
passando e repassando para dar um Feliz Ano Novo aos nobres amigos da casa. 2012 já é. Que venha a Senhora Dona Felicidade munida de mais felicidades ainda. Se essa felicidade realmente bater em mim, ó, tomara que ela também açoite o dobro em vocês. Daqui a pouquinho tentarei tocar e cantar algumas palavras com o sabor de um veranico Janeiro dois mil e... 2012 já o é. Aqui estou, aí estamos Dona Rose & Paulo Bicarato. Preto Beijo, SLParahytinga, noite, segun26Dezem2012, marco rio branco
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Tardo... e falto... Anoiteço... e falto... Amanheço... e... Estilingo o sono para um bem fazer. Fazer...Fazer o que mesmo? Ah, sim... A vida é assim mesmo. Somente os atrasos fazem com que as nossas lembranças cheguem bem de mansinho, bem devagarinho... como as boas notícias que certas letras de canções nos enchem de futuros e sabedorias. Ouro e prata se espalham por aí. O Ser Humano só será Ser Humano o dia que entender que o Ouro e a Prata é que o moverão para um bom lugar, seja esse lugar a sua casa, seja a minha casa, seja a nossa casa - Casa do Mundo. Em sendo assim, promessas não podem ser acompanhadas de dúvidas. Minhas dívidas, minhas mínimas; minhas máximas, minhas culpas. Portanto, peço e rogo pela sua honorável paciência. Gentes de outros mundos nos mandam recados. Gentes desses mundos também nos mandam recados. Como assim? Não me faça perguntas. Sus ao Bloco Baco do Balocobaco, esse que uma bela tarde/noite me deu a honra de poder escrever a letra e o samba para as carnaválias do meu Parahytinga Rio. Alguma coisa me diz que a felicidade tem o encanto de apenas e tão somente três, quatro, cinco segundos... Se assim é, ah, o ah deve deve soar como eterna a minha testemunha. Ademais, também penso que a felicidade dessas gentes do Vale do Parahytinga é a de poderem cantar essa canção olhando para um futuro a perder de vista. Em sua caras, e mesmo em suas máscaras eles assim gostam de se corresponder com os tantos, com os tentos, com os tintos Séculos XXI, XXII, XXIII e assim avante. Como bem lhe disse, perguntas se respondem com perguntas, e eis a benedita letra - "Ninguém é de ninguém / mas todo mundo / é de todo mundo / no carnaval /do Balacobaco... Baco... Baco... Baco"... E foi assim que o meu sésamo se anunciou, e a SLParahytinga cidade passou a cantar com os pés no chão (aliás, minha avó dona Maria Benedita Rio Branco vivia dizendo, quem tira os pés do chão/perde o juízo.). Bem que tentei entender o teatro. Não consegui. No entanto, a cidade São Luiz me dá a rica oportunidade em participar das festas teatrais que se estendem no cotidiano do felizmente. Você poderia me falar, quando é que o seu violão fará uma oportunidade neste ai, neste aqui, naquele acolá... Aí, sim, lhe responderia com a maior firmeza, para que servem os amigos de hora primeira? Claro, clarabóia, são esses mesmos amigos que levam e elevam o meu canto de compositor para um aí, por um aqui, para um acolá... Todos os amigos sabem que não sou afetado para tocar aí, aqui, ali... Gosto mesmo é de compor. Estudei e estudo desde os magros cinco anos para esse belo ofício - composição. Sei muito bem expressar o meu lugar de compositor. E ponto final! E é somente por isso, ó nobre Senhora, que peço encarecidamente para anunciar aquilo que tinha comentado em outubros anteriores. O registro de um cedezinho para os bons amigos do peito e nada mais. Dez canções e nada mais. O meu grande amigo de quinhentos anos e mais uns trezentos de lambujas, salve, salve Galvão Frade assim se invocou comigo, e me levou para o estúdio da sua bela casa. Se você ainda acha que estou exagerando na dose, diga lá, deixo como pista única a letra da canção " Siricutico - siricutico dá no pai / siricutico dá na mãe / siricutico dá na tia / siricutico dá no avô / siricutico dá na irmã / siricutico dá no irmão / siricutico dá no tio / dá no tio do bisavô / siricutico dá no sangue / siricutico dá na alma / siricutico dá na casa / calma do tataravô / siricutico dá na sogra / siricutico no cunhado / siricutico concunhado / siricutico até no amor / não perca a calma meu amor / que o siricutico / é uma doença com louvor / louve e love Santo Onofre / protetor das causas nobres / guarde bem o meu amor". Preto Beijo!!! SLParahytinga... noite/terça29Novem2011, marco rio branco
