27.02.2015

:: Palhaços Mudos ::

Clássico dos clássicos, daquela fase antológica do Laerte: *A Noite dos Palhaços Mudos* foi publicada n*Os Piratas do Tietê*, em 1994. Eis que ela ressurge na rede, agora em adaptação para o cinema, vencedora de mais de 30 prêmios nacionais e internacionais. Direção: Juliano Luccas, Produção: Ludovico Filmes / Ludovico - Facebook.

No site do Laerte: A Noite dos Palhaços Mudos

Mas tá aqui:
A noite dos palhaços mudos from Henry Chinaglia Filho


E, enfim, o filme:
Por Paulo Bicarato, às 13:55 de 27.02.2015 - Comentem!
Categoria: Almanaque

24.02.2015

:: Rosa, em sons & imagens ::

Dias atrás, postei no feicebúqui o link pra um ensaio fotográfico do iauaretê Araquém Alcântara sobre o universo do sertão do Guimarães Rosa (reproduzo o post a seguir). A Mohini Su curtiu, eu comentei e, papo vem, papo vai, ela me diz que há tempos quer ler o *Sagarana* e me pergunta se eu tenho. É, sim, tenho *só* quatro edições... No dia seguinte, trouxe o livro pra ela -- sob a promessa, cá registrada, de que era vai-e-volta. Sim, tenho uma ciumeira danada da minha *roseana*.

Dias depois, ela manda mensagem sugerindo uma trilha sonora pr'*A volta do marido pródigo*: Malandro é malandro, Mané é Mané. Indiquei, então, o CD Rosário, do querido Nhambuzim, dos queridos Sarah, Xavier e Edson. Aí, dia-sim-dia-não, ela comenta na sequência sobre o *Sarapalha*, depois *Minha Gente*... até chegar ao *São Marcos* -- mais uma vez, sugerindo trilha sonora: *Não Mexe Comigo*, da Maria Bethânia, que eu não conhecia. Segue aí, ela diz tudo:


Carta de Amor
Maria Bethânia

Não mexe comigo, que eu não ando só
Eu não ando só, que eu não ando só
Não mexe não!

Não mexe comigo, que eu não ando só
Eu não ando só, que eu não ando só

Eu tenho Zumbi, Besouro, o chefe dos tupis
Sou Tupinambá, tenho os erês, caboclo boiadeiro
Mãos de cura, morubichabas, cocares, arco-íris
Zarabatanas, curare, flechas e altares

À velocidade da luz, no escuro da mata escura
O breu, o silêncio, a espera
Eu tenho Jesus, Maria e José
Todos os pajés em minha companhia
O menino Deus brinca e dorme nos meus sonhos
O poeta me contou

Não mexe comigo, que eu não ando só
Eu não ando só, que eu não ando só
Não mexe não!

Não mexe comigo, que eu não ando só
Eu não ando só, eu não ando só

Não misturo, não me dobro
A rainha do mar anda de mãos dadas comigo
Me ensina o baile das ondas e canta, canta, canta pra mim
É do ouro de Oxum que é feita a armadura que guarda meu corpo
Garante meu sangue, minha garganta
O veneno do mal não acha passagem
E em meu coração, Maria acende sua luz e me aponta o caminho

Me sumo no vento, cavalgo no raio de Iansã
Giro o mundo, viro, reviro
Tô no recôncavo, tô em fez
Voo entre as estrelas, brinco de ser uma
Traço o cruzeiro do sul com a tocha da fogueira de João menino
Rezo com as três Marias, vou além
Me recolho no esplendor das nebulosas, descanso nos vales, montanhas
Durmo na forja de Ogum, mergulho no calor da lava dos vulcões
Corpo vivo de Xangô

Não ando no breu, nem ando na treva
Não ando no breu, nem ando na treva
É por onde eu vou que o santo me leva
É por onde eu vou que o santo me leva

Não ando no breu, nem ando na treva
Não ando no breu, nem ando na treva
É por onde eu vou que o santo me leva
É por onde eu vou que o santo me leva

Medo não me alcança
No deserto me acho, faço cobra morder o rabo, escorpião virar pirilampo
Meus pés recebem bálsamos, unguentos suaves das mãos de Maria
Irmã de Marta e Lázaro, no oásis de Bethânia
Pessoa que eu ando só, atente ao tempo
Não começa, nem termina, é nunca, é sempre
É tempo de reparar na balança de nobre cobre que o rei equilibra
Fulmina o injusto, deixa nua a justiça

Eu não provo do teu fel, eu não piso no teu chão
E pra onde você for, não leva o meu nome não
E pra onde você for, não leva o meu nome não

Eu não provo do teu fel, eu não piso no teu chão
E pra onde você for, não leva o meu nome não
E pra onde você for, não leva o meu nome não

Onde vai, valente?
Você secou, seus olhos insones secaram
Não veem brotar a relva que cresce livre e verde longe da tua cegueira
Seus ouvidos se fecharam a qualquer música, a qualquer som
Nem o bem, nem o mal pensam em ti, ninguém te escolhe

Você pisa na terra, mas não a sente, apenas pisa
Apenas vaga sobre o planeta, e já nem ouve as teclas do teu piano
Você está tão mirrado que nem o diabo te ambiciona, não tem alma
Você é o oco, do oco, do oco, do sem fim do mundo

O que é teu já tá guardado
Não sou eu quem vou lhe dar
Não sou eu quem vou lhe dar
Não sou eu quem vou lhe dar

O que é teu já tá guardado
Não sou eu quem vou lhe dar
Não sou eu quem vou lhe dar
Não sou eu quem vou lhe dar

Eu posso engolir você, só pra cuspir depois
Minha fome é matéria que você não alcança
Desde o leite do peito de minha mãe
Até o sem fim dos versos, versos, versos
Que brotam do poeta em toda poesia
Sob a luz da lua que deita na palma da inspiração de Caymmi

Se choro, quando choro, e minha lágrima cai
É pra regar o capim que alimenta a vida
Chorando eu refaço as nascentes que você secou
Se desejo, o meu desejo faz subir marés de sal e sortilégio
Vivo de cara pra o vento na chuva, e quero me molhar
O terço de Fátima e o cordão de Gandhi cruzam o meu peito
Sou como a haste fina, que qualquer brisa verga, mas nenhuma espada corta

Não mexe comigo, que eu não ando só
Eu não ando só, que eu não ando só
Não mexe não!

Não mexe comigo, que eu não ando só
Eu não ando só, que eu não ando só
E, pra completar, o post que originou tudo, direto do site do Luis Nassif:
Sertão sem fim pelas lentes de Araquém Alcântara
As vacas e os cavalos de Guimarães Rosa
Sertão sem fim

"Eu queria que o mundo fosse habitado apenas por vaqueiros. Então tudo andaria melhor."
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"... não se esqueça de meus cavalos e de minhas vacas. As vacas e os cavalos são seres maravilhosos. Minha casa é um museu de quadros de vacas e cavalos. Quem lida com eles aprende muito para sua vida e a vida dos outros."
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"Isto pode surpreendê-lo, mas sou meio vaqueiro, e como você também é algo parecido com isto, compreenderá certamente o que quero dizer. Quando alguém me narra algum acontecimento trágico, digo-lhe apenas isto: “Se olhares nos olhos de um cavalo, verás muito da tristeza do mundo!"
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"... nós, os homens do sertão, somos fabulistas por natureza. Está no nosso sangue narrar estórias; já no berço recebemos esse dom para toda a vida."
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"Desde pequenos, estamos constantemente escutando as narrativas multicoloridas dos velhos, os contos e lendas, e também nos criamos em um mundo que às vezes pode se assemelhar a uma lenda cruel."
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"Deste modo a gente se habitua, e narra estórias que corre por nossas veias e penetra em nosso corpo, em nossa alma, porque o sertão é a alma de seus homens (...) Eu trazia sempre os ouvidos atentos, escutava todo o que podia e comecei a transformar em lenda o ambiente que me rodeava, porque este, em sua essência, era e continua sendo uma lenda."
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- João Guimarães Rosa, em entrevista a Günter Lorenz - "Diálogo com Guimarães Rosa"
Por Paulo Bicarato, às 14:25 de 24.02.2015 - Comentem!
Categoria: Biblios

13.02.2015

:: Se ::

Se o jogo é agora (e, às vezes, acho que sempre é),
esforço-me pra desviar das jogadas – e frases -- imprecisas.
Se o *se* nunca joga, os dados me dão respostas múltiplas.
Se é, se-rá.
Quando a brincadeira rola solta, é sempre quando.
Quando a dúvida aperta, é quando vale a pena.
Quando a certeza impera, é quando fico na dúvida.
Onde meu centro, onde me centro, só fora de mim.
Onde me escondo, só fora de ti.
Onde o *se* e o *quando* se questionam, cá estou.
Se quando onde há o que.
Por Paulo Bicarato, às 15:46 de 13.02.2015 - Comentem!
Categoria: Pensatas

09.02.2015

:: Botequim ::

Quem me contou foi o Pedrinho, que é vizinho do cunhado de uma colega de trabalho aqui: ficou sabendo que abriu um barzinho novo e, como bom botequeiro, logo se animou a ir conferir. Naquela noite, um camarada bacana de repertório bacana ia fazer o som lá: falou com a patroa, combinou com uns amigos e lá foram.

Espaço razoável, mas meio *torto* -- nada que exigisse a consultoria de um(a) arquiteto(a), apenas um pouco de bom senso. A decoração, com quadros de Elvis, Marilyn e outros, destoa do nome, que remete à música brasileira (ok, o Pedrinho & cia são ecléticos). Mas o importante é a cerveja: gelada, e umas porçõezinhas honestas. Na somatória, nada comprometedor.

A proprietária, simpática, vem receber a trupe e dar as boas-vindas, sob os olhares curiosos de uma dúzia de clientes, já devidamente acomodados, com a pergunta na testa: *de onde veio esse pessoal?*. Sim, Pedrinho & cia destoavam do público-alvo da simpática dona...

O músico chega, cumprimenta efusivamente os *estranhos*, e a dona orienta que monte o equipamento num canto -- que ficaria invisível pra metade do bar (ó a *tortice* aí...). Por conta própria, e baseado na experiência, o músico sugere outro local -- arrastam-se cadeiras e mesas, coisa normal, ajeita-se aqui e ali, afinam-se instrumentos e microfones.

Na primeira música, o camarada músico dispara, encarando o Pedrinho com a cumplicidade de quem também não se encaixou tão bem no novo espaço:
*Foram me chamar
Eu estou aqui, o que é que há?
Foram me chamar
Eu estou aqui, o que é que há?
Ó *Pedrinho* não se zangue...*
Ficaram nem uma horinha no boteco e caíram fora.
Por Paulo Bicarato, às 13:35 de 09.02.2015 - Comentem!
Categoria: Etilíricas

08.01.2015

:: Se eu seria personagem ::

Conheço o cara já há umas boas décadas. Figura ímpar, o mineirim sempre se destacou pela inteligência e cultura. Pr'além do jornalismo, outra paixão sempre nos aproximou: literatura em geral, e especialíssimamente o Guimarães Rosa -- de quem ele bem poderia ser personagem.

No feicebúqui, o cabra não perdoa e dispara críticas ácidas pra todos os lados. Mas ele tem outra *vertente*, um pouco mais restrita a quem é mais próximo, que revela às vezes num simples e-mail e comete pérolas como essa:
*...quando moleque, na fazenda dos catonho, vi um aviso no muro de pedras que forma o curral mais lindo do mundo: "o curral tá barrido". e tava mesmo tão bem varrido que nada, ainda, conseguiu varrer o escrito da memória...*
Falo, claro, do meu caro cara Rai. Sempre o provoquei e cobrei pra que escrevesse mais, soltasse a pena, compartilhasse esse dom. Agora, de volta às origens e lá do refúgio dele na roça de Passos (MG), os papos se escassearam mas, sempre que vai à cidade, corre pra alguma lan-house e, devidamente conectado, manda notícias.

Ontem, tarde da noite, tava nós no proseio. Cobrei mais uma vez que escrevesse mais. Ele:
mas eu escrevo, uai. todo dia. é uma sarna. falar em sarna, peguei um berne no umbigo, o trem estufou, virou uma barriguinha, pontuda. parece gravidez. vai nascer um um troço da minha barriga.
...
hoje eu tentei abortar a larva de mosca varejeira que me fez mal, acho que matei a pobre da criatura lá dentro do casulo dela, agora vou ter que esperar a barriga fazer fagocitose e aproveitar as proteínas da bagaça.
...
eu tou matutando tudo, e fazendo uns vomitórios. vou te mandar uma histórias das galinha da angola que tou terminando.
...
eu tou demorando porque foi um caso acontecido na semana passada. tá recente ainda, tem que esperar o sol secar, como diz minha tia.
...
tou terminando a conversa com as angolas, e elas falam um idioma diferente das galinhas caipiras, inté.
...
vou te mandar o ovo que acabei de botar.
E aí, pouco antes da 1 da madruga, ele manda e-mail (com outra versão corrigida, enviada às 4:45 da matina). Leio, deliciado, e vou dormir com os sons do Rosa tilintando na cachola. Mas, chega! Vê se não é pra ficar ansioso e cobrar pra que o cara solte o verbo:
A galinha, e o ovo

Arrependimento não mata a gente. Mas em alguns casos devia, pelo menos, causar uma dor qualquer. Em qualquer canto do corpo. Arrependimento devia acontecer antes de ocorrer. Uma paralisia que impedisse senão os atos, os desatinos.

Dias aí para trás, entrei em casa alegre como um galo. Anunciando um grande achado, o ninho das galinhas da angola. Delas que vieram da África ocidental nas naus portuguesas no escuro dos tempos e que ainda agora não se deixam cegar por tão clara domesticação como fazem suas parentes caipiras, trazidas de outros continentes.

Em vez de ostentar valentia nos ringues e se desavergonhar nos terreiros por conta de reles sementes do milho que nem conheciam, as angolas não se amansam nunca de vez. Nunca que entregam seus ovos ao calor de ninhos alheios.

Como ouro, elas os botam amoitados no meio da terra, protegidos nos sujos dos matos, disfarçados, e, quando querem, os trazem já transformados, caminhando nos seus luzidios próprios pezinhos alaranjados, piando baixinho, em bando de ressabiadas angolinhas, todas mais ou menos iguaizinhas, com biquinhos de pardais, com costas listradas. E ariscas. Nunca se arriscam tanto feito qualquer afoito pintainho que vai parar em bocas de rapina.

E o ninho tava bem ali, na mais alta moita entre as sobradas no quintal depois da aração que entregou todo o terreno a plantas recém nascidas, e ao desabrigo.

Órfãs do mato havido em volta, se refugiaram em meio às infantes abobreiras, de rama rala. Cobertura pouca pra tanto instinto.
Descobertas em plena desova, um par de angolas soou o alarme num alvoroço desconhecido, tirado fundo de sua diversa língua. Forte feito um dueto, dolorido e desesperado. Coro diferente da fraqueza tão conhecida de seus pios que sempre parecem tão fracos, tão fracos, tão fracos.

E o ouro cega. E dúzia e meia dos ovos que lá se achavam logo se iam para a cozinha, junto dos outros, de outras galinhas.

Fosse só isso e o caso se acabava. Em omelete, massa de pão de queijo, bolo e óleo quente de frigideira. Mas no caminho do ninho à casa, uma angola, ao pé da porta, em pose ereta, levantada em um desajuste, me aguardava, valente como os ancestrais. E antes que eu entrasse, com sua prole mal terminada, entregou, a mim, à míngua, um ovo, como fosse por troca, dos outros.

Deixou no chão, de pressa, um ovo mole, sem casca, ainda por se fazer. Um ovo altivo, soberbo de tanta luta, de tanta dor. Duro como um desalmado. Ganhei os ovos. Peço um perdão.
Segundo clichê: trilha sonora :-)

Por Paulo Bicarato, às 11:22 de 08.01.2015 - 5 comentários
Categoria: Etilíricas

06.01.2015

:: Missão: Bicarato ::

Mistérios insondáveis nos rondam. Existem pra instigar a imaginação ou tripudiar da nossa pretensa sapiência ou perturbar nossos espíritos -- ou tudo ao mesmo tempo. Das fímbrias do tempo (essa abstração e aberração que nos fustiga), quando até mesmo o oráculo Gúgôl se mantém em silêncio e se recusa a vislumbrar qualquer pista, um mistério assola: quem, o quê é, de onde vem o intrigante nome *Bicarato*?

Início do século (do milênio!) passado, meu bisavô chegava ao Brasil, vindo da Itália. Sem lenço nem documento. Giovanni Bicarato (ou Bigarato) e Colomba Bicarato (idem) vieram com as filhas Francesca e Teresia (ou Teresa) e mais um ou dois filhos -- dados básicos cobrem-se de névoas, embaralhando ainda mais as parcas pistas que poderiam ser algum ponto de partida pra alguma investigação. A chegada? Entre 1901 e 1904. A região de origem? Também nebulosa: entre Padova e Veneza.

Tia Angelina, a filha mais nova do casal, já nonagenária, ainda sussurrava lmebranças esparsas. Dizia que sempre ouvia a nona, Colomba Muscini, dizer que era do *Estado Romano*, e ouvia também falar em Viterbo. A nona, aliás, já havia enviuvado quando se casou com o nono, Giovanni. De seu primeiro marido, nem sequer o nome se sabe. Os dois filhos do casal morreram na epidemia de gripe espanhola, ainda na Itália (segundo uma outra tia). Mas há controvérsias: provavelmente devem ter sido vítimas de qualquer outra epidemia, muito comum na Europa daqueles tempos, já que a gripe espanhola arrasou o Velho Continente nos idos de 1918 -- alguns anos depois, portanto, da vinda deles para o Brasil.

As poucas informações disponíveis trazem mais dúvidas e embaralham ainda mais o tabuleiro: na Certidão de Nascimento de meu vô, o nome da mãe dele não é Colomba Bicarato, e sim Colomba Muscini. Já a avó materna carrega outro nome, Cesarini.

Nessa busca insana, eis que em algum momento o oráculo Gúgôl vislumbrou algo: uma única referência, datada de... 1277! Como uma pérola valiosa, tratei de ao menos fotografá-la:
Anno 1277 - 20 marzo
Bigarato da Portovenere e Bennato Moscone da Vernazza, volendo porre un termine alle liti, che hanno per causa d'una rissa, successa alla spiaggia di Vernazza, dinanzi a Giacomo de Ricardo da Portovenere e ad Armanno de Vegio da Vernazza eleggono arbitro Rollandino Bigarato, fratello di detto Galvano, le due parti si condonano le reciproche offese e si dannoi il bacio della pace. Not. Guglielmo de S. Georgio Reg. V pp 16 17v.
[Na tradução do seu Toninho, meu pai]:
Ano 1277 - Em 20 de março
Bigarato, de Portovenere, e Bennato Moscone, de Vernazza, desejando pôr fim às demandas que tinham por causa de uma rixa, acontecida na praia de Vernazza, diante de Giacomo de Ricardo, de Portovenere, e de Armanno de Vegio, de Vernazza, [Bigarato e Bennato] elegem como árbitro Rollandino Bigarato, irmão do dito Galvano (Penso, pelo contexto, que Galvano seja o primeiro nome de Bigarato). As duas partes se perdoam as recíprocas ofensas e dão-se o beijo da paz.
Ou: há um *buraco* de sete séculos sem nenhuma referência à minha família. Nas buscas, apelei pro improvável: além da grafia atual, *Bicarato*, arrisquei *Bicaratto* e *Bigarato*, entre outras. Nadica de nada.

Já abatido pelo desânimo, resolvi apelar pra uma ajuda profissional. Chegam-me notícias alvissareiras de que, na Itália, um detetive de renome -- mas ao mesmo tempo, e por isso mesmo, recluso em seu rincão, já aposentado, desvendera em priscas eras segredos ainda mais obscuros. Após tentativas infrutíferas, e já exauridas minhas forças, consigo um contato do misterioso detetive. Arrisco, mesmo sem ter qualquer noção de como eu poderia arcar com os altos custos de tão ousada empreitada. Estranhamente