
Ele se refere a, nada mais nada menos, que Inezita Barroso e Lima Duarte, mais Teo Azevedo na viola. Aliás, sei que, lá na década de 70, a querídola Nydia participou da produção de um espetáculo com o Lima Duarte interpretando o Grande Sertão:


Guimarães Rosa, Augusto Matraga, Riobaldo Tatarana, Diadorim, Manoelzão, Miguilim... Esses cabras me perseguem sem dó, e agradeço a Deus por essa bênção. Se não, como explicar os eternos reencontros com Miguilins?

A pergunta é retórica, não quero nem pretendo achar a(s) resposta(s). E sigo relendo o Rosa.
Por Paulo Bicarato, às 15:12 de 23.10.2014 - Comentem!
Categoria: Biblios

16.10.2014

:: Pra Entrar pros Anais ::

Aviso: este blog se dedica, entre outras questões menos (ou mais) *nobres*, ao jornalismo. Este post, aparentemente sadô-masô, deve ser lido sob esta ótica (pelo menos é nossa intenção). 'Brigado.

Notícia de um ano atrás, lembro-me de tê-la vista na época, mas talvez a *emoção* me tenha impedido de registrá-la aqui. Deu (ôps!) n'ODiário, de Londrina, Paraná: *Vibrador ecologicamente correto transforma prazer em terror em Maringá*. Sem nenhum dúvida, merece *entrar pros (nos?) anais* (ôps! ôps!) do jornalismo, sob a rubrica *história universal da infâmia* -- menos que a notícia em si (se é verídica ou não, é o que menos importa), mas principal e fundamentalmente pela forma com que foi relatada com a sensibilidade e, digamos, singeleza, pelo escriba Clóvis Augusto Melo. Segue:
Um homem solitário. Um filme pornô. E uma abobrinha. Esses três itens, aparentemente sem nenhuma, ou pouca, conexão, se tornaram personagens de uma história inusitada em Maringá nesta semana. E que acabou em uma cirurgia de emergência.

O homem de 63 anos estava em casa, alta madrugada de uma terça-feira sem graça, e decidiu assistir a um filme pornográfico. Entusiasmado com as performances dos atores, resolveu inserir um pouco mais de prazer em sua vida. Na falta de um consolo, revirou a despensa e reparou que, nas formas inocentes de uma abobrinha, havia um instrumento erótico em potencial.

Voltou à sala, o sexo correndo solto no DVD. Excitado, sacou da fruta (sim, é uma fruta) e introduziu seu vibrador ecologicamente correto no ânus. Triste destino o do vegetal, que escapou da panela para cair diretamente no fogo de uma paixão proibida.

O prazer se transforma em medo. Desconhecendo o poder de sucção de seu próprio reto, o homem se vê às voltas com uma abobrinha entalada e que não quer mais sair. Desesperado, tenta arrancar a fruta cilíndrica a todo custo - e quebra a dita ao meio. Um pedaço de tamanho considerável teimosamente se aloja no âmago do homem, cuja excitação inicial deu lugar a um terror incontrolável.

Às favas com a privacidade. Para salvar o próprio traseiro, é preciso colocá-lo na reta. Encaminha-se ao hospital, diz que há um objeto estranho em seu ânus. Enrola para dizer o que é e como foi parar lá dentro. Os médicos alertam que qualquer tipo de intervenção tem risco redobrado se eles não souberem exatamente o que aconteceu, e como. Pedem que o homem se acalme e sente para contar detalhadamente seu caso. Ele permanece em pé e se rende às argumentações dos especialistas. Conta tudo, afogueadamente, mas falando baixinho.

É um caso sério. Guias são preenchidas, exames são solicitados. Um raio-x descortina o renitente pedaço de abobrinha no interior do homem, a prova de um impossível caso de amor entre dois espécimes de reinos distintos. Aturdidos, os médicos decidem que é um caso de cirurgia. E de urgência.

O procedimento é realizado, o SUS - esse instituto tão criticado e vilipendiado - custeia a devolução da dignidade ao maringaense incauto. Aquele pedaço de mau caminho foi definitivamente retirado da vida dele.
Por Paulo Bicarato, às 14:59 de 16.10.2014 - 1 já comentou aqui
Categoria: Primeira Edição

08.10.2014

:: D. Pedro, o *Demonão* ::

carta_D_Pedro

Pra quem não conseguiu ler o original:
*Este lindo paçarinho
Canta, brinca, pica e fura
Mas quando torna repicar,
He mais doce a pica-dura*
Bilhetinho safadinho, né? Mas esse é um blog de respeito, e o post em questão tem outro propósito: alimentar, com o bilhete acima, o nosso repertório histórico, independentemente de vivermos essa época chata de pseudo-moralismo politicamente correto. Pois então, esse é só um exemplo de como o imperador D. Pedro I se correspondia com sua amante, a Marquesa de Santos. Auto-apelidado de *Demonão*, D. Pedro endereçava as cartinhas picantes à *Titília* (Domitila) -- o pesquisador Paulo Rezzutti publicou 94 cartas, datadas de 1824, pela Geração Editorial.

