26.08.2015

:: Dois Toninhos e uma Vassoura ::

Depois de alguns meses da *ida antes do combinado* do seu Toninho, eu e meus irmãos nos reunimos pra ajeitar as burrocracias inevitáveis e, enfim, dar um destino aos poucos pertences do Papa – a maior e inestimável herança, sem dúvida nenhuma, ele nos deixou com seu exemplo de vida. Em meio às roupas, um relógio e uma ou outra coisinha pessoal (além de algumas garrafas de vinho, que o Cacá logo quis se apropriar), um singelo e silencioso pen-drive quase passou despercebido.

Além de um blazer, coube a mim a guarda do misterioso arquivo digital, ainda que meu pai nunca tenha sido nada misterioso – muito pelo contrário. Mas o que haveria ali?, fiquei me perguntando, evitando qualquer especulação que, de resto, seria inócua. Deixei o pen-drive quietinho por uns dias, tentei não pensar nele, fui viajar com a Rose.

Até que resolvi encarar o bichinho. Entre dezenas de textos e arquivos *de trabalho*, deparo-me com um arquivinho curioso: *vassoura.docx*. Nos metadados, vejo que foi criado em setembro de 2011 – poucos meses após sua ida pra Brasília (lá por julho ou agosto, segundo o Marcelo), e um pouco mais após a ida, também *fora do combinado*, da Mama, em janeiro.

Abro o arquivo e, além do nome, o título é ainda mais curioso: *Dois Toninhos e uma vassoura*. É uma entrevista, pra alguma revista redentorista -- os *dois Toninhos* são revelados logo no início, o Bicarato e o Thozzi, que imagino terem sido colegas de seminário. Já a *vassoura*... que cazzo teria a ver? Ao longo do texto, mostra-se mais do que ilustrativa: é a metáfora perfeita do exemplo de dedicação, de humildade e de vida de meu pai, e o porquê dele ter optado por, aposentado e viúvo, seguir com seu espírito missionário, fiel e servindo aos seus ideais – como sempre. Segue o texto na íntegra:
DOIS TONINHOS E UMA VASSOURA

É de conhecimento de todos que Antônio Bicarato enviuvou, os filhos encaminhados, ele aposentado. Vejam quanto de tempo livre passou a ter. Com os ideais de Afonso, que ainda o fazem vibrar, em vez de descanso, partiu para um desafio. Para surpresa de muitos, ofereceu-se para trabalhar numa distante prelazia. Como missionário. A Providência, porém, quis que ele fosse prestar serviços à CNBB, em Brasília, a pedido de seu Secretário Geral e recém nomeado bispo auxiliar da capital federal, Dom Leonardo Ulrich Steiner, OFM.

Mas, algo estranho, espirituoso, está por trás dessa história. Espirituoso em dois sentidos, o do humor, do bom, do puro humor, e o do Espírito, aquele que inspira o bem, o amor, aquele que nos oferece o dom do conselho, da sabedoria. Conversamos com dois Toninhos, o Toninho Bicarato e o Toninho Thozzi. Com o Thozzi, porque parece que ele tem a ver com a história.

Revista: Bicarato, passamos a vida inteira correndo atrás de nossos sonhos. De alguma forma, conseguimos realizar muitos deles, nunca todos. E, de repente, parece não haver mais com que sonhar. Filhos encaminhados, aposentadoria, saúde fragilizando-se... Mas, sempre há algo a ser feito. Acredito que foi isso que lhe passou pela cabeça. Como e por que você resolveu doar-se em missão, e tomou a decisão de oferecer-se para trabalhar na prelazia de São Félix do Araguaia?

Bicarato: Bem, Paulinho, a história é longa, mas tento abreviá-la. Seu começo envolve Dom Luiz Cappio, bispo da diocese da Barra-BA, que, como você e muitos sabem, é guaratinguetaense. Por ocasião da greve de fome que fez em protesto pelos desmandos cometidos contra o rio São Francisco, a revista Veja denegriu sua imagem. No meu modo de ver, ela o caluniou. Saí em sua defesa e escrevi uma carta à revista. Esta não teve a hombridade nem de responder nem de publicar a carta. Prometi nunca mais pôr os olhos em Veja – por mais que seu título me conclame a isso. Daí nasceu o sonho de um dia partilhar a dura e abnegada vida que Dom Luiz vive lá no sertão baiano, às margens do lendário e tão maltratado Velho Chico, rio que – é bom que se diga – Dom Cappio conhece da nascente à foz, na divisa do litoral da Bahia com Sergipe. Conhece inclusive as realidades de vida das populações ao longo de seu curso.

Revista: Pois é, Toninho, e como é que essa história acabou desembocando em Dom Leonardo?

Bicarato: Dom Leonardo entrou no contexto por um desses desígnios que só posso dizer ser de Deus. A semana em que me preparava para escrever para dom Cappio foi exatamente a semana do encerramento da Assembleia Geral da CNBB, que por primeira vez aconteceu em Aparecida. Dom Leonardo, que anos atrás trabalhou em Guará quando ainda simples frei Uli – corruptela de Ulrich, seu primeiro nome, mudado para Leonardo, nome de seu falecido pai, para facilitar –, fora conselheiro espiritual da Equipe 1 de Guará. Estando em Aparecida, quis rever o pessoal da equipe antes de retornar à sua prelazia. Marcou-se para isso um jantar no dia 10 de maio. Alceu, responsável da equipe, ligou-me na véspera convidando-me. Fui porque não podia perder essa rara ocasião de revê-lo. Na viagem de São José para Guará, conversando com meus botões, me veio o questionamento: por que não Dom Leonardo, que vive no mundo sem fim de uma prelazia, também às margens de outro rio famoso, o Araguaia, em vez de Dom Cappio? O sonho era o mesmo. O que mudava era o endereço de sua concretização. E o questionamento ia e vinha, persistente, até que, a dado momento, acheguei-me a Dom Leonardo e pedi-lhe um minuto de conversa à parte após o jantar. Ao lhe revelar o que me ia no coração, inclusive dizendo que meu anseio inicial estava voltado para o sertão baiano, ele abriu um largo sorriso, meio maroto até, e me disse: “Claro que quero, Toninho, só que não em São Félix, mas em Brasília”. Semelhantes a esse já senti outros sustos na vida. Nesse, porém, parecia haver uma mão a me amparar.

Revista: Diga lá, Thozzi, que história é essa da vassoura e que tem a ver com a história de vida do colega, que nos empolgou com a opção tomada?

Thozzi: Veja bem, Paulino. Em fevereiro, no retiro, encontramos o Toninho Bicarato muito triste. Afinal, a perda de quem nos acompanha por toda uma vida nos abala. Então, no intuito de distraí-lo e envolvê-lo, contei a história que me acontecera em Vitória-ES. Estive lá em fevereiro de 2007, para um curso do CEBI, quinze dias. Aproveitando um momento de folga, fui conhecer a igreja e o convento da Penha. Enquanto admirava a paisagem e a solidez da construção, fiquei olhando um frade franciscano que, cantando, varria o chão da igreja. Percebendo que eu o observava, ele puxou conversa, perguntou-me de onde eu era. Respondi-lhe que de São Paulo, ao que ele me disse ser de São Paulo também. Aí, contou-me que sempre fora ardoroso admirador de são Francisco e sua obra, até pensara, na infância, em ser frade... mas cresceu, tornou-se advogado-procurador do Município de São Paulo, casou-se, teve filhos e netos... Aos 65 anos ficou viúvo. E com a vida vazia! Foi quando repensou sua primeira vocação, buscou a Ordem Franciscana, e foi aceito como Irmão Menor (irmão leigo). E completou: “Sou muito feliz aqui! São sete anos já... de manhã sirvo pão aos peregrinos, ajudo a santa missa, à tarde varro a igreja e, no começo da noite, distribuo sopa aos pobres... Nunca fui tão feliz”, encerrou o frade.
Contando essa historinha ao Bicarato, ele me perguntou se eu estava sugerindo que fosse varrer a igreja. Sorrimos ambos e discorremos que não necessariamente varrer, mas gastar os dias de sua vida... ao que Ele me respondeu que estava buscando uma forma de servir a Deus... (e olhe, juro que vi nos olhos do Toninho um brilho diferente, como um menino que encontra um tesouro!...) Passou-se o tempo, e lá vai ele, vassoura em punho, para Brasília. Que santa inveja... poder ajudar... que missão ele vai pregar, agora com os filhos encaminhados e a lembrança da vida vivida...