...a ele eu chamo de escritor, poeta. mais que isso. A ele chamo de músico... seu texto canta no ouvido... é música, música pura... os Bach, Beethoven e Pixinguinhas da vida punham isso em pautas. Marquinho Rio Branco escreve palavras!Mas eis que, mesmo diante da minha totalmente desproporcional resposta (pra menos, é claro!), o Marquinho segue me concedendo o privilégio de suas *missivas* (putz! corro o risco de isso soar como pedido de briga pra ele) -- direcionadas e devidamente compartilhadas com minha querida Rose, e também, dessa vez, chamando o seu Toninho pro papo. Mas, bom, como em todo papo-de-boteco, e isso aqui não é nada mais do que um bom papo-de-boteco, ou pelo menos uma prévia instigatória pra um ótimo papo-de-boteco-presencial, reverbero a música-poesia em prosa do Marquinho pra além da nossa modesta mesinha, cá no cantinho da bodega ou, às vezes, no meio do calçadão de São Luiz,
Dona Rose, alguns anos atrás escrevi uma letra para uma canção. Canção essa que combinaria com os mundos dos mundos jucatelianos. Galvão Frade invocou com uma melodia única, e fui tentar cuidar da letra. E comecei a tal canção que viria a ser quase que única e definitiva para o Bloco Juca Teles. 1985. Poderia lhe dizer que a letra da música começou de trás para frente, "Juca Teles / amora em flor / Boca do povo / (são) Palavras em amor..." Pois muito bem, então ficamos combinados que com o tal do Juca Teles deve-se bater com uma flor, mas jamais com palavras de finos tratos e quejandos mais, se me entende... E vou lembrando também de uma nossa prosa porosa na mesa do Bar do Washington, aqui em São Luiz do Parahytinga, como quando tocamos no assunto da esfacelada economia da europa. Talvez, Dona Rose, a Senhora não se lembre, nem mesmo o renomado "arquiteto de mesas de bar" dom Paulo Bicarato, mas nossas conversas foram fluindo acaloradas. Estou falando de uns bons quatro, cinco anos atrás, 2006, 2007, 2008? Sei lá... A tal da crise econômica já era lapidar. Diamante puro. Economia essa pronta para não ser lapidada. Como ainda está sendo... Bom, doses de pingas, cervejas e cafés textuavam nossas divagações. Penso que divagações essas, sim, bem claras, caminhos sem voltas, nossas vidas, novas não economias para um mundo dito um outro mesmo mundo! Bicos molhados, olhos sagazes, cada qual por seus caminhos... Caminhos para boas bicas de águas bem claras. E um Bicarato para me atormentar por mais alguns anos. Mesmo na miúda, nobre Senhor, estamos por aí... Muito contente fiquei em saber que o Senhor seu pai se chama Antonio. Antonio. Sempre fiquei tentado com esse nome. Às vezes, mas só às vezes, esse nome me soa como se fosse anônimo, em outras, ó, como sendo antônimo. Enfim, toda essa bobagem sonora, se é que poderia tocar nesse assunto, é lá com Santo Antonio, como dizia a maravilhosa e acachapante música junina de mestre Tra la la Lamartine Babo. Sim, Tra la la... é um livro sobre o grande mestre Lamartine Babo. Quer entender as geniais letras e músicas de Lamartine Babo, ui, lamba com os olhos esse maravilhoso livro. E você nunca mais será o mesmo. Lamartine Babo ainda sonora em meus ouvidos de mercador musical, para o todo e para um sempre e sempre... Bom, mas como somos do século passado, e esse século XX ainda teima em se arrastar nas mãos e nos olhos de pessoas do século retrasado, minha Senhora, meu Senhor, é melhor mudar de assunto, mesmo sem sair desse assunto. Como essas linhas gerais ainda tintam para o Senhor seu Pai, agradeço como munca ao nobre senhor seu pai "seo" Antonio. E que ele muito ore por nós, como somente os pais sabem retratar e olhar bem para os seus filhos. Sua Benção, senhor Antonio! Com respeito às nossas idas e vindas nesse velho mundo sem porteira, não gosto e não queria falar, mas sou um pouco obrigado portanto a lhes dizer, fiz um registro-cedezinho para escutar com os amigos do peito e nada mais... Na próxima estação novembrina, ó, prometo arremessar uma das letras proceis... inté...