Titília_Demonão
Por Paulo Bicarato, às 15:56 de 08.10.2014 - Comentem!
Categoria: Biblios

29.09.2014

:: Jarbas, *o* Cara ::

Solidariedade, sustentabilidade, criatividade: tenho orgulho de dizer que sou amigo do Jarbas Noronha, um exemplar (graças a Deus, nem tão raro assim) de *gente do bem*. Já falei dele aqui no Alfarrábio mais de uma vez, e um causo é melhor que o outro: aqui, aqui e aqui.

Por Paulo Bicarato, às 14:56 de 29.09.2014 - 1 já comentou aqui
Categoria: Linux Vida Open Source

24.09.2014

:: Eis uma Santa ::

Dona Maria Ribeiro da Silva Tavares se encantou, aos 102 anos. Eis aí uma pessoa que dignifica a espécie e considero como a expressão perfeita de como Guimarães Rosa se referia ao *passamento*:
*as pessoas não morrem, ficam encantadas*
Ou, parafraseando o Manuel Bandeira:
*imagino Maria entrando no céu:
- Licença, meu branco!
E São Pedro bonachão:
- Entra, Maria. Você não precisa pedir licença*
Mandei a notícia pro seo Toninho (ou: meu pai), que resumiu:
Exemplos de santas e santos como Maria Ribeiro,
graças a Deus, existem e não são poucas(os).
Pena que nossa mídia, QUASE TODA vendida ao crime,
só tem olhos para rebeliões e fugas de presídios.
Enriqueça seu blogue, Paulo, exibindo casos como esse.
Como sou um cara obediente, registro aqui minha pequena homenagem a essa *Santa*. 'Brigado, dona Maria! :-)

*Se a mídia se dedicasse a mais coisas boas ao invés de tanta desgraça, talvez a sociedade estivesse contaminada não de medo e vingança, mas de afeto.* (A frase é da Nathalia, que não conheço, e me chegou via Feicebúqui.)

Leia mais:
>> Idosa que era cuidada por presos morre aos 102 anos em Porto Alegre
Maria Ribeiro da Silva Tavares fundou, em 1942, o Patronato Lima Drummond, que abriga presidiários do regime semiaberto

>> Presos tomam conta de mulher de 102 anos

Dona_Maria
Dona Maria com o cuidador Roberto Sotello,
em férias na lagoa dos Patos (RS)


Dona_Maria
Maria Tavares rodeada por seus anjos em 2013,
no patronato Lima Drumond, em Porto Alegre
Por Paulo Bicarato, às 15:06 de 24.09.2014 - Comentem!
Categoria: Primeira Edição

02.09.2014

:: Iauaretê ::

pixuna



Nota de rodapé: Ler nos remendos


Fotos: Araquém Alcântara

Meu Tio o Iauaretê

Eh, aí eu levantei, ia agarrar Maria Quirinéia na Goela. Mas ela que falou: -“Ói: sua mãe deve de ter sido muito bonita, boazinha muito boa, será?” Aquela mulher Maria Quirinéia muito boa, bonita, gosto dela muito, me alembro. Falei que todo o mundo tinha morrido comido de onça, que ela carecia de ir s’embora de mudada, naquela mesma hora, ir já, ir já, logo, mesmo... Pra qualquer outro lugar, carecia de ir. Maria Quirinéia pegou medo enorme, montão, disse que não podia ir, por conta do marido doido. Eu falei: eu ajudava, levava. Levar até na Vereda da Conceição, lá ela tinha pessoas conhecidas. Eh, fui junto. Marido dela doido nem deu trabalho, quage. Eu falava: -“Vamos passear, seo Nhô Suruvéio, mais adiante?” Ele arrespondia: -“A’pois, vamos, vamos, vamos...” Vereda cheia, tempo de chuva, isso que deu mais trabalho. Mas a gente chegou lá, Maria Quirinéia falou despedida: -“Mecê homem bom, homem corajoso, homem bonito. Mas mecê gosta de mulher não...” Aí, que eu falei: -“Gosto mesmo não. Eu –eu tenho unha grande...” Ela riu, riu, riu, eu voltei sozinho, beiradeando essas veredas todas.