Revista: Thozzi, como homem prático, muito chegado na vivência com o povo, educador que é, você quis apenas consolar o Bicarato ou, sutilmente, estava sugerindo uma nova forma de vida, ao lhe contar a história da vassoura?

Thozzi: Confesso que, a princípio, Paulinho, apenas buscava consolá-lo da perda imensa, mas fui me entusiasmando à medida que falava, e achei que, de fato, num serviço missionário, assim junto aos mais pobres e oprimidos, dentro de um espírito afonsiano/franciscano, a gente preenche qualquer vazio... e então, cada vez que me encontrava ou comunicava com o Toninho, perguntava da “vassoura”... ele ria... mas acho que aumentava nele a vontade de “fazer votos”, de pôr-se à disposição.

Revista: Interessante o fato. Uma forma criativa, pelo menos não muito comum, de alguém viver o “pós carreira”, a aposentadoria sem depressão, o que é muito comum, ou então perder-se no tempo, como geralmente acontece, não é Bicarato? Isso o levou à decisão ou você já havia planejado algo? A história do Thozzi teria sido um empurrãozinho?

Bicarato: Pelas respostas anteriores, Paulinho, dá pra ver que já havia antecedentes. Mas, quem foi alinhavando tudo foi Deus, que se serve de tudo, inclusive de histórias como a do Thozzi. Por caminhos que nós pensamos que somos nós que traçamos, mas na verdade foram por Ele traçados desde tempos imemoriais, Ele nos vai conduzindo, quase sempre mansamente e, quando necessário, dando os sustos que nos fazem despertar ou do comodismo ou de sonhos que não nos levam a nada. Se de nossa parte há pelo menos disponibilidade, se nos colocamos com confiança em suas mãos, se descobrimos a grandeza do servir, do que é verdadeiramente amar o irmão, nossas realizações passam de um plano puramente humano para a esfera das coisas do alto.

Revista: Que mensagem vocês podem dar aos nossos leitores?

Thozzi: No seminário, nos diziam que a Graça era única, se não aproveitada, nós a perdíamos. Hoje, tenho certeza de que a Graça age em cada momento de forma diferente: na dor, na solidão, no abandono... podemos sorrir, nos reencontrar, quando nos colocamos a serviço do outro, do pobre, do abandonado... daqueles de quem é o céu... Basta pegar a “vassoura” e servir... (“Se eu, que sou o Senhor, lavo os vossos pés... é para que façais o mesmo!”). Então, Toninho, empunhe bem a “vassoura” missionária aí na CNBB.

Bicarato: Deus te ouça, Thozzi, Deus te ouça. Que ele continue me dando forças. À medida que os dias passam, a saudade dos filhos – sem falar na saudade da Benê, que é sentida onde quer que eu esteja – vai crescendo, e então a doação tem de ser também cada vez maior. E é mesmo só a Graça que nos sustenta. Agora, mesmo trilhando caminho íngreme e pedregoso, com tropeços, desânimos, desolações e incompreensões, a felicidade que se sente é a felicidade de quem é amado e acarinhado por Deus, privilegiado até!
Por Paulo Bicarato, às 17:33 de 26.08.2015 - 1 já comentou aqui
Categoria: Pensatas

26.05.2015

:: De Bandeja ::

Meritocracia, né? Quer que desenhe? Taí: nosso 'brigado ao ilustrador australiano Toby Morris, com tradução do Catavento.


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Por Paulo Bicarato, às 14:39 de 26.05.2015 - Comentem!
Categoria: PretoNoBranco

20.04.2015

:: Tikmu'un ::

Já faz alguns dias: fazendo a checagem diária dos feeds, paro num artigo ou outro, e marco outros pra ler depois. Fiz isso com um que, por longo, li apenas o *lead*, e comentei com a querídola Rose sobre a afirmação de que *a noção de “progresso” é inexistente entre os Tikmu’un e talvez entre os povos ameríndios em geral*. Foi o estopim pra atiçar a socióloga Rose, que solta a pérola: *num tem jeito de caber uma palavra na outra*, e daí viajarmos lá pro início do século XIX, no lema do nosso *lábaro estrelado*: *Ordem e Progresso*, e todo o conceito positivista do Auguste Comte et caterva.
Não há, pros Tikmu’un, nossa noção de *progresso* -- o que o artigo explora bem. Daí pra *ordem* foi um pulo: não sou sociólogo, mas suponho que, na cosmogonia indígena, *ordem* seja apenas a harmonia natural (que inclui a *violência* das caçadas, as guerras e combates com tribos inimigas etc.) que vem a ser quebrada (ou está fadada a ser quebrada) pelo... *progresso*.
Essa é a fórmula básica, europeizada, que moldou a nossa *civilização* ocidental. Somos frutos desse modo de pensamento, cartesiano-e-reto-e-frio-e-seco. Ignoramos, em nome do *progresso* (e da *ordem*?) nossa ancestralidade, nossa relação natural com o meio ambiente, nossa espiritualidade inerente -- e nos desumanizamos.
Sei lá, mas a cada dia me convença de que tá na hora de *desprogredirmos*. Como afirma o Viveiros de Castro, *o chocalho do xamã é um acelerador de partículas* -- precisamos redescobrir o potencial nato dessa *tecnologia* adormecida.

Ah, sim, a fonte tá aqui: A “Marcha do Progresso” e os Tikmu’un -- Pesquisadora aponta refinamento das músicas e festas de grupo indígena pressionado por séculos, e destaca: sua visão de mundo pode ser alternativa à vida voraz e brutal a que nós, os “ãyuhuK”, nos habituamos
Por Paulo Bicarato, às 16:37 de 20.04.2015 - 1 já comentou aqui
Categoria: Egotrip

17.04.2015

:: Professorinha Paz & Amor ::

E chegou o momento de a Professorinha se aposentar. Mais de 30 anos de labuta diária, muitas vezes com jornadas duplas ou triplas, encarando os queridos *monstrinhos* -- numa conta-de-padaria, foram algumas dezenas de milhares de alunos. No fecebúqui, ela faz um pequeno post-registro, que gera mais de 350 curtidas e um outro tanto de comentários.

Todos carinhosos, como hão de ser, já marcados pelas saudades que a *professorinha paz&amor* vai deixar nas salas de aula -- *vamos viajar de Kombi e curtir a vida de hippie*, promete-e-cobra uma aluna, enquanto outra ameaça: *eu quero a minha professora de volta AGORA!*.

O estereótipo *paz&amor* gerou carinhosamente, por parte dos alunos, o apelido *hippira*, ou *hippie-caipira*, e até um flashmob com um grupo de alunas à caráter [ver aqui] -- sim, a própria Professorinha emprestou seu guarda-roupa pras meninas...

Mas, muito além do visual, o *paz&amor* é de caráter, e um exercício diário, que a garotada reconhece: *que continue ensinando às pessoas aquilo que todos devem saber, afinal esse é o seu dom e não precisa estar só numa sala de aula para ensinar ou aprender*, diz outra aluna.

E, conferindo os comentários que não param de chegar, se emocionando com todos, de repente ela pára em um e se derrama em lágrimas. É de um garoto dizendo que a ama e agradece por ter tido a Professorinha em sua vida, fazendo coro a praticamente todos os outros comentários. Mas ela me explica as lágrimas, provocando também as minhas: o garoto é do tipo problemático, *tranqueirinha*, que já se envolveu com drogas e otras cositas...

A cena ilustra o que sempre moveu a Professorinha: todos os seus anos de trabalho foram cumpridos como uma *missão*, no maior sentido da palavra, voltada aos mais carentes e necessitados. De todos os comentários, é exatamente o de um garoto mais carente (o que o levou a se envolver com drogas etc.?) o que mais a comove.
Isso, entre inúmeras outras qualidades, resume o porquê de eu amar a Professorinha Rose. 'Brigado, minha querídola ;-)

Por Paulo Bicarato, às 17:30 de 17.04.2015 - 1 já comentou aqui
Categoria: Etilíricas

14.04.2015

:: Banco de Reservas ::

Talvez a melhor *ilustração* -- mas real, não metafórica -- do famigerado projeto de lei 4.330, mais conhecido como a *lei da terceirização*, veio do camarada Alê Freitas. Ainda bem que ele escolheu ser cantor-compositor, titular das melhores seleções aqui da terrinha. Se fosse jogador de futebol de salão...
No meu tempo de fábrica, nas tardes de sexta, quando faltavam alguns pra completar os dez do futebol de salão, alguém sempre falava:

- Ah, chama alguns terceirizados, eles sempre querem jogar com a gente.

Não era discriminação, era uma verdade, pois os terceirizados só podiam frequentar o clube, a ADC, caso fossem convidados pelos ditos empregados diretos e com uma justificativa plausível, ainda por cima.

Triste realidade, justificar a presença de alguém com a ausência de outro alguém...

Era natural, o ensaio sobre a cegueira, de Saramago, só que vivida, não ensaiada.

Assim como era natural a vaquinha que fazíamos todo ano pra cesta de Natal do terceirizado mais próximo.

Era uma festa só, no departamento, quando um terceirizado conseguia ser efetivado.

Não sei o termo técnico correto.

Acho que a palavra efetivar tem mais a ver com temporário, mas não importa, a verdade é que deixar de ser terceirizado era uma vitória, uma alegria, motivo de festa e de mais craques amadores para o nosso tão esperado futebol de salão das sextas à tarde.

Por outro lado, minhas chances de ficar na reserva eram maiores.

Sem mais...

Afreitas
Por Paulo Bicarato, às 13:46 de 14.04.2015 - Comentem!
Categoria: Pensatas

27.02.2015

:: Palhaços Mudos ::

Clássico dos clássicos, daquela fase antológica do Laerte: *A Noite dos Palhaços Mudos* foi publicada n*Os Piratas do Tietê*, em 1994. Eis que ela ressurge na rede, agora em adaptação para o cinema, vencedora de mais de 30 prêmios nacionais e internacionais. Direção: Juliano Luccas, Produção: Ludovico Filmes / Ludovico - Facebook.

No site do Laerte: A Noite dos Palhaços Mudos

Mas tá aqui:
A noite dos palhaços mudos from Henry Chinaglia Filho


E, enfim, o filme:
Por Paulo Bicarato, às 13:55 de 27.02.2015 - 1 já comentou aqui
Categoria: Almanaque

24.02.2015

:: Rosa, em sons & imagens ::

Dias atrás, postei no feicebúqui o link pra um ensaio fotográfico do iauaretê Araquém Alcântara sobre o universo do sertão do Guimarães Rosa (reproduzo o post a seguir). A Mohini Su curtiu, eu comentei e, papo vem, papo vai, ela me diz que há tempos quer ler o *Sagarana* e me pergunta se eu tenho. É, sim, tenho *só* quatro edições... No dia seguinte, trouxe o livro pra ela -- sob a promessa, cá registrada, de que era vai-e-volta. Sim, tenho uma ciumeira danada da minha *roseana*.

Dias depois, ela manda mensagem sugerindo uma trilha sonora pr'*A volta do marido pródigo*: Malandro é malandro, Mané é Mané. Indiquei, então, o CD Rosário, do querido Nhambuzim, dos queridos Sarah, Xavier e Edson. Aí, dia-sim-dia-não, ela comenta na sequência sobre o *Sarapalha*, depois *Minha Gente*... até chegar ao *São Marcos* -- mais uma vez, sugerindo trilha sonora: *Não Mexe Comigo*, da Maria Bethânia, que eu não conhecia. Segue aí, ela diz tudo:


Carta de Amor
Maria Bethânia

Não mexe comigo, que eu não ando só
Eu não ando só, que eu não ando só
Não mexe não!

Não mexe comigo, que eu não ando só
Eu não ando só, que eu não ando só

Eu tenho Zumbi, Besouro, o chefe dos tupis
Sou Tupinambá, tenho os erês, caboclo boiadeiro
Mãos de cura, morubichabas, cocares, arco-íris
Zarabatanas, curare, flechas e altares

À velocidade da luz, no escuro da mata escura
O breu, o silêncio, a espera
Eu tenho Jesus, Maria e José
Todos os pajés em minha companhia
O menino Deus brinca e dorme nos meus sonhos
O poeta me contou

Não mexe comigo, que eu não ando só
Eu não ando só, que eu não ando só
Não mexe não!

Não mexe comigo, que eu não ando só
Eu não ando só, eu não ando só

Não misturo, não me dobro
A rainha do mar anda de mãos dadas comigo
Me ensina o baile das ondas e canta, canta, canta pra mim
É do ouro de Oxum que é feita a armadura que guarda meu corpo
Garante meu sangue, minha garganta
O veneno do mal não acha passagem
E em meu coração, Maria acende sua luz e me aponta o caminho

Me sumo no vento, cavalgo no raio de Iansã
Giro o mundo, viro, reviro
Tô no recôncavo, tô em fez
Voo entre as estrelas, brinco de ser uma
Traço o cruzeiro do sul com a tocha da fogueira de João menino
Rezo com as três Marias, vou além
Me recolho no esplendor das nebulosas, descanso nos vales, montanhas
Durmo na forja de Ogum, mergulho no calor da lava dos vulcões
Corpo vivo de Xangô

Não ando no breu, nem ando na treva
Não ando no breu, nem ando na treva
É por onde eu vou que o santo me leva
É por onde eu vou que o santo me leva

Não ando no breu, nem ando na treva
Não ando no breu, nem ando na treva
É por onde eu vou que o santo me leva
É por onde eu vou que o santo me leva

Medo não me alcança
No deserto me acho, faço cobra morder o rabo, escorpião virar pirilampo
Meus pés recebem bálsamos, unguentos suaves das mãos de Maria
Irmã de Marta e Lázaro, no oásis de Bethânia
Pessoa que eu ando só, atente ao tempo
Não começa, nem termina, é nunca, é sempre
É tempo de reparar na balança de nobre cobre que o rei equilibra
Fulmina o injusto, deixa nua a justiça

Eu não provo do teu fel, eu não piso no teu chão
E pra onde você for, não leva o meu nome não
E pra onde você for, não leva o meu nome não

Eu não provo do teu fel, eu não piso no teu chão
E pra onde você for, não leva o meu nome não
E pra onde você for, não leva o meu nome não