SLParahytinga... tarde-quarta, 19Outubro2011. Preto Beijo! marco rio branco
![]() | Em 1922, saiu a primeira versão do *Dom Quixote* na China, então renomeado *A História de um Cavaleiro Louco*. Ninguém perguntou pro Cervantes se ele aprovou a versão, até porque o cara já tinha morrido há uns três séculos. Também não temos notícia de que essa versão chinesa tenha sido vertida pra português ou espanhol, daí que é um verdadeiro mistério como é que ficaram os imbróglios do D. Quixote & Sancho Pança de olhinhos puxados. Insisto no termo *versão*, em vez de *tradução*, por se tratar, obviamente, de outra obra -- em uma palavra, um exemplo perfeito do *remix* criativo, livre pra reintepretar e dar novos e inesperados sentidos a seja lá o que for. Detalhe: o *tradutor*, Lin Shu, era monoglota, e contou com a ajuda de Chen Jialin, o assistente que lhe fazia resumos orais do D. Quixote original. Ou seja: a versão em chinês é uma versão boca-a-boca, e sabe-se lá o quanto o Chen foi, digamos, *fiel* ao original ou o quanto imprimiu da sua própria interpretação na sua contação de causo... Descobri essa deliciosa história curiosa pelo Sérgio Augusto, no Estadão. Diz o Sérgio que o escritor argentino Ricardo Piglia espera por uma tradução pro espanhol d'*A História de um Cavaleiro Louco*, "para tentar recriar, ficcionalmente, as conversas entre Lin Shu, o tradutor, e Chen Jialin, seu assistente". O Sérgio diz que o Piglia também pretende "mensurar o grau de contaminação do romance pela língua e o contexto chineses". Confesso que o termo *contaminação* me incomodou um pouco (acho que por remeter, em primeiro lugar, a aspectos negativos, infecciosos) mas, no final das contas, que seja: é, também, se contaminando que se criam anticorpos e se fortalecem os organismos -- língua, cultura, artes, *bens imateriais* em geral, só têm a ganhar com esse remix. |
"Nós vamos rolar de rir"
Sobre Toni Negri, Ed Emery, Le Monde Diplomatique http://mondediplo.com/2011/08/14negri e em Counterpunch http://counterpunch.org/emery08122011.html (Filmes, em italiano, em http://www.youtube.com/watch?v=zTY1Dow6MzU)
Quando Toni Negri, agora aos 78 anos, escreve e fala, há sempre algum latim na sua fala profunda, mas o discurso é claro, disciplinado, lúcido e prazeroso. É como um abraço viril, muscular e poderoso, como tudo que sua formidável inteligência produz. Precisamos muito desse tipo de pensamento, porque os modelos esquerdistas do passado já não funcionam e algo novo tinha, sim, de ser inventado.
Seu livro Empire não sai das listas de mais vendidos nos EUA, mas Negri não tem partido,nem organização, nem legiões de seguidores. Diz ele: “Sinto-me um pouco isolado, porque sou e sempre fui extremista. Quem queira fazer carreira, ou manter relacionamento ‘estável’ com o mundo da política ordinária, evita envolver-se comigo.” Seu trabalho é teorizar as práticas passadas e as possibilidades futuras da revolução. Já há mais de vinte anos, escreve que as “classes” deram lugar à “multidão” como conceito e termo analítico. Seus adversários e detratores dizem que as massas não estão nas ruas, nas barricadas, aos gritos de “Somos a multidão”.
A Primavera Árabe pareceu bom momento para visitar Negri, uma vez que o que se vê nas principais praças de várias capitais em torno do Mediterrâneo é bem semelhante a multidão em ação, o que Negri disse em inúmeros artigos para vários jornais. Conversar com Negri é diferente de ler o que ele escreve, sobretudo no meu caso, que traduzo seus escritos para o inglês.
Num trem para Veneza, no trevo ferroviário de Mestre, esse espaço paradisíaco de terra, vento e água, dou-me conta de que já fazem 40 anos que traduzo o que o Negri escreve. Vejo-me outra vez em Londres, no início dos anos 1970s, ambos ativistas recém saídos da universidade, vivendo numa comuna frequentemente visitada pela polícia. Tínhamos uma sala de impressão montada no porão (ainda sinto saudades do chug-chug da impressora Multilith 1250 Offset e do cheiro acre dos panfletos recém impressos). Um grande mapa da Itália na parede, porque a Itália era o coração do território da revolução da classe trabalhadora, para todas as fábricas da Europa.
Acabaram por concluir que éramos parte de uma conspiração internacional, o que, em certo sentido, éramos. Mostraram especial interesse por um documento que encontraram na minha gaveta, os papéis da Conferência da organização Potere Operaio (Poder Operário), que revolucionou o modo como entendíamos a luta de classes, pela periodização histórica das lutas trabalhistas, dividindo-as em ciclos. Negri foi uma das vozes no Potere Operaio que teorizou o “trabalhador-massa” que levou às lutas dos anos 1970s. Foi a fonte inspiracional que me pôs a traduzir tudo que ele escrevesse, embora meus esforços iniciais tenham sido descartados pela polícia e por ‘patrulhas’ ideológicas.
Aquela paisagem política do “trabalhador-massa” empregado em sistemas de trabalho medido por dia, fora ocupada por trabalhadores da indústria automobilística, estivadores, mineiros, operários da construção civil e seus sindicatos: um ciclo internacional de lutras trabalhistas capazes de derrubar governos. Tudo aquilo mudara. O capitalismo industrial baseado em classes trabalhadoras fabris dera lugar a um novo capitalismo, baseado em serviços financeiros, na economia digital, na produção e no comércio do conhecimento: “capitalismo cognitivo”. No território capitalista, já não se veem bancadas de ferramentas, mas manipulam-se, criam-se e valorizam-se dados e redes digitais. Facebook e Google são maiores que a General Motors. As novas massas, de “trabalho imaterial”, são a “multidão” de Negri.
Quando a onda de lutas fabris recuou, derrotada, a Itália entrou nos “anos de chumbo” (anni di piombo), o terrorismo político dos anos 1970-80s. Negri foi preso, com centenas de outros da esquerda autonomista (autonomia operaia) no primeiro dos movimentos de massa que começaram dia 7 de abril de 1979. Passou quatro anos na prisão, a partir de 1979, depois em exílio na França e depois novamente a prisão, na Itália. Negri conta a história desses anos em Diario di un’evasione (1985, Hachette) e Pipe-line. Lettere da Rebibbia (2009, Feltrinelli). Com o fim do sistema soviético, havia carência absoluta de reflexão forte que explicasse o novo estado do mundo. Negri embarcou em seu maior trabalho, com Michael Hardt na Duke University, e publicaram Império (2000), Multidão (2004) e Commonwealth (2009).
A ideia do “comum”
Escapando ao bloqueio histórico a que a experiência soviética condenara o comunismo, Negri voltou à ideia do “comum” que sempre esteve na raiz daquele pensamento. Discute uma realidade gêmea de “commons”. Identificando a raiz da atual crise econômica, vê um “comum” capitalista, uma unificação e comunalidade (comunanza) dos interesses capitalistas, sobretudo nas finanças. “Às vezes, usando as palavras com excessiva imprecisão, há quem veja nisso ‘o comunismo do capital’. Aí está um ‘comum’ do qual temos de dar conta. E que temos de expropriar.”
O conceito fundamental da tradição do operaísmo italiano é que o capitalismo sempre mapeia seus desenvolvimentos segundo as lutas e a resistência dos trabalhadores. Hoje, como efeito das lutas do trabalho nos anos 1970-80s, há uma comunalidade no trabalho, caracterizada pela imaterialidade, pelos conteúdos cognitivos e pela comunicação implícita em todas as áreas do trabalho em mundo capitalista. Nesse quadro, é indispensável modificar o modo como pensamos a organização da mudança social. Nas palavras de Negri: “A revolução já não visa a ocupar o Palácio de Inverno, como no tempo dos bolcheviques. Em vez disso, temos hoje essas formas de comum, essas formas de interação, a potência das redes, a pluralidade, a policontextualidade, que se vão expandindo cada vez mais amplamente”.
Mas como se pode organizar a fúria, a urgência e a agressividade que se viu no norte da África e na Espanha, Portugal e Grécia? Em Commonwealth Negri discute essa questão.
Chama à fúria indignação e encontra raízes em Spinoza, que diz que na indignação descobrimos nossa força para agir contra a opressão. Mas o problema é como transformar esses momentos de fúria popular em instituições duráveis do poder do povo? Para Negri e seus companheiros, nessa fase do capitalismo todas as metrópoles tornaram-se arenas de produção e de resistência. Vivemos sob um sistema “biopolítico” (toda o campo da vida é político). A teoria revolucionária tem de ser desenvolvida no contexto biopolítico: inserir Marx no pensamento de Foucault. Assim sendo, qual a tarefa dos revolucionários? “Nossa tarefa é investigar o quadro organizacional das subjetividades antagonistas que nascem de baixo, baseados na indignação manifestada pelos sujeitos ante a opressão (...) a exploração (...) e a expropriação” (Michael Hardt e Toni Negri, Commonwealth).
Indignação talvez pareça conceito vago, mas, no instante em que escrevo, vejo pela televisão imagens da praça Sintagma, em Atenas, com milhares de manifestantes cercando o Parlamento grego, em protesto contra novas leis de ‘austeridade’. Numa enorme faixa, lê-se a palavra que simboliza o movimento: Aganaktismeni. Os indignados. Como, antes dos gregos, os espanhóis, Los indignados. Negri lá estava, de pleno direito.
Negri é sempre muito acessível. Nos anos 1980s, traduzi e publiquei um volume dos escritos de Negri, Revolution Retrieved (Toni Negri, Revolution Retrieved: Writings on Marx, Keynes, capitalist crisis and new social subjects (1967-83), ed. e trad. Ed Emery e John Merrington, Londres: Red Notes, 1983), em colaboração com John Merrington. Ainda tenho algumas cópias; da venda, recolho dinheiro que azeita as engrenagens da revolução.
Semana passada, descobri que o livro foi scaneado por “Libertarian Communists” e distribuído pela rede gratuitamente, o que explica que minhas vendas, de repente, tenham caído a zero. Pedi que tirassem de lá o meu livro, mas não tiraram. Portanto, como presentinho meu aos leitores, aqui vão as instruções para baixar e imprimir, gratuitamente: basta clicar http://libcom.org e imprimir. O livro leva o título de “Negri — Revolt at Trani Prison”. Aproveitem.
Viajando para entrevistar Negri, também tinha planos de capturar algumas das histórias engraçadas que ele conta, de uma longa e profícua vida como filósofo, teórico, ativista, exilado e prisioneiro. O resultado são 13 curta-metragens que se encontram em YouTube; o primeiro é “The Revolt at Trani Prison” (1980) (Racconti curiosi no 13: “The Revolt at Trani Prison”, http://youtu.be/zTY1Dow6MzU). A tragédia e as gargalhadas contêm um segredinho para a decifração do último parágrafo da trilogia. O coração e a alma da revolução, diz Negri, serãao o riso. “Nossa risada é, afinal, a risada da destruição, a risada de anjos armados que acompanha o último combate contra o mal. Na luta contra a exploração capitalista (...) todos sofreremos terrivelmente, mas, seja como for, haverá risos de alegria. Nós os enterraremos por rir deles.” Ou, mais poeticamente, em italiano, Sarà una risata che vi seppellirà.
Salve, salve Dona Senhora e Senhor Paulo Bicarato! Estamos mais pertos do que nunca. Nossas idéias, nossas utopias. Não adianta espernear, cada vez mais o mundo é dos sonhadores.Segundo clichê: pra quem não tem o prazer de conhecer, além das palavras: o Marquinho é um neguim-magrim, um corpo franzino, quase frágil, absolutamente desproporcional ao tamanho da inteligência. Se não bastasse, a poesia tá no próprio e-mail do cara, num trocadilho com o próprio nome: marbrancorio...
Quer apostar? Tudo o que não pretendíamos, caro Senhor, está acontecendo. Crise? Que crise? Há muitos e muitos anos li que um andarilho também fazia esse dito questionamento. Então, ó, para que chorar. O mundo europeu jamais voltará a ser o que foi um dia. Bodes velhos berram, mas o caminho é a passagem sem volta. Dúvidas das dúvidas, meu Brasil brasileiro transcorre o seu ideal serenamente. Disso tenho absoluta certeza. Jacarehy anda e desanda por aqui. São Luiz do Parahytinga entoa por ai... Alfarrábio faz furor em meus magros olhos. Vez em sempre, é a pura verdade, dou uma sacudela no pó dos seus doridos ossos. Gosto e muito quando você cita a Senhora sua Mãe. Digo e repito. Por onde anda mesmo as benditas memórias daquela suculenta macarronada? Não posso crer que você esqueceu? E aquele rico pedaço de pudim de leite condensado que até hoje nunca mais mais saiu do seu pensamento? E aquela canção que nem Angela Maria saberia interpretar ao seu pé de ouvido, na maviosa voz da Sua Mãe? É, meu caro amigo, o mundo é muito maior do que cantamos... Parahytinga continua no seu lugar de sempre. Uma outra cidade? Não, nunca, jamais... Poucas são as cidades no mundo que sabem se reinventar, e dentre essas, alguma coisa me diz que São Luiz é uma delas. Não, nunca, jamais gostei da palavra reconstrução. Ninguém reconstrói nada. Nem tem como. Sempre e sempre temos que pedir licença para entrarmos em lugares ditos sagrados. Os orientais se curvam e pedem licença para entrar num local, não importa que lugar é esse, tanto pode ser uma cidade, um rio, uma casa, uma cachoeira, uma densa floresta, e até mesmo beber um copo de uma boa bebida, beijar uma querida amiga, uma querida mulher, uma querida companheira. Gostamos ou não, mas São Luiz do Parahytinga está fadada a reinvenções. Água é vida! É da água que vêm as novas tonificações, tudo enredando para as futuras gerações! A cultura do café já não mais faz sentido para a cultura da Parahytinga cidade. Falo da cultura dos casarões, das músicas, das suas gentes. Sei que muita gente não gosta quando toco nesse assunto. Porém, meu caro Senhor, não posso fazer nada, absolutamente nada. Continuamos a beber da mesma fonte, da eterna fonte da juventude do Parahytinga Rio. Lembre-se, Um Rio passa milhões de vezes no fundo do quintal da minha casa, no fundo do quintal da cidade São Luiz do Parahytinga. Rios nascem, crescem e matam cidades. Rios inventam cidades. Rios destróem cidades. Existem cidades físicas. Existem cidades fabulosas. Penso que São Luiz é um caso de fabulação. Todos conhecem a cidade somente nas suas festas. Pouquíssimas pessoas a conhecem numa meiga segunda, terça, quarta-feira de cinzas. Quem manda e desmanda numa cidade, ah, não são e jamais serão os prefeitos, políticos, padres. Sim, tire, retire um gari da cidade por um, dois, três dias. O dia seguinte será dos abutres, dos urubus, dos diz-que-diz... São Luiz do Parahytinga... talvez um dia essa cidade mude para um lugar real. Por enquanto, mas só por enquanto, ele continua mais fabulosa do que nunca...
São Luiz do Parahytinga, noite-terça / 04Outubro2011... Preto Abraço, marco rio branco
Abraça essa ternura de louco que há em mim.
Derrete com teu beijo a pena de viver.
| Num dia desses, ou numa noite dessas, você sai pela sua rua, ou pela sua cidade ou, sei lá, pela sua vida, quando de repente, por detrás de uma árvore, apareço eu! Mescla rara de penúltimo mendigo e primeiro astronauta a pôr os pés em Vênus. Meia melancia na cabeça, uma grossa meia sola em cada pé, as flores da camisa desenhadas na própria pele e uma bandeirinha de táxi livre em cada mão. Ah! ah! ah! Você ri... você ri porque só agora você me viu. Mas eu flerto com os manequins, o semáforo da esquina me abre três luzes celestes. E as rosas da florista estão apaixonadas por mim, juro, vem, vem, vamos passear. E assim dançando, quase voando eu te ofereço uma bandeirinha e te digo: Já sei que já não sou, passei, passou. A lua nos espera nessa rua é só tentar. E um coro de astronautas, de anjos e crianças bailando ao seu redor, te chama: vem voar. Já sei que já não sou, passei, passou. Eu venho das calçadas que o tempo não guardou. E vendo-te tão triste, pergunto: O que te falta? ...talvez chegar ao Sol, pois eu te levarei. Ah! Ah! Ah! Louco, louco, louco! Foi o que me disseram quando disse que te amei. Mas naveguei as águas puras dos teus olhos e com versos tão antigos, eu quebrei teu coração. | .:|:. | Ah! Ah! Ah! Louco, louco, louco, louco, louco! Como um acrobata demente saltarei dentro do abismo do teu beijo até sentir que enlouqueci teu coração, e de tão livre, chorarei. Vem voar comigo querida minha, entra na minha ilusão super-esporte, vamos correr pelos telhados com uma andorinha no motor. Ah! Ah! Ah! Do Vietnã nos aplaudem: Viva! viva os loucos que inventaram o amor! E um anjo, o soldado e uma criança repetem a ciranda que eu já esqueci... Vem, eu te ofereço a multidão, rostos brilhando, sorrisos brincando. Que sou eu? sei lá, um... um tonto, um santo, ou um canto a meia-voz. Já sei que já não sou, nem sei quem sou. Abraça essa ternura de louco que há em mim. Derrete com teu beijo a pena de viver. Angústias, nunca mais! Voar, enfim, voar! Ama-me como eu sou, passei, passou. Sepulta os teus amores vamos fugir, buscar, numa corrida louca o instante que passou, em busca do que foi, voar, enfim, voar! Ah! Ah! Ah!... Viva! viva os loucos!!! Viva! viva os loucos que inventaram o amor! Viva! viva! viva! |
Preciso transfundir seu sangue
Pro meu coração que é tão vagabundo
*as coisas não querem mais ser vistasNo aniversário da Rose, veio um presentão da Lelê, que a gente tem a obrigação de compartilhar aqui e ali e onde mais puder: Só dez por cento é mentira - a desbiografia oficial de Manoel de Barros.
por pessoas razoáveis.
Elas desejam ser olhadas de azul.
Era no bar, e um momento mágico alterou
o gosto entre um gole e outro da cerveja.
Inesperado, o convite pra comemorar
seu aniversário gerou o nascimento
de outro aniversário.
A data especial, antes de uma pessoa,
tornou-se de duas. Ganhou milhagens
em viagens, perrengues e gargalhadas,
que já são e serão devidamente multimultiplicadas.
Compartilhada, a data virou também
meu novo aniversário.
A folhinha do calendário nunca mais
foi a mesma (nunca é).
E meu calendário passou a ter só uma
estação: nem inverno nem verão,
só parada obrigatória nas
trilhas da Rose, com a Rose.
Nessas paradas em que a gente nunca
para, só compart(r)ilha trilhos:
paralelos, vão se encontrar no infinito.
Ou não: quando dois se tornam um,
estações-paradas sempre em movimento,
nas bifurcações-convergentes
dos caminhos que vamos trilhando
e construindo e descobrindo e aprendendo.
Juntos.

>> disclaimer (f)útil)Se não tem o que escrever, saia da frente do computador e vá tomar uma cerveja! (Leia-se como uma paráfrase da boa e velha “se não tem o que falar, cale-se” – melhor que fiquem na dúvida se é um idiota por estar quieto; se falar algo, terão certeza.) Ok, já chego pronto pra receber pedradas e admito: saio de cara com uma advertência pra, logo em seguida, tascar um parênteses: ó, é isso que dá quando se está exatamente sem ter o que falar. E estar tomando uma cerveja.
é permitido permancer no recinto com as devidas carapuças
Esporte de homem não é porrada. É porrinha.
Realmente não sou chegado a ver um bando de homens, dando pinta de que acabaram de escapar de uma gruta em Neanderthal, brigando. Por isso mesmo não assisti ao evento de luta livre (tem uma sigla pro treco, mas estou com preguiça de verificar qual é...) que ocorreu aqui no Rio. A última briga entre cariocas que me interessou foi entre os índios tamoios e temiminós, nos idos do século XVI , nas praias da Guanabara. Depois de Araribóia e Cunhambebe e seus respectivos tacapes eu não respeito homem nenhum saindo no braço.
Um conhecido meu, durante um rápido encontro no Centro da cidade, tentou me convencer a assistir o confronto entre os egressos do Paleolítico Inferior com o argumento de que isso sim é "esporte de homem". Respondi que esporte de homem, pra mim, nem o futebol é. Só mesmo a porrinha disputada nos botequins mais vagabundos merece essa alcunha. É por isso que reproduzo abaixo um texto que escrevi em 2010, logo depois da escolha do Rio de Janeiro como cidade olímpica: Porrinha nas Olimpíadas de 2016! E vai em negrito, pra fortalecer a campanha.Existem vários tipos de espíritos que podem encostar e pegar o sujeito. Eu, por exemplo, que vim de uma família ligada ao espiritismo em suas vertentes macumbais - umbanda e encantaria - quando era pequeno ouvi da minha avó que era sempre bom pedir auxílio aos espíritos e entidades; eles viriam me ajudar. Tornei-me, então, devoto do espírito mais citado lá em casa: O espírito de porco. Fazia pedidos a ele.
Quando descobri, lá pelos sete anos, que o espírito de porco não era exatamente quem eu imaginava, mergulhei durante meses no mais absoluto materialismo e virei comunista. Foi o seguinte: Tomei um esporro da minha avó no dia em que perguntei a ela qual era o ponto que eu devia cantar para saudar o espírito de porco. Ela achou que era sacanagem minha. Posso, inclusive, confessar algo que só pretendia fazer ao médium de mesa branca depois da morte - o dia em que descobri que o espírito de porco não era uma entidade correspondeu, em termos de impacto, à notícia sobre a inexistência do Papai Noel para centenas de outras crianças.
Parêntese: Vejam como são as coisas. Comecei falando do espírito de porco quando, na verdade, pretendia escrever desde o início sobre outro espírito - o olímpico. Retomo no próximo parágrafo a ideia original.
A escolha do Rio como sede das Olimpíadas de 20l6 despertou em mim forte vocação esportiva. Entusiasta dos esportes do Brasil, sou fã e praticante amador de um jogo fundamental para nossa gente brasileira, tão sofrida e adepta do desporto como instrumento de inclusão social: a porrinha [ou purrinha], também conhecida como basquete de bolso.
A porrinha é um esporte altamente sofisticado e democrático. Os estádios ideais para a prática são os botequins mais vagabundos. Cada atleta, em geral, inicia a peleja com três palitinhos. A partida começa quando os jogadores escondem uma certa quantidade de palitos numa das mãos e as estendem, fechadas, para a frente. Cada jogador dá, então, o seu palpite sobre quantos palitos estão no jogo. Ganha a rodada quem acertar o número exato de palitos.
A porrinha exige dos esportistas alguns atributos fundamentais: Sorte, inteligência para blefar e perceber o blefe e preparo físico para jogar enquanto quantidades generosas de cervejas e cachaças são consumidas durante o embate. Recomenda-se um trabalho de musculação para o fortalecimento da musculatura do bíceps, que sofrerá o impacto do peso dos palitos durante a refrega. O uniforme ideal para a prática do desporto é simples e consiste em bermuda, camiseta e sandália de dedo.
Pesquisas que fiz em compêndios e dicionários especializados indicam que a provável origem da porrinha é o antigo Império Romano. Os soldados de Roma costumavam praticar, nos intervalos das batalhas mais sangrentas, um jogo conhecido como Morra. O negócio consistia no seguinte: Os jogadores escondiam uma certa quantidade de dedos da mão direita às costas e diziam um número. Aquele que acertasse o número exato era o vencedor. O troço era popularíssimo e há relatos nas crônicas de Seleno de torneios realizados no Coliseu que terminaram em matanças tremendas.
Alguns especialistas defendem que o nome porrinha surgiu de uma expressão proferida por Santo Agostinho no século IV - Porro cum quo micas in tenebris ei liberum est, si veliti, fallere. Tradução: Com certeza, mesmo que avisado, podes enganar aquele com quem jogas morra no escuro. O latim porro, com o tempo, virou porra. A porra virou porrinha.
O Brasil transformou a velha porrinha romana em coisa nossa, como o samba, a prontidão e outras bossas. Introduzimos os palitinhos de dente ou fósforo no babado e consagramos o botequim como palco da disputa. Fizemos a mesma adaptação em relação ao futebol, o jogo sem graça dos ingleses que ganhou a ginga e o balacobaco canarinho.
É por isso que sugiro, com a maior seriedade, campanha em meios de comunicação e o esforço dos formadores de opinião para que a porrinha seja considerada esporte olímpico em 2016. Clamo pelo empenho do Doutor João Havelange, do presidente Lula, de Pelé e demais autoridades físicas e metafísicas para que o Comitê Olímpico Internacional faça justiça com o histórico esporte.
Não precisaremos, pensem nisso, sequer construir estádios. Aqui no Maracanã temos, por exemplo, o Bode Cheiroso, botequim com estrutura para sediar os embates. Imagino até o novo nome do estabelecimento: Complexo Olímpico Bode Cheiroso.
A memória dos grandes e falecidos atletas da porrinha de todos os tempos - Meu avô, Jorge Macumba, Seu Nilton, Manoelzinho Motta, Seu Vovô, Abecedário, João do Vale, Teté, Claudio Camunguelo, Dr. Castor de Andrade, Moisés Xerife, Candonga, Primo Pobre, Querido de Deus, Seu Sete Rei da Lira, Madame Satã, Camisa Preta, Julião Vem Cá Meu Puto, Wilson Batista, Almir Pernambuquinho... - poderá inclusive servir como instrumento de forte campanha de marketing para estimular a prática educativa do esporte entre nossa juventude.
Esporte de homem não é porrada. É porrinha.
Abraços