

Estamira é uma mulher do povo, catadora em um dos lixões da Baixada fluminense. Dizem que é doida de pedra, mas é de uma lucidez delirante, tem um discurso apocalíptico, o que teria um Nietzsche antes de mergulhar na escuridão, ou de um Glauber Rocha, na fase em que anunciou ao universo ser o General Golbery do Couto e Silva um gênio da raça, ou um Geraldo Vandré, ao propor uma santa como padroeira do Exército.Mais algumas infos, e liberado em Creative Commons, aqui:
Mire e veja: louco talvez seja quem assim a diz — e não é feliz. Estamira jura de pés juntos que é melhor não ser um normal, normoticamente encaixotado na vidinha hipócrita e trivial do burguês com 90% de cifras na alma enferrujada.
Pouco e malmente esquentou bancos de escola. Menos ainda leu Clarice Lispector, nem sabe quem ela foi — nem é afeita à leitura de livros, menos ainda tem rompantes de ser leitora ou poetisa. Contudo, uma poesia alucinada brota, em cascata, por sua boca sempre sorridente, a não ser quando fica brava com a humanidade, e dana a lançar faíscas, estalos de Vieira, em frases cortantes como navalha.
Coerência em sua fala catártica e apoplética quase não há — mas perguntar não ofende, lógica e acessibilidade à mente cartesiana e superficial também não existe nas obras de James Joyce, de Clarice Lispector, de Guimarães Rosa, Sousândrade, e de certos poetas vanguardistas? Como no discurso viperino, lançado às escuta impossível da cidade vertiginosa, repleto de indignação e raiva, que proferiu no lixão, diante de cineastas que a filmavam: “Existe a lucidez e a ilucidez. A gente aprende alguma coisa de tanto lucidar”.
ESTAMIRA é a história de uma mulher de 63 anos que sofre de distúrbios mentais e que durante 20 anos viveu e trabalhou no aterro sanitário de Jardim Gramacho. Carismática e maternal, Dona ESTAMIRA convive com um pequeno grupo de catadores idosos num local renegado pela sociedade, que recebe diariamente mais de oito mil toneladas de lixo produzido no Rio de Janeiro.E mais:
Vencedor de 33 prêmios nacionais e internacionais nos principais festivais de cinema, sucesso absoluto de critica e documentário de maior público nos cinemas brasileiros em 2006, ESTAMIRA levanta questões de interesse global como o destino do lixo produzido pelos habitantes de uma metrópole e os subterfúgios que a mente humana encontra para superar uma realidade insuportável de ser vivida. Dona ESTAMIRA vive em função de sua missão: "revelar e cobrar a verdade dos homens". Do lixo da civilização ela supera sua condição miserável e coloca em questão valores fundamentais, muitas vezes esquecidos pela sociedade.
Folhas amareladas e caídas, retorno inicial ao ciclo do carbono. Remixagem. Tudo apodrece e vira adubo. Os ícones e os mitos sempre se renovando.
Dopre, senhora do remix, que comanda os ciclos de apodrecimento e recombinação.
Uma rede, composição abstrata de pessoas e contextos, que continua reorganizando tudo aquilo em que se reconhece.
A eterna crise de identidade como processo criativo.
Esse MutSaz buscou a composição do imaginário do outono (a queda, a preparação para o inverno, o silêncio, a meditação) com a rede MetaReciclagem e suas vizinhanças.
abril.maio.junho
— Bom dia. Gostaríamos de falar com o seu filho.[Copiado do Cyrano. 'Brigado.]
— Meu filho? Mas quem são os senhores?
— Chame o seu filho, por favor.
— Mas é uma criança, está…
— Se a senhora não chamá-lo, nós iremos buscá-lo.
— O que foi que ele fez?
— A senhora sabe o que ele fez. Queremos saber por quê. Alguém pagou para ele dizer que o rei estava nu?
— Não. Claro que não. Nós fomos ver o rei desfilar com a sua roupa nova. Até fomos cedo, para pegar lugar na frente. E quando o rei passou, ele disse, só isso.
— Por quê?
— Por que o rei estava nu.
— Isso não vem ao caso. O que o levou a se manifestar?
— Não sei. Ele ficou surpreso e…
— Influência de casa, talvez? Que tipo de educação recebe o menino?
— Uma educação normal. Nós somos gente pobre. Enfim…
— Quem são seus amigos? Ele pertence a alguma organização? O que costuma ler? Recebe publicações estrangeiras?