Onde vai, valente?
Você secou, seus olhos insones secaram
Não veem brotar a relva que cresce livre e verde longe da tua cegueira
Seus ouvidos se fecharam a qualquer música, a qualquer som
Nem o bem, nem o mal pensam em ti, ninguém te escolhe

Você pisa na terra, mas não a sente, apenas pisa
Apenas vaga sobre o planeta, e já nem ouve as teclas do teu piano
Você está tão mirrado que nem o diabo te ambiciona, não tem alma
Você é o oco, do oco, do oco, do sem fim do mundo

O que é teu já tá guardado
Não sou eu quem vou lhe dar
Não sou eu quem vou lhe dar
Não sou eu quem vou lhe dar

O que é teu já tá guardado
Não sou eu quem vou lhe dar
Não sou eu quem vou lhe dar
Não sou eu quem vou lhe dar

Eu posso engolir você, só pra cuspir depois
Minha fome é matéria que você não alcança
Desde o leite do peito de minha mãe
Até o sem fim dos versos, versos, versos
Que brotam do poeta em toda poesia
Sob a luz da lua que deita na palma da inspiração de Caymmi

Se choro, quando choro, e minha lágrima cai
É pra regar o capim que alimenta a vida
Chorando eu refaço as nascentes que você secou
Se desejo, o meu desejo faz subir marés de sal e sortilégio
Vivo de cara pra o vento na chuva, e quero me molhar
O terço de Fátima e o cordão de Gandhi cruzam o meu peito
Sou como a haste fina, que qualquer brisa verga, mas nenhuma espada corta

Não mexe comigo, que eu não ando só
Eu não ando só, que eu não ando só
Não mexe não!

Não mexe comigo, que eu não ando só
Eu não ando só, que eu não ando só
E, pra completar, o post que originou tudo, direto do site do Luis Nassif:
Sertão sem fim pelas lentes de Araquém Alcântara
As vacas e os cavalos de Guimarães Rosa
Sertão sem fim

"Eu queria que o mundo fosse habitado apenas por vaqueiros. Então tudo andaria melhor."
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"... não se esqueça de meus cavalos e de minhas vacas. As vacas e os cavalos são seres maravilhosos. Minha casa é um museu de quadros de vacas e cavalos. Quem lida com eles aprende muito para sua vida e a vida dos outros."
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"Isto pode surpreendê-lo, mas sou meio vaqueiro, e como você também é algo parecido com isto, compreenderá certamente o que quero dizer. Quando alguém me narra algum acontecimento trágico, digo-lhe apenas isto: “Se olhares nos olhos de um cavalo, verás muito da tristeza do mundo!"
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"... nós, os homens do sertão, somos fabulistas por natureza. Está no nosso sangue narrar estórias; já no berço recebemos esse dom para toda a vida."
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"Desde pequenos, estamos constantemente escutando as narrativas multicoloridas dos velhos, os contos e lendas, e também nos criamos em um mundo que às vezes pode se assemelhar a uma lenda cruel."
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"Deste modo a gente se habitua, e narra estórias que corre por nossas veias e penetra em nosso corpo, em nossa alma, porque o sertão é a alma de seus homens (...) Eu trazia sempre os ouvidos atentos, escutava todo o que podia e comecei a transformar em lenda o ambiente que me rodeava, porque este, em sua essência, era e continua sendo uma lenda."
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- João Guimarães Rosa, em entrevista a Günter Lorenz - "Diálogo com Guimarães Rosa"
Por Paulo Bicarato, às 14:25 de 24.02.2015 - 2 comentários
Categoria: Biblios

13.02.2015

:: Se ::

Se o jogo é agora (e, às vezes, acho que sempre é),
esforço-me pra desviar das jogadas – e frases -- imprecisas.
Se o *se* nunca joga, os dados me dão respostas múltiplas.
Se é, se-rá.
Quando a brincadeira rola solta, é sempre quando.
Quando a dúvida aperta, é quando vale a pena.
Quando a certeza impera, é quando fico na dúvida.
Onde meu centro, onde me centro, só fora de mim.
Onde me escondo, só fora de ti.
Onde o *se* e o *quando* se questionam, cá estou.
Se quando onde há o que.
Por Paulo Bicarato, às 15:46 de 13.02.2015 - 4 comentários
Categoria: Pensatas

09.02.2015

:: Botequim ::

Quem me contou foi o Pedrinho, que é vizinho do cunhado de uma colega de trabalho aqui: ficou sabendo que abriu um barzinho novo e, como bom botequeiro, logo se animou a ir conferir. Naquela noite, um camarada bacana de repertório bacana ia fazer o som lá: falou com a patroa, combinou com uns amigos e lá foram.

Espaço razoável, mas meio *torto* -- nada que exigisse a consultoria de um(a) arquiteto(a), apenas um pouco de bom senso. A decoração, com quadros de Elvis, Marilyn e outros, destoa do nome, que remete à música brasileira (ok, o Pedrinho & cia são ecléticos). Mas o importante é a cerveja: gelada, e umas porçõezinhas honestas. Na somatória, nada comprometedor.

A proprietária, simpática, vem receber a trupe e dar as boas-vindas, sob os olhares curiosos de uma dúzia de clientes, já devidamente acomodados, com a pergunta na testa: *de onde veio esse pessoal?*. Sim, Pedrinho & cia destoavam do público-alvo da simpática dona...

O músico chega, cumprimenta efusivamente os *estranhos*, e a dona orienta que monte o equipamento num canto -- que ficaria invisível pra metade do bar (ó a *tortice* aí...). Por conta própria, e baseado na experiência, o músico sugere outro local -- arrastam-se cadeiras e mesas, coisa normal, ajeita-se aqui e ali, afinam-se instrumentos e microfones.

Na primeira música, o camarada músico dispara, encarando o Pedrinho com a cumplicidade de quem também não se encaixou tão bem no novo espaço:
*Foram me chamar
Eu estou aqui, o que é que há?
Foram me chamar
Eu estou aqui, o que é que há?
Ó *Pedrinho* não se zangue...*
Ficaram nem uma horinha no boteco e caíram fora.
Por Paulo Bicarato, às 13:35 de 09.02.2015 - 8 comentários
Categoria: Etilíricas

08.01.2015

:: Se eu seria personagem ::

Conheço o cara já há umas boas décadas. Figura ímpar, o mineirim sempre se destacou pela inteligência e cultura. Pr'além do jornalismo, outra paixão sempre nos aproximou: literatura em geral, e especialíssimamente o Guimarães Rosa -- de quem ele bem poderia ser personagem.

No feicebúqui, o cabra não perdoa e dispara críticas ácidas pra todos os lados. Mas ele tem outra *vertente*, um pouco mais restrita a quem é mais próximo, que revela às vezes num simples e-mail e comete pérolas como essa:
*...quando moleque, na fazenda dos catonho, vi um aviso no muro de pedras que forma o curral mais lindo do mundo: "o curral tá barrido". e tava mesmo tão bem varrido que nada, ainda, conseguiu varrer o escrito da memória...*
Falo, claro, do meu caro cara Rai. Sempre o provoquei e cobrei pra que escrevesse mais, soltasse a pena, compartilhasse esse dom. Agora, de volta às origens e lá do refúgio dele na roça de Passos (MG), os papos se escassearam mas, sempre que vai à cidade, corre pra alguma lan-house e, devidamente conectado, manda notícias.

Ontem, tarde da noite, tava nós no proseio. Cobrei mais uma vez que escrevesse mais. Ele:
mas eu escrevo, uai. todo dia. é uma sarna. falar em sarna, peguei um berne no umbigo, o trem estufou, virou uma barriguinha, pontuda. parece gravidez. vai nascer um um troço da minha barriga.
...
hoje eu tentei abortar a larva de mosca varejeira que me fez mal, acho que matei a pobre da criatura lá dentro do casulo dela, agora vou ter que esperar a barriga fazer fagocitose e aproveitar as proteínas da bagaça.
...
eu tou matutando tudo, e fazendo uns vomitórios. vou te mandar uma histórias das galinha da angola que tou terminando.
...
eu tou demorando porque foi um caso acontecido na semana passada. tá recente ainda, tem que esperar o sol secar, como diz minha tia.
...
tou terminando a conversa com as angolas, e elas falam um idioma diferente das galinhas caipiras, inté.
...
vou te mandar o ovo que acabei de botar.
E aí, pouco antes da 1 da madruga, ele manda e-mail (com outra versão corrigida, enviada às 4:45 da matina). Leio, deliciado, e vou dormir com os sons do Rosa tilintando na cachola. Mas, chega! Vê se não é pra ficar ansioso e cobrar pra que o cara solte o verbo:
A galinha, e o ovo

Arrependimento não mata a gente. Mas em alguns casos devia, pelo menos, causar uma dor qualquer. Em qualquer canto do corpo. Arrependimento devia acontecer antes de ocorrer. Uma paralisia que impedisse senão os atos, os desatinos.

Dias aí para trás, entrei em casa alegre como um galo. Anunciando um grande achado, o ninho das galinhas da angola. Delas que vieram da África ocidental nas naus portuguesas no escuro dos tempos e que ainda agora não se deixam cegar por tão clara domesticação como fazem suas parentes caipiras, trazidas de outros continentes.

Em vez de ostentar valentia nos ringues e se desavergonhar nos terreiros por conta de reles sementes do milho que nem conheciam, as angolas não se amansam nunca de vez. Nunca que entregam seus ovos ao calor de ninhos alheios.

Como ouro, elas os botam amoitados no meio da terra, protegidos nos sujos dos matos, disfarçados, e, quando querem, os trazem já transformados, caminhando nos seus luzidios próprios pezinhos alaranjados, piando baixinho, em bando de ressabiadas angolinhas, todas mais ou menos iguaizinhas, com biquinhos de pardais, com costas listradas. E ariscas. Nunca se arriscam tanto feito qualquer afoito pintainho que vai parar em bocas de rapina.

E o ninho tava bem ali, na mais alta moita entre as sobradas no quintal depois da aração que entregou todo o terreno a plantas recém nascidas, e ao desabrigo.

Órfãs do mato havido em volta, se refugiaram em meio às infantes abobreiras, de rama rala. Cobertura pouca pra tanto instinto.
Descobertas em plena desova, um par de angolas soou o alarme num alvoroço desconhecido, tirado fundo de sua diversa língua. Forte feito um dueto, dolorido e desesperado. Coro diferente da fraqueza tão conhecida de seus pios que sempre parecem tão fracos, tão fracos, tão fracos.

E o ouro cega. E dúzia e meia dos ovos que lá se achavam logo se iam para a cozinha, junto dos outros, de outras galinhas.

Fosse só isso e o caso se acabava. Em omelete, massa de pão de queijo, bolo e óleo quente de frigideira. Mas no caminho do ninho à casa, uma angola, ao pé da porta, em pose ereta, levantada em um desajuste, me aguardava, valente como os ancestrais. E antes que eu entrasse, com sua prole mal terminada, entregou, a mim, à míngua, um ovo, como fosse por troca, dos outros.

Deixou no chão, de pressa, um ovo mole, sem casca, ainda por se fazer. Um ovo altivo, soberbo de tanta luta, de tanta dor. Duro como um desalmado. Ganhei os ovos. Peço um perdão.
Segundo clichê: trilha sonora :-)

Por Paulo Bicarato, às 11:22 de 08.01.2015 - 6 comentários
Categoria: Etilíricas

06.01.2015

:: Missão: Bicarato ::

Mistérios insondáveis nos rondam. Existem pra instigar a imaginação ou tripudiar da nossa pretensa sapiência ou perturbar nossos espíritos -- ou tudo ao mesmo tempo. Das fímbrias do tempo (essa abstração e aberração que nos fustiga), quando até mesmo o oráculo Gúgôl se mantém em silêncio e se recusa a vislumbrar qualquer pista, um mistério assola: quem, o quê é, de onde vem o intrigante nome *Bicarato*?

Início do século (do milênio!) passado, meu bisavô chegava ao Brasil, vindo da Itália. Sem lenço nem documento. Giovanni Bicarato (ou Bigarato) e Colomba Bicarato (idem) vieram com as filhas Francesca e Teresia (ou Teresa) e mais um ou dois filhos -- dados básicos cobrem-se de névoas, embaralhando ainda mais as parcas pistas que poderiam ser algum ponto de partida pra alguma investigação. A chegada? Entre 1901 e 1904. A região de origem? Também nebulosa: entre Padova e Veneza.

Tia Angelina, a filha mais nova do casal, já nonagenária, ainda sussurrava lmebranças esparsas. Dizia que sempre ouvia a nona, Colomba Muscini, dizer que era do *Estado Romano*, e ouvia também falar em Viterbo. A nona, aliás, já havia enviuvado quando se casou com o nono, Giovanni. De seu primeiro marido, nem sequer o nome se sabe. Os dois filhos do casal morreram na epidemia de gripe espanhola, ainda na Itália (segundo uma outra tia). Mas há controvérsias: provavelmente devem ter sido vítimas de qualquer outra epidemia, muito comum na Europa daqueles tempos, já que a gripe espanhola arrasou o Velho Continente nos idos de 1918 -- alguns anos depois, portanto, da vinda deles para o Brasil.

As poucas informações disponíveis trazem mais dúvidas e embaralham ainda mais o tabuleiro: na Certidão de Nascimento de meu vô, o nome da mãe dele não é Colomba Bicarato, e sim Colomba Muscini. Já a avó materna carrega outro nome, Cesarini.

Nessa busca insana, eis que em algum momento o oráculo Gúgôl vislumbrou algo: uma única referência, datada de... 1277! Como uma pérola valiosa, tratei de ao menos fotografá-la:
Anno 1277 - 20 marzo
Bigarato da Portovenere e Bennato Moscone da Vernazza, volendo porre un termine alle liti, che hanno per causa d'una rissa, successa alla spiaggia di Vernazza, dinanzi a Giacomo de Ricardo da Portovenere e ad Armanno de Vegio da Vernazza eleggono arbitro Rollandino Bigarato, fratello di detto Galvano, le due parti si condonano le reciproche offese e si dannoi il bacio della pace. Not. Guglielmo de S. Georgio Reg. V pp 16 17v.
[Na tradução do seu Toninho, meu pai]:
Ano 1277 - Em 20 de março
Bigarato, de Portovenere, e Bennato Moscone, de Vernazza, desejando pôr fim às demandas que tinham por causa de uma rixa, acontecida na praia de Vernazza, diante de Giacomo de Ricardo, de Portovenere, e de Armanno de Vegio, de Vernazza, [Bigarato e Bennato] elegem como árbitro Rollandino Bigarato, irmão do dito Galvano (Penso, pelo contexto, que Galvano seja o primeiro nome de Bigarato). As duas partes se perdoam as recíprocas ofensas e dão-se o beijo da paz.
Ou: há um *buraco* de sete séculos sem nenhuma referência à minha família. Nas buscas, apelei pro improvável: além da grafia atual, *Bicarato*, arrisquei *Bicaratto* e *Bigarato*, entre outras. Nadica de nada.

Já abatido pelo desânimo, resolvi apelar pra uma ajuda profissional. Chegam-me notícias alvissareiras de que, na Itália, um detetive de renome -- mas ao mesmo tempo, e por isso mesmo, recluso em seu rincão, já aposentado, desvendera em priscas eras segredos ainda mais obscuros. Após tentativas infrutíferas, e já exauridas minhas forças, consigo um contato do misterioso detetive. Arrisco, mesmo sem ter qualquer noção de como eu poderia arcar com os altos custos de tão ousada empreitada. Estranhamente, a resposta vem ágil e rápida, o que me intrigou ainda mais, até pelo tom jocoso, fazendo troça das minhas angústias e já trazendo ainda mais perguntas do que pistas ou respostas:
Pensei que fosse algum trabalho, estava já preocupado.
De alguma forma você bateu em porta certa. Não porque tenha já algo pra te oferecer, mas que ao menos se abre a isso. Na verdade o teu pedido é mais um entre inúmeros e eu me divirto mesmo em fazer o detetive. Consegui descobrir coisas que nem eu mesmo acreditava.
Bem, eu começo a fazer uma busca na lista telefônica e me diz que na Itália nao existem Bicarato. Tento Bicaratto, e a resposta é a mesma. Igual para Biccarato ou Bigarato e Bica Ratto. Nesse caso é muito provável que tenha havido uma modificação do nome original, algo comum nos portos de antanho.
Se você tem alguma idéia de onde tenha nascido este teu bisavô, é já muito útil. Se sabe em que ano, com uma aproxiamação de cinco pra mais ou menos, muito melhor ainda. Porque posso fazer um pedido nos registros de batismo da região em questão.
Sem isso, vou dormir sobre o assunto e amanhã tento imaginar qual nome possa ser o original.
Passam-se os dias, e o Detetive volta ao silêncio. Já me resignando e dando por vencido, esforço-me pra esquecer o caso. Mas eis que chega, inadvertidamente, um breve relato:
A tarde estava fria, as poucas almas que se aventuravam pelas poeirentas vielas corriam apressadas sem nem mesmo desconfiar de meu mais novo e angustiante quebra-cabeças. Acendi um cigarro e me encaminhei ao bar. Alonguei uma nota de dez ao barman e fiz algumas perguntas banais. De repente, sem que ele esperasse por isso, lancei a palavra-chave: Bicarato! Este nome diz algo a você? Ele não teve nem tempo de fechar a torneira da pia e correu desesperado em direção aos fundos do bar. Voltou dois segundos depois com uma enorme carabina nas mãos. Não me restou alternativa senão a de transformá-lo em um escorredor de macarrão.

Na verdade, em algumas buscas que consegui fazer o resultado foi sempre o mesmo: não existe Bicarato na Itália. Não sei e ninguém soube me dizer o significado do nome. Em geral os nomes querem dizer algo, aqui é muito comum isso. Mas ninguém soube me dizer.
O que encontrei foi um texto muito interessante. Uma tese de mestrado da Universidade de Bologna, Facoltà di Lettere e Filosofia, Corso di Laurea in Discipline delle Arti, della Musica e dello Spettacolo. O trabalho se chama IL SENSAZIONALE E IL PRODIGIOSO NELLA LETTERATURA DI CONSUMO. SECOLI XVII E XVIII. Pois bem, não li tudo ainda, mas fala das tradições e do desenvolvimento da imprensa a partir do que se poderia comparar com a literatura de cordel, claro que com os elementos do universo da Itália dos séculos citados. Entre alguns "causos" relatados e que se tranformaram em livretos, tem a história de Angelo Secchiarolo, detto Bigaratta, il "tristo Bigarato".
Era um assassino que foi condenado a morrer na forca e no dia de sua execução, 11 de junho de 1729, se recusou a beijar a cruz, fato que o tornou fonte de inspiração desse conto que fala da alma que vai para o inferno etc. etc.

As únicas referências encontradas com o nome falam de apelidos. Uma possibilidade, além do erro de registro, é que teu bisavô usasse o Bigarato também como apelido e que depois virou sobrenome. Pode ser que ele seja o primeiro da lista, não seria um fato inédito.
Por hora é só. E a busca continua.

Ouço uma coruja que canta ao longe. A lua vai alta pelo céu, conferindo uma luminosidade triste à cidade adormecida. Saio pelas ruas, na cabeça uma só intenção. Maldita hora que aceitei este trabalho. Mas o que mais posso fazer? Esta é minha vida. Meu destino é mais forte que minha vontade. Sigo.
Um assassino herege! Depois dos briguentos do século XIII, que desapareceram até mesmo dos olhos do oráculo, eis que surge um assassino herege no século XVIII. O hiato entre os séculos sugere que há ainda muitas insuspeitas e inimagináveis ocorrências sob o nome, mas a curiosidade vence a prudência, que clama pra que se deixe incólume o mistério. A tentação de fustigar o vespeiro, mesmo diante dos sinais agourentos, mescla-se à angústia pela espera por novos relatos do Detetive, que mais uma vez se abstém, por incontáveis e interminaveis dias, de se manifestar. A ansiedade me toma: confiro várias vezes ao dia a caixa de correios, sem sucesso. Até que...
Relatório nº 2
Riva del Garda, 28 de março de XXX.

Choveu por todo o dia e a névoa cobria com seu manto úmido as tristes cores do fim de inverno. Já faz dois dias que não durmo e não me alimento. Todos os casos que aceitei me deixaram destruído fisicamente, e este não poderia ser diferente. Resolvi cobrar uma antiga divida moral que tinha com o chefe da polícia local, fruto de um caso com rapazes e garotas que não vem ao caso relatar. Depois de refrescar a memória do policial, lhe pedi com a voz baixa que me caracteriza se porventura sabia algo a respeito de Bicarato. O sorriso do bigodudo homem da lei se apagou e com uma expressão soturna me sussurrou: Você também está a serviço do Boss? Comecei a entender o porquê dessa família ser assim tão misteriosa.

Tive um insight hoje: fiz uma pesquisa que revela que existem 13 famílias Carato na Itália e 48 Caratto, com concentração no Piemonte. Bem, se o bisavô tivesse um segundo nome, por exemplo, que começasse com "B", ele poderia ter dito à voz para algum tabelião brasileiro que se chamava "Nome B. Carato" e isso soa "Nome Bi Carato". Conjecturas!
Ao menos o nome Carato existe! Um momento! Garatto também existe e são 13 familias concentradas em Venezia. Garato também tem e são 20, quase todas em Venezia.
Pode não dar em nada esse caminho, mas é interessante.

Os raios e trovões conferiram às palavras do chefe de polícia uma dramaticidade a mais. Prontamente eu disse que sim, estava a serviço do Boss. Imediatamente ele se ajoelhou a meus pés e chorando me pediu para que interceda em seu favor. Me encontro em uma enrascada das brutas. Agora vou ter que achar esse Bicarato, custe o que custar!
Mais uma vez, frustrante! Mais interrogações e conjecturas, mas nada palpável. Pra aumentar a agonia, temo que não conseguirei arcar com os custos altíssimos de tal pesquisa detetivesca -- um *detalhe*, aliás, que nem chegou a ser negociado. Tardiamente, mando uma correspondência indagando sobre os honorários do Detetive. A resposta vem seca, quase como uma ameaça, seguida de mais um capítulo amargurante:
Quanto aos custos, não se preocupe. Voce tem casa em seu nome?

Hoje tive um dia duro. Trabalho com as garotas que estão sob minha proteção. Elas aparentemente gostam quando eu tenho um dia duro. Por isso tive pouco tempo para a minha pesquisa. Quase conseguia tirar este verdadeiro cupim que me rói os pensamentos. Não deixei de ir ao funeral do barman. Encontrei lá o chefe de polícia, que me fazia sinais com os olhos. Maldição, se não encontrar logo esse Bicarato, vou estar mesmo em uma enrascada. Pior do que daquela vez que saí com a mulher do prefeito. Bem, mas essa é uma outra história.

Padova e Venezia estão no Vêneto, a mais ou menos 50 Km uma da outra e sim, é uma região nebulosa e com frequentes problemas com a neblina. Eu me concentro na pista Vêneta.
Algumas prefeituras de cidades maiores dispõem de um arquivo público onde se podem consultar estes documentos. Tendo como boa a informação da vinda deles no início do século e com dois ou quatro filhos, isso situa o nascimento dele entre 1870 e 1880. Infelizmente o dado sobre a vovó não serve pra nada. Apenas como curiosidade: as mulheres até mais ou menos a 1ª guerra não eram nem registradas. Os poucos documentos que se encontram em geral vêm das paróquias, que funcionavam como verdadeiros centros de documentação. Mas mesmo nas paróquias a enorme maioria dos documentos é de homens. Bem, voltando, um passeio em Venezia não seria má idéia. Agora na primavera é uma boa época para ir a Venezia fazer... pesquisa de arquivos. Bem, quer dizer, entre um champanhe e outro sempre tem espaço para um empoeirado monte de papéis velhos.
Se se soubesse o nome da cidade de origem, seria um tiro quase certeiro, mas me parece que não é o caso.

Sempre que uso minha pistola tenho que fazer uma limpeza completa.
Ela está velha e usada, mas ainda me garante resultados, e isso é o que interessa. Nunca se sabe quando vou usá-la de novo, mas pelo jeito, este caso vai ser o mais endemoniado de todos o que enfrentei. Eu vou adorar.
Nada! Nenhum ponto de partida; a missão parece impossível, até mesmo pra um experiente Detetive. Seja pela decepção de não fazer jus à sua fama, seja pela inglória caçada, ela desaparece de vez. Depois disso, silêncio absoluto. Foi a última correspondência que recebi do Detetive. Temo que o Detetive tenha avançado algo, mas chegando a algum ponto mais do que arriscado e, confirmando todas as suspeitas e riscos de uma investigação tão inconsequente, tenha feito o Boss entrar em ação.

Famiglia_Bicarato
Famiglia Bicarato, recém-chegada da Itália:
da esq. p/ direita, em pé, atrás: Francesca (Queca), italiana; Teresa, italiana; Maria; Domingos.
Ainda em pé, um pouco à frente: Antonia e Cristina.
Sentados: Colomba Muscini, Giovanni Bicarato e Rosa (Rosina).
No colo: José. Sentado, centro: Bento (meu avô).
Provavelmente no ventre da Colomba: Angelina
Por Paulo Bicarato, às 16:54 de 06.01.2015 - 4 comentários
Categoria: Almanaque

29.12.2014

:: Acasos (?) ::

Contei e recontei esse causo dezenas de vezes nos últimos dias. Mas não tive a sensibilidade que a Chris Ramsthaler exprimiu, e na verdade (apesar da surpresa do encontro e da receptividade) reforçam mais ainda a dimensão do carinho e da presença marcantes do seu Toninho -- é, meu pai --, tão significativos e vivos que perduram por décadas e mais décadas.

E fico cá matutando sobre como e porque *acasos*. Como disse Guimarães Rosa, *quando nada acontece há um grande milagre acontecendo que não estamos vendo*. E pessoas são elos e instrumentos pra que esses milagres aconteçam. Apesar das minhas trapalhadas, a querídola Rose ficou firme e fomos conferir o show do Paulinho Pedra Azul, a convite e com a participação do camarada Tuia. Além do nosso menestrel Déo, ainda tivemos o prazer de conhecer outra *lenda*, o Tavito.

Mas, além do show, valeu muito também por ter conhecido a Chris -- segue o relato dela:
Acaso?

Não posso acreditar em acaso quando falamos de encontros inesperados.

Sim, tive uma surpresa muito grande há uns dias. Show de Paulinho Pedra Azul, em S. Paulo, Bar Ao Vivo. Um bar em S. Paulo... quantos bares, quantos shows, em S. Paulo!

Quantas vezes queremos ver vários e nem conseguimos porque os espetáculos coincidem em dia e hora.
Pois bem! Escolhemos assistir a esta raridade, Paulinho Pedra Azul em Sampa!

Casualmente encontramos Deo Lopes (que não víamos já há alguns anos) poeta-cantor. Sentou-se conosco.
Aí, a surpresa maior nos aguardava, sem que a pudéssemos pressentir.

Tive um amigo, muito amigo, no segundo emprego da minha vida, lá se vão décadas! Saí da empresa, tive outras atividades, o tempo passou... Um dia resolvi procurar esse amigo aqui no facebook. Acabei por encontrar um filho dele, que me passou o e-mail do pai. Começamos uma correspondência por e-mail, porque ele não tinha perfil no face. Conversamos muito. Trocamos notícias, alegrias e tristezas, o que é normal na vida de todos nós. Ele, então, estava trabalhando em Brasília.

Com o decorrer do tempo e de tantas outras coisas que me exigiram dedicação total, parei de escrever para ele. Deixei 'de lado' vários amigos, vários encontros programados, por quase 2 anos. Simplesmente não consegui dar conta de tudo, embora grandes amizades, sem dúvida, mereçam nossa total dedicação.
Alguns dias antes do tal show, comecei a pensar muito naquele meu amigo e dizia para minha filha: preciso escrever para o Antonio. Repeti isto várias vezes! Mas não escrevi.

Voltando ao show, o Deo Lopes viu um amigo dele chegando e tratou de conseguir que ele se acomodasse na mesa ao nosso lado. Feitas as apresentações, a surpresa: Paulo Bicarato. Feliz com a coincidência do sobrenome, perguntei se conhecia o meu amigo Antonio. Prontamente disse: meu pai. Só que ele se foi, há 2 meses!

O ambiente, logicamente, não era propício para grandes manifestações de pesar. Só consegui dizer: É...? Que pena!... A tristeza, guardei dentro de mim.

Assim, mais uma vez, não posso acreditar no acaso. Aquele amigo que se fazia presente em meus pensamentos naqueles dias, me mandou alguém muito próximo para me dar a notícia de sua partida. Apesar de tudo, num momento de alegria. Paradoxos da vida!

Só sei dizer que quero muito encontrar novamente vocês, Paulo Bicarato e família.

Paulinho, Rose & Déo
Paulinho Pedra Azul, Rose & Déo Lopes
Por Paulo Bicarato, às 13:53 de 29.12.2014 - 2 comentários
Categoria: Etilíricas

19.12.2014

:: Espirógrafo ::

Quem num si alembra dessas pecinhas? Era coisa de se perder tempo e papel e tinta de caneta:

Espiro


Pois então, seus tempos de criança voltaram -- o culpado por te fazer perder um bom tempo agora é o Nathan Friend, que criou o espirógrafo, agora muito bem rebatizado de *inspirógrafo*: vai lá, nem precisa baixar nada, é direto no browser:

>> http://nathanfriend.io/inspirograph/

E eis minha primeira brincadeirinha-teste:

inspirograph_bica


Dica valiosa do Gizmodo.
Por Paulo Bicarato, às 13:02 de 19.12.2014 - 4 comentários
Categoria: Linux Vida Open Source

31.10.2014

:: Journey to Mars ::

Já garanti minha passagem :-)

Clique aqui e garanta a sua!

Por Paulo Bicarato, às 13:09 de 31.10.2014 - 2 comentários
Categoria: On the Road

28.10.2014

:: Ex-Pobre ::

[sobre o contexto, digo mais lá no final]
Então: ah, eu tinha que me virar, né? Diarista aqui, outro bico ali, era sempre aquele perrengue. E nem sempre dava pra garantir nem o ranguinho básico. Assim, dureza mesmo... Mas, peraí, já tá gravando? Para, para, vamos começar de novo!

...
Ai, que bom receber vocês aqui em casa. Então: me desculpem, a faxineira é que atrasou um pouco, vocês sabem como é essa gente: acham que nós temos todo o tempo do mundo. E eu mal consegui falar com a gerente da minha lanchonete. Sabe, hoje eu estou fornecendo em média umas 200 quentinhas por dia (é *quentinha gourmet*; gostei da dica do meu sobrinho que estuda publicidade), é difícil administrar isso. Funcionário, então, é um horror! Ai! Assim, dos três que eu tenho, toda semana tem um com atestado médico, ou o filho doente, ou uma tia que morreu... Tem que ser dura -- eu não gosto, mas esse pessoal tá muito mal acostumado, só quer saber de direitos. E, olhe, tenho que estar gastando hor-ro-res cada vez que um funcionário meu sai pra algum outro empreguinho melhor ou pra estudar. Você acredita que agora até Fundo de Garantia eu tenho que estar recolhendo pra empregada lá de casa? Já não bastava o INSS?

Ai, mas não é disso que vocês vieram falar, né? Então, hoje sou uma microempresária, eu que-me-fiz, batalhei muito pra chegar aqui. Como? Ah, sim, eu fui atrás e consegui um microempréstimo pra começar minha lanchonete, mas, então, nem gosto de estar lembrando: era um balcão lá no bairro, tinha que atender uns nóia de madrugada, vender fiado... Mas, deixe isso pra lá – ai!, se puder apagar essa parte, fica melhor, né?

Tem uma coisa: eu sempre estudei, e nunca faltava na escola. Por isso, minha mãe sempre recebeu o Bolsa-Família, até que eu consegui montar meu negócio e a gente não precisar mais “daquilo”. Então: tenho orgulho de dizer, foi por mérito meu que consegui uma bolsa no ProUni e tô terminando o curso de administração de empresas. Tem colega que até olha torto, mas eu sou uma microempresária, e de sucesso! Sei administrar direitinho as contas da lanchonete, e tenho até uma gerente registrada -- os outros dois são freelancers, que é uma forma de eu estar incentivando a iniciativa própria, né? Simples assim! (Gosto de falar *simples assim!* – me sinto como se desse um xeque-mate, acaba a conversa na hora.)

Ah, o começo? Então: é, foi depois que a gente se mudou aqui pro condomínio, porque minha mãe insistiu pra gente entrar no Minha Casa Minha Vida. Assim: lá, antes, onde a gente morava, nem dava pra estar pensando em negócio nenhum... Mas isso é detalhe: minha mãe e eu conquistamos, por direito, a Nossa Casa Nossa Vida. É, ela tem a dela e eu, a minha.

Mas, então: eu me fiz! Consegui mais três microempréstimos, porque sempre paguei em dia. Mas tem mais: olhe só a minha casa, toda mobiliada (a TV de 42 polegadas e vários móveis eu sei administrar os carnês, mas tem até aquela banqueta que comprei na Tok&Stok – ai, lá tem umas coisas tão assim, né?, que até uns anos atrás eu nem pensava em entrar naquela loja). Meu carro? Então: dois anos atrás eu comprei o primeiro, um “Mil”, mas agora tô com um zero quilômetro, com ar condicionado e vidro elétrico, peguei na concessionária na semana passada – financiei em cinco anos, mas ano que vem quero estar trocando de novo por outro zero. Sabe como é, né? A gente tem que manter o patrimônio que conquistou (essa foi uma das principais lições que aprendi na faculdade de administração – ai, peraí, meu iPhone tá tocando. É a chata da Lurdinha, depois ligo pra ela...) Ai, querida, aceita mais um cafezinho? Essa cafeteira é tudo de bom, você escolhe o tipo de café, mais forte ou mais fraco (esse sachezinho marrom é o meu preferido) – fique à vontade, viu?

Mas, então: no final do ano passado eu consegui estar realizando outro sonho, e fui conhecer Buenos Aires. De avião, claro! Assim: eu até que me enrolei um pouco com a língua deles – castelhano, né? –, mas foi engraçado. Eu só troquei uma parte do dinheiro que levei, até porque os argentinos gostam mesmo é de reais – dava gosto ver os olhinhos deles brilhando quando eu pagava o café da tarde com nota de R$ 50. Esse ano? Então: agora que eu já viajei "pra fora", posso estar me dando o luxo de conhecer o Brasil. E tudo de avião, né? Imagine se, como minhas tias antigamente eu fosse de ônibus lá pra terrinha, com farofa na lata de leite ninho... Então, já pesquisei na internet e tô fechando um pacote pro Nordeste – dizem que é tudo de bom lá, né? Até o povo, apesar de tudo, dizem que é simpático. Mas carne de bode, buchada de bode, isso eu não vou experimentar não, apesar de o meu avô, que veio de lá, sempre dizer que tinha saudade dessas coisas...

Ai, olha o iPhone tocando de novo, só um minutinho. (Lurdinha, eu tô dando uma entrevista, te encontro no salão da Martinha às 5 da tarde, tá bom? Tchau, querida!) Assim, né? A Lurdinha ainda não tá acostumada com o salão que a Martinha montou, antes a gente fazia as unhas todas juntas, aqui na garagem de casa mesmo (quando nem tinha piso e nem cobertura). Era assim, mais divertido, mas agora a gente aprendeu a ter mais classe, né? Mas, olha, é difícil pra Martinha, viu? Ela já contratou umas três ou quatro meninas que não param no salão – cada hora é uma que consegue um emprego melhorzinho ou então prefere estar investindo nos estudos. Tem uma, até, que foi pra São Paulo estudar na USP – geografia, vê se pode? Pra que que ela quer estar estudando isso? E, assim, essa aí já falou até que pensa em estudar no exterior – como é o nome mesmo? Ciência sem Fronteiras, né?

Então, ó, eu fico pensando: onde é que a gente vai parar? Mas, ãh? Em quem vou votar? Então, ainda não sei, sabe? Até porque político é tudo igual -- cê viu a *Veja* dessa semana? É, eu sou assinante da Veja, leio tudinho. Mas, então: ninguém nunca faz nada pela gente mesmo. A gente, que é “mêide-bái-a-gente-mesmo”, fica nessa encruzilhada...
Obs.: rascunhei isso ainda antes do primeiro turno. Relutei em publicar: ainda que não mude um vírgula, achei que ficou com um gosto um pouco ácido e, mesmo com a ironia evidente, talvez pudesse ser mal-interpretado. E, obviamente, porque se trata de uma crítica a uma pequena parcela da população – poderia seguir o mesmíssimo roteirinho e retratar não um *ex-pobre*, mas um legítimo representante da *nova classe média*, reconhecedor das políticas públicas adotadas nos últimos anos.

Mas o tom amargo se deveu por eu ter presenciado dois ou três relatos de, sim, *ex-pobres*, aqueles que nunca deixarão de sê-lo pela ingratidão de não verem o que foi proporcionado pra que deixassem uma condição de penúria. Eles negam o próprio protagonismo (isso é papo de petista), e eufemisticamente (ou melhor, ilusoriamente) adotam o discurso reaça-neoliberal de autossuficiência, da meritocracia, do *self-made-man*.

Ah, sim! Tem uns pitacos valiosos do copoanheiro Adauto aí -- a culpa não é só minha, não.
Por Paulo Bicarato, às 15:14 de 28.10.2014 - 2 comentários
Categoria: PretoNoBranco