Uê, uê, rodeei volta, despois, cacei jeito, por detrás dos brejos: queria ver veredeiro seo Rauremiro não. Eu tava com fome, mas queria de-comer dele não – homem muito soberbo. Comi araticum e fava doce, em beira de um cerrado eu descansei. Uma hora, deu aquele frio, frio, aquele, torceu minha perna... Eh, despois, não sei, não: acordei – eu tava na casa do veredeiro, era de manhã cedinho. Eu tava em barro de sangue, unhas todas vermelhas de sangue. Veredeiro tava mordido morto, mulher do veredeiro, as filhas, menino pequeno... Eh, juca-jucá, atiê, atiuca! Aí eu fiquei com dó, fiquei com raiva. Hum, nhem? Cê fala que eu matei? Mordi mas matei não... Não quero ser preso... Tinha sangue deles em minha boca, cara minha. Hum, saí, andei sozim p’los matos, fora de sentido, influição de subir em árvore, eh, mato é muito grande... Que eu andei, que eu andei, sei quanto tempo foi não. Mas quando que eu fiquei bom de mim outra vez, tava nu de todo, morrendo de fome. Sujo de tudo, de terra, com a boca amargosa, atiê, amargoso feito casca de peroba... Eu tava deitado no alecrinzinho, no lugar. Maria-Maria chegou lá perto de mim...

Mecê tá ouvindo, nhem? Tá aperceiando... Eu sou onça, não falei? Axi. Não falei – eu viro onça? Onça grande, tubixaba. Ói unha minha: mecê olha – unhão preto, unha dura... Cê vem, me cheira: tenho catinga de onça? Preto Tiodoro falou eu tenho, ei, ei... Todo dia eu lavo corpo no poço... Mas mecê pode dormir, hum, hum, vai ficar esperando camarada não. Mecê tá doente, carece de deitar no jirau. Onça vem cá não, cê pode guardar revólver...
Aaã! Mecê já matou gente com ele? Matou, a’pois, matou? Por quê que não falou logo? Ã-hã, matou, mesmo. Matou quantos? Matou muito? Hã-hã, mecê homem valente, meu amigo... Eh, vamos beber cachaça, até a língua da gente picar de areia... Tou imaginando coisa, boa, bonita: a gente vamos matar camarada, ’manhã? A gente mata camarada, camarada ruim, presta não, deixou cavalo fugir p’los matos... Vamos matar?! Uh, uh, atimbora, fica quieto no lugar! Mecê tá muito sopitado... Ói: mecê não viu Maria-Maria, ah, pois não viu. Carece de ver. Daqui a pouco ela vem, se eu quero ela vem, vem munguitar mecê...

Nhem? A’bom, a’pois... Trastanto que eu tava lá no alecrinzinho com ela, cê devia de ver. Maria-Maria é careteira, raspa o chão com a mão, pula de lado, pulo frouxo de onça, bonito, bonito. Ela ouriça o fio da espinha, incha o rabo, abre a boca e fecha, ligeiro, feito gente com sono... Feito mecê, eh, eh... Que anda, que anda, balançando, vagarosa, tem medo de nada, cada anca levantando, aquele pêlo lustroso, ela vem sisuda, mais bonita de todas, cheia de cerimônia... Ela rosnava baixinho pra mim, queria vir comigo pegar o preto Tiodoro. Aí, me deu aquele frio, aquele friiio, a cãimbra toda... Eh, eu sou magro, travesso em qualquer parte, o preto era meio gordo... Eu vim andando, mão no chão... Preto Tiodoro com os olhos doidos de medo, ih, olho enorme de ver... Ô urro!...

Mecê gostou, ã? Preto prestava não, ô, ô, ô... Ói: mecê presta, cê é meu amigo... Ói: deixa eu ver mecê direito, deix’eu pegar um tiquinho em mecê, tiquinho só, encostar minha mão...

Ei, ei, que é que mecê tá fazendo?

Desvira esse revólver! Mecê brinca não, vira o revólver pra outra banda... Mexo não, tou quieto, quieto... Ói: cê quer me matar, ui? Tira, tira revólver pra lá! Mecê tá doente, mecê tá variando... Veio me prender? Ói: tou pondo mão no chão é por nada, não, é à-toa... Ói o frio... Mecê tá doido?! Atiê! Sai pra fora, rancho é meu, xô! Atimbora! Mecê me mata, camarada vem, manda prender mecê... Onça vem, Maria-Maria, come mecê... Onça meu parente... Ei, por causa do preto? Matei preto não, tava contando bobagem... Ói a onça! Ui, ui, mecê é bom, faz isso comigo não, me mata não... Eu – Cacuncozo... Faz isso não, faz não... Nhenhenhém... Heeé!...

Hé... Aar-rrâ... Aaâh... Cê me arrhoôu... Remuaci... Rêiucàanacê... Araaã...Uhm... Ui... Ui... Uh... uh... êeêê... êê... ê...

(João Guimarães Rosa, Estas Histórias, Rio, José Olympio, 1962)
"Meu Tio o Iauaretê" (jaguaretê, jaguar, do tupi yaware'te - onça verdadeira) é um monólogo-diálogo de um bugre contratado para "desonçar o mundo". Exímio caçador, ele começa a liquidar pinimas (a pintada, ou cangussu), pixunas (a preta) e suaçuranas (a parda, também chamada de sussuarana, onça-vermelha, puma ou leão-baio) mas, aos poucos, vai se identificando com elas, até se arrepender e passar a protegê-las. Parou de matar.
Por Paulo Bicarato, às 19:26 de 02.09.2014 - Comentem!
Categoria: Biblios

15.08.2014

:: Suassuna no Céu ::

Copy&paste do blog do Leonardo Boff -- charge do Dalcio.

A chegada de Ariano Suassuna no Céu

Autores: Klévisson Viana e Bule-Bule

Nos palcos do firmamento / Jesus concebeu um plano / De montar um espetáculo / Para Deus Pai Soberano / E, ao lembrar de um dramaturgo, / Mandou buscar Ariano.

Jesus mandou-lhe um convite, / Mas Ariano não leu. / Estava noutro idioma, / Ele num canto esqueceu, / Nem sequer observou / Quem foi que lhe escreveu.

Depois de um tempo, mandou / Uma segunda missiva. / A secretária do artista / Logo a dita carta arquiva, / Dizendo: — Viagem longa / A meu mestre não cativa.

Jesus sem ter a resposta / Disse torcendo o bigode: / — Eu vejo que Suassuna / É teimoso igual a um bode. / Não pode, mas ele pensa / Que é soberano e pode!

Jesus, já perdendo a calma, / Apelou pra outro suporte. / Para cumprir a missão, / Autorizou Dona Morte: / — Vá buscar o escritor, / Mas vê se não erra o corte!

A morte veio ao País / Como turista estrangeiro, / Achando que o Brasil / Era só Rio de Janeiro. / No rastro de Suassuna, / Sobrou pra Ubaldo Ribeiro.

Porém, antes de encontrá-lo, / Sofreu um constrangimento / Passando em Copacabana, / Um malfazejo elemento / Assaltou ela levando / Sua foice e documento.

A morte ficou sem rumo / E murmurou dessa vez: / — Pra não perder a viagem / Vou vender meu picinez / Para comprar outra foice / Na loja de algum chinês.

Por um e noventa e nove / A dita foice comprou. / Passando a mão pelo aço, / Viu que ela enferrujou / E disse: — Vai essa mesma, / Pois comprar outra eu não vou!

A morte saiu bolando, / Sem direção e sem tino, / Perguntando a um e a outro / Pelo escritor nordestino, / Obteve informação, / Gratificando um menino.

Ao encontrar João Ubaldo, / Viu naufragar o seu plano, / Se lembrando da imagem / Disse: — Aqui há um engano. / Perguntou para João / Onde é que estava Ariano.

Nessa hora João Ubaldo, / Quase ficando maluco, / Tomou um susto arretado, / Quando ali tocou um cuco, / Mas, gaguejando, falou: / —Ele mora em Pernambuco!

A morte disse: — Danou-se / Dinheiro não tenho mais / Para viajar tão longe, / Mas Ariano é sagaz. / Escapou mais uma vez, / Vai você mesmo, rapaz!

Quando chegou lá no Céu / Com o escritor baiano, / Cristo lhe deu uma bronca: / — Já foi baldado o meu plano. / Pedi um da Paraíba / E você trouxe um baiano.

João Ubaldo é talentoso, / Porém não escreve tudo. / “Viva o Povo Brasileiro” / É sua obra de estudo, / Mas quero peça de humor, / Que o Céu tá muito sisudo.

Foi consultar os arquivos / Pra ressuscitar João, / Mas achou desnecessário, / Pois já era ocasião / Pra ele vir prestar contas / Ali na Santa Mansão.

Jesus olhou para a Morte / E disse assim: — Serafina, / Vejo não és mais a mesma. / Tu já foste mais malina, / Tá com pena ou tá com medo, / Responda logo, menina?!

— Jesus, eu vou lhe falar / Que preciso de dinheiro. / Ariano mora bem / No Nordeste brasileiro. / Disse o Cristo: —Tenho pressa, / Passe lá no financeiro!

— Só faço que é pra o Senhor. / Pra outro, juro não ia. / Ele que se conformasse / Com o escritor da Bahia. / Se dependesse de mim, / Ariano não morria.

A morte na internet / Comprou passagem barata. / Quase morria de susto / Naquela viagem ingrata. / De vez em quando dizia: / — Eita que viagem chata!

Uma aeromoça lhe trouxe / Duas barras de cereais. / Diz ela: — Estou de regime. / Por favor, não traga mais, / Porque se vier eu como, / Meu apetite é voraz!

Quando chegou no Recife, / Ficou ela de plantão / Na porta de Ariano / Com sua foice na mão, / Resmungando: — Qualquer hora / Ele cai no alçapão!

A morte colonizada, / Pensando em lhe agradar, / Uma faixa com uma frase / Ela mandou preparar, / Dizendo: “Welcome Ariano”, / Mas ele não quis entrar.

Vendo a tal faixa, Ariano / Ficou muito revoltado. / Começou a passar mal, / Pediu pra ser internado / E a morte foi lhe seguindo / Para ver o resultado.

Eu não sei se Ariano / Morreu de raiva ou de medo. / Que era contra estrangeirismos, / Isso nunca foi segredo. / Certo é que a morte o matou / Sem lhe tocar com um dedo.

Chegou no Céu Ariano, / Tava a porta escancarada. / São Pedro quando o avistou / Resmungando na calçada, / Correu logo pra o portão, / Louvando a sua chegada.

Um anjinho de recado / Foi chamar o Soberano, / Dizendo: – O Senhor agora / Vai concretizar seu plano. / São Pedro mandou dizer / Que aqui chegou Ariano.

Jesus saiu apressado, / Apertando o nó da manta / E disse assim: — Vou lembrar / Dessa data como santa / Que a arte de Ariano / Em toda parte ela encanta.

São Pedro lá no portão / Recebeu bem Ariano, / Que chegou meio areado, / Meio confuso e sem plano. / Ao perceber que morreu, / Se valeu do Soberano.

Com um chapelão de palha / Chegou Ascenso Ferreira, / O grande Câmara Cascudo, / Zé Pacheco e Zé Limeira. / João Firmino Cabral / Veio engrossar a fileira.

E o próprio João Ubaldo / (Que foi pra lá por engano) / Veio de braços abertos / Para abraçar Ariano. / E esse falou: – Ubaldo, / Morrer não tava em meu plano!

Logo chegou Jorge Amado / E o ator Paulo Goulart. / Veio também Chico Anysio / Que começou a contar / Uma anedota engraçada / Descontraindo o lugar.

Logo chegou Jesus Cristo, / Com seu rosto bronzeado. / Veio de braços abertos, / Suassuna emocionado / Disse assim: — Esse é o Mestre, / O resto é papo furado!

Suassuna que, na vida, / Sonhou em ser imortal, / Entrou para Academia, / Mas percebeu, afinal, / Que imortal é a vida / No plano celestial.

Jesus explicou seus planos / De fazer uma companhia / De teatro e ele era / O escritor que queria / Para escrever suas peças, / Enchendo o Céu de alegria.

Nisso Ariano responde: / — Senhor, eu me sinto honrado, / Porém escrever uma obra / É serviço demorado. / Às vezes gasto dez anos / Para obter resultado.

Nisso Jesus gargalhou / E disse: — Fique à vontade. / Tempo aqui não é problema, / Estamos na eternidade / E você pode criar / Na maior tranquilidade.

Um homem bem pequenino / Com chapeuzinho banzeiro, / Com um singelo instrumento, / Tocou um coco ligeiro / Falando da Paraíba: / Era Jackson do Pandeiro.

Logo chegou Luiz Gonzaga, / Lindu do Trio Nordestino, / E apontou Dominguinhos / Junto a José Clementino / E o grande Humberto Teixeira, / Raul e Zé Marcolino.

Depois chegou Marinês / Com Abdias de lado / E Waldick Soriano, / Com um vozeirão impostado, / Cantou “Torturas de Amor”, / Como sempre apaixonado.

Veio então Silvio Romero / Com Catulo da Paixão, / Suassuna enxugou / As lágrimas de emoção / E Catulo, com seu pinho, / Cantou “Luar do Sertão”.

Leandro Gomes de Barros / Junto a Leonardo Mota, / Chegou Juvenal Galeno, / Otacílio Patriota. / Até Rui Barbosa veio / Com título de poliglota.

Chegou Regina Dourado, / Tocada de emoção, / Juntinho de Ariano, / Veio e beijou sua mão / E disse: — Na sua peça / Quero participação.

Ariano dedicou-se / Àquele projeto novo. / Ao concluir sua peça, / Jesus deu o seu aprovo / E a peça foi encenada / Finalmente para o povo.

Na peça de Ariano / Só participa alma pura. / Ariano virou santo, / Corrigiu sua postura. / Lá no Céu ganhou o título / Padroeiro da cultura.

Os artistas que por ele / Já nutriam grande encanto / Agora estando em apuros, / Residindo em qualquer canto, / Lembra de Santo Ariano / E acende vela pro santo.

Ariano foi Quixote / Que lutou de alma pura. / Contra a arte descartável / Vestiu a sua armadura / Em qualquer dia do ano / Eu digo: viva Ariano / Padroeiro da Cultura!

FIM

suassuna
Por Paulo Bicarato, às 14:12 de 15.08.2014 - Comentem!
Categoria: Biblios

14.08.2014

:: À Flor da Pele ::

aflordapele


13 de agosto, início da tarde, meu pai me liga pra comentar sobre o acidente fatídico com o candidato Eduardo Campos. Mas, além da vítima ilustre, meu pai estava preocupado se havia algum conhecido meu, colega jornalista, na equipe. Não, não conhecia nenhum deles -- Alexandre Severo, fotógrafo; Percol, assessor; Marcelo Lyra, cinegrafista; Pedrinho Valadares, assessor de campanha; Geraldo Magela Barbosa da Cunha, piloto; e Marcos Martins, piloto.

Mas logo na sequência pipocaram links pra um projeto do fotógrafo Alexandre Severo [site/portfólio aqui], que recebeu menção honrosa no prêmio Wladimir Herzog. O ensaio fotográfico fala por si, mas, além da bela apresentação a seguir, assinada por João Valadares, pensei apenas que o nome, *À Flor da Pele*, bem poderia prescindir da crase -- *A Flor da Pele* --, além da associação direta com *A Cor da Pele*. Mas tô divagando... fiquemos com o belíssimo e sensível ensaio do Alexandre.

severoÀ Flor da Pele

Nasceram sem cor, numa família de pretos. Três irmãos que sobrevivem fugindo da luz, procurando alegria no escuro. O mais novo diz que é branco vira-lata. Os insultos do colégio viraram identidade. A mãe cochicha que são anjinhos. Eles têm raça sim. São filhos de mãe negra. O pai é moreno. Estiraram língua para as estatísticas e, por um defeito genético, nasceram albinos. Negros de pele branca. A chance dos três nascerem assim na mesma família era de uma em um milhão. Nasceram. Dos cinco irmãos, apenas a mais nova é filha de outro pai. Esta é a história do contrário.

>> https://www.youtube.com/watch?v=MulO4kftPtE
Por Paulo Bicarato, às 14:08 de 14.08.2014 - Comentem!
Categoria: Coleguinhas

08.08.2014

:: Aqualung ::

Camarada recém-conhecido, e que descobrimos ser primo de outro camarada véio-de-guerra, diz que sempre me via no *escritório* (ou: parada obrigatória pós-expediente) e me associava a uma imagem antológica: nada mais nada menos que a silhueta do Ian Anderson, do Jethro Tull.

Isso é pra quem pode, né? :-)

Jethro Tull
Por Paulo Bicarato, às 15:19 de 08.08.2014 - Comentem!
Categoria: Egotrip

04.08.2014

:: Menino-Passarinho ::

passarim
Surge um moleque, do nada, e se aboleta numa árvore. Por sorte ou azar, foi escolher logo um bairro nobre, próximo a um shopping. Dão-lhe o apelido de menino-passarinho -- ele sonha em ser mágico, *daqueles de baralho*.

Mas o moleque incomoda: chegam a sugerir que *derrubem a árvore para ver se ele vai embora*, sofismam tentando esconder o olhar sanitarista (*não existe preconceito em relação a ele, o problema é a atitude que ele tem* -- que atitude?).

*De onde eu venho todo mundo vive em árvores, moça. E eu já morei em outra dessas no fim da rua. Escolhi esta aqui porque testei e nela foi mais fácil colocar minha coisas.* Mas ele também angaria a simpatia de alguns (ainda que minoria, criam um cinturão de proteção), e ganha alimentos, roupas, sobras dos outros. Com duas garrafinhas de refrigerante pela metade, ele divide seu nada com a repórter: *pode levar essa, moça; uma só já dá pra mim*.

Se ele voou do Rio pra Sampa só pra nos dar uma lição, fez muito bem feito. 'Brigado, Passarim!
*Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão...
Eu passarinho!*
>> Mário Quintana
O causo tá aqui, e o final feliz, aqui.

Segundo clichê: comentário do seu Toninho, mais conhecido como *meu pai*:
Esqueçamos tudo e fiquemos com o "final feliz".
Prova de que Deus ainda não se esqueceu do mundo é que para um "Pio de Almeida" mais um que outro morador da Veiga Filho, o "Menino-Passarinho" encontrou Marias Nilzas, Dulces Santucci, Lucianas Sodré, Marias Rosálias, Gabrielas Nunes, Eduardos Lemos e Nicks Ayer.
Estes podem ter certeza: no dia que "partirem daqui" farão parte da linha de frente da "Unidos da Veiga Filho", mas não cá em baixo. Lá em cima.
Terceiro clichê: Nicolau, Belisa, Gabi, Eduardo, Rosália, Luciana, Cauê e Tamiê: eis as mães e pães do Gabriel, o menino-passarinho -- a história tá aqui.

mães do Gabriel
Por Paulo Bicarato, às 14:56 de 04.08.2014 - Comentem!
Categoria: Etilíricas

24.07.2014

:: De: João Grilo e Chicó -- para: Ariano Suassuna ::

João GriloHá tempos eu não via uma homenagem tão bacana, belíssima mesmo -- e ainda mais nesses tempos em que se vão João Ubaldo, Rubem Alves... e, agora, o Mestre Ariano Suassuna.

Mas os atores Matheus Nachtergale e Selton Mello -- ou melhor, o João Grilo e o Chicó -- deixam provas de que a obra de um autor é muito maior do que ela mesma. Eles mostram, nos belos textos-homenagens ao Mestre Suassuna, que não apenas interpretaram as personagens (o que não lhes tira os méritos como atores, ótimos), mas incorporaram a filosofia armorial, a crítica, o bom humor e a verve do Suassuna.

Entre inúmeros outros textos, mais ou menos críticos, destaco as homenagens do João Grilo e do Chicó por terem sido duas personagens que popularizaram a obra do Mestre, com o *Auto da Compadecida*, dirigido por Guel Arraes em 2000, inspirado na peça homônima que Suassuna escreveu em 1955.


"Carta para Ariano,

Quem te escreve agora é o Cavalo do teu Grilo. Um dos cavalos do teu Grilo. Aquele que te sente todos os dias, nas ruas, nos bares, nas casas. Toda vez que alguém, homem, mulher, criança ou velho, me acena sorrindo e nos olhos contentes me salva da morte ao me ver Grilo.

Esse que te escreve já foi cavalgado por loucos caubóis: por Jó, cavaleiro sábio que insistia na pergunta primordial. Por Trepliev, infantil édipo de talento transbordante e melancólicas desculpas. Fui domado por cavaleiros de Shakespeare, de Nelson, de Tchekov. Fui duas vezes cavalgado por Dias Gomes. Adentrei perigosas veredas guiado por Carrière, por Büchner e Yeats. Mas de todos eles, meu favorito foi teu Grilo.

O Grilo colocou em mim rédeas de sisal, sem forçar com ferros minha boca cansada. Sentou-se sem cela e estribo, à pelo e sem chicote, no lombo dolorido de mim e nele descansou. Não corria em cavalgada. Buscava sem fim uma paragem de bom pasto, uma várzea verde entre a secura dos nossos caminhos. Me fazia sorrir tanto que eu, cavalo, não notava a aridez da caminhada. Eu era feliz e magro e desdentado e inteligente. Eu deixava o cavaleiro guiar a marcha e mal percebia a beleza da dor dele. O tamanho da dor dele. O amor que já sentia por ele, e por você, Ariano.

Depois do Grilo de você, e que é você, virei cavalo mimado, que não aceita ser domado, que encontra saídas pelas cêrcas de arame farpado, e encontra sempre uma sombra, um riachinho, um capim bom. Você Ariano, e teu João Grilo, me levaram para onde há verde gramagem eterna. Fui com vocês para a morada dos corações de toda gente daqui desse país bonito e duro.

Depois do Grilo de você, que é você também, que sou eu, fui morar lá no rancho dos arquétipos, onde tem néctar de mel, água fresca e uma sombra brasileira, com rede de chita e tudo. De lá, vê-se a pedra do reino, uns cariris secos e coloridos, uns reis e uns santos. De lá, vejo você na cadeira de balanço de palhinha, contando, todo elegante, uma mesma linda estória pra nós. Um beijo, meu melhor cavaleiro.

Teu,
Matheus Nachtergale"
.::|::."E o Brasil ficou mais pobre.
E triste.
Ariano, poeta entendedor do Brasil profundo.
Defensor de nossa riqueza cultural e emocional.
Sua obra descomunal fica para sempre.
Tive a honraria graúda de dar vida a um de seus passarinhos (era como se referia a seus personagens queridos).
Chicó fui eu, Chicó é Ariano, Chicó é tu.
Chicó e João Grilo têm morada no coração dos brasileiros.
E na minha mente e coração sempre estarão gravadas as palavras sublimes que proferi em O Auto da Compadecida:

"Cumpriu sua sentença. Encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca do nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados."

Celebre-se o homem, celebre-se o brasileiro, celebre-se o artesão das palavras.
E se um dia perguntarem se tudo que criou foi exatamente assim como ele idealizou, imaginarei Ariano dizendo com um sorriso de menino nos lábios: "Não sei, só sei que foi assim.""

Selton Mello


No vídeo, trecho do filme com o julgamento do João Grilo, que tem por advogada Nossa Senhora:



Por Paulo Bicarato, às 13:33 de 24.07.2014 - Comentem!
Categoria: Biblios

15.07.2014

:: Balada para un Loco ::

Astor Piazzolla & Amelita Baltar - *Balada para un loco*

Letra e versão em português aqui.

Por Paulo Bicarato, às 14:30 de 15.07.2014 - Comentem!
Categoria: Pensatas

13.06.2014

:: Walk Again ::

Miguel Nicolelis: o pontapé foi apenas o primeiro passo. Conheça os bastidores do projeto Walk Again.


Por Paulo Bicarato, às 14:34 de 13.06.2014 - Comentem!
Categoria: Primeira Edição

23.05.2014

:: Ô, fôia, quéisso? ::

Tem colega aqui que jura que é *apenas* um errinho, um clique errado na hora de publicar. A Pollyana concorda, mas eu fico mêsss é com o sifonáptero na parte posterior do pavilhão auricular. Cumãssim?

Matéria publicada no site (não vi na edição impressa, recebo a edição regional), aqui, com data de ontem, 23/5, quando salvei a tela, traz materinha recauchutada e deixa explícita a data original: 29/5/2001 -- sim, isso mêss: 13 anos atrás!

folha01


Fui lá nos arquivos digitais da própria fôia, aqui -- a data é da edição impressa, 30/5/2001:

folha02


Sei lá, entendem? Tirem suas conclusões.

O post original do feicebúqui tá aqui, com a tela salva no dia 20/5.
Por Paulo Bicarato, às 15:56 de 23.05.2014 - Comentem!
Categoria: PretoNoBranco

22.04.2014

:: Manual do Polemista de Plantão ::

Segundo as lições de tio rei, a fórmula não é muito complicada, mas é preciso atenção pa sincronizar todos os elementos de forma a parecer (só parecer) algo coerente e uniforme. Vamos lá:
- odeie as esquerdas, todas! se você teve a desventura de nascer canhoto, aplique o cilício em penitência eterna, e esforce-se por escrever com a mão direita (isso vai entortar ainda mais sua escrita);
- seja politicamente correto, mas ao contrário: destile toda sua verborragia contra mulheres, gays, minorias, índios, negros, pobres, o papa, as mães dos esquerdistas, as avós dos esquerdistas, o Lula (pai dos esquerdistas), qualquer coisa que remeta à cor vermelha, qualquer coisa que fale em igualdade, fraternidade;
- cultue a tradição, a família e a propriedade como se vivêssemos no século XIV, por aí;
- vá aos EUA pelo menos uma vez por ano, pra se desintoxicar desse paisinho subdesenvolvido em que teve o azar de nascer e é condenado a viver -- e exiba, orgulhoso, como você consumiu e consumiu e consumiu (você não *gasta*, *consome*) em um monte de tanqueiras desnecessárias e passeios insossos;
- eleja uma crise por mês -- na falta de opção, ponha sempre a culpa no preço do tomate: é batata!;
- em seus textos, deixe pra lá a coerência, inclusive a formal: qualquer relação causal entre os fatos (negativos) e os culpados (sempre o governo, claro) é absolutamente dispensável -- a falácia é sua arma mais poderosa;
- destile ódio e não poupe adjetivos, principalmente exaltando seu rico vocabulário (ninguém precisa entender mesmo);
- pode deixar explícito seu insucesso amoroso, e revele que sua adolescência foi frustrada (porque sempre pautada pela *razão*, deixando as *paixões*, ora, pros fracos e sensíveis) -- assim você se exime de culpa e se torna vítima do aparelhamento ideológico a que fomos submetidos;
- seja chato, babaca, imbecil, e comemore as pedradas com o gozo de quem não sabe e nem quer aprender a gozar (é uma gozação pra com os outros e pra consigo mesmo, entende?).
Alguém mais tem dicas?

P.S.: post sujeito a atualizações permanentes, devido à *riqueza* do tema...
Por Paulo Bicarato, às 16:02 de 22.04.2014 - 1 já comentou aqui
Categoria: PretoNoBranco