— Ele ainda não sabe ler! É um inocente.
— Inocente útil, talvez. Teremos que levá-lo para interrogatório. Prepare suas coisas.
— Mas…
— Vá buscá-lo, por favor.
— Mas ele disse a verdade. O rei estava mesmo nu. Todo mundo viu.
— Mas só ele disse. Esses são os que dão trabalho.
>> Luís Fernando Veríssimo
Pensar, pensarVale a pena acompanhar as homenagens via @FJSaramago.
Acho que na sociedade actual nos falta filosofia. Filosofia como espaço, lugar, método de refexão, que pode não ter um objectivo determinado, como a ciência, que avança para satisfazer objectivos. Falta-nos reflexão, pensar, precisamos do trabalho de pensar, e parece-me que, sem ideias, nao vamos a parte nenhuma.
-- Revista do Expresso, Portugal (entrevista), 11 de Outubro de 2008
Não precisamos ser hipócritas, faz bem lustrar o ego um pouco. Mas fazer isto a custas alheias? Realmente, todos nós adoramos quando somos reconhecidos. Todo mundo tem alguma façanha à qual se orgulha de entender, nem que seja entender apenas o básico. Mas garanto que certas crianças serão reconhecidas apenas por outras crianças, e nada mais.
Quer ser contratado por alguma empresa mostrando que entende de segurança? Vai provar isso no site das próprias empresas. Não é invadindo blogs pessoais que vocês irão criar um portfólio.
Agora, se já não for por isto, o que mais seria? Política? Garanto que essas crianças não estão nem aí pra hora do Brasil! Vivem em suas casinhas sentadas na frente do computador, com as mamães levando o ovomaltine à cada birrinha que é feita!
Hoje (no caso, ontem) o blog de um amigo foi hackeado, não o conheço hà muito tempo, tivemos poucos proseios, mas garanto que ele não se meteu com ninguém, principalmente não perdeu tempo arrumando briga com criança. Fiquei realmente inconformado; esse tipo de ação estraga completamente com a imagem dos fuceiros.
Não irei colocar aqui o link deste blog, nem screen do que fizeram. Não vou citar nem mesmo o "nick" dessas crianças. Se elas irão se gabar por algo, não vai ser às custas do meu comentário aqui. Até por que sei que não vão se entregar, pedir desculpas ou desfazerem o que fizeram pelos meus dizeres. Mas simplesmente servirá como "figurinha" para trocar com seus coleguinhas.
Abraços para esse meu amigo, e que "a força esteja com você", por que eu estou, pode apostar!
ps.: Antes de postar isto aqui, obviamente, por tratar de assunto não diretamente pertinente a mim, mas que realmente tomei as dores, pedi permissão à própria "vítima" que pediu para eu complementar com suas palavras, e como ele mesmo citou o nome do próprio blog, acrescentei o link:*um babaca como esse tr0ller aí nem pode ser chamado de hacker -- se muito, um crackerzinho que não tem o que fazer.[...] Enfim. Às vezes chego a imaginar como seria o mundo se todos nós utilizássemos nossas bagagens para fins realmente úteis, se fôssemos realmente uma civilização, com os verdadeiros princípios de comunidade... mas infelizmente pessoas como estas provam que estamos ainda muito longe disso.
E, pra completar, sempre tive o Alfarrábio como um espaço de compartilhamento, aberto e livre. Uma ação como essa, em que pese a mínima relevância do Alfarrábio na blogosfera, é um exemplo da falta de civilidade e, mais: um exemplo de como ainda falta muito pra que haja uma verdadeira cultura de (con)vivência pacífica e harmoniosa, fraterna e de compartilhamento -- solidária, enfim.
Infelizmente, é o retrato da vida offline -- na web, porém, esses covardes mostram a pobreza e a falta de caráter em agir anonimamente, colocando em risco o frágil equilíbrio da nossa ecologia digital.*
...se for pra contabilizar o tamanho da vitória seria como organizar a areia da praiaE, só pra constar: eu amo esse pessoal! :-)
*o site existe desde 2004 destinado a distribuir fontes digitais inspiradas no imaginário gráfico brasileiro. Desde o seu lançamento, sete designers gráficos de todo o Brasil participam com sua produção tipográfica, distribuídas de forma livre e com abordagens diversas, mas tendo como ponto convergente a pesquisa sobre a nossa cultura visual*.Essa aí, a Cordel, é só um exemplo, mas tem muito mais lá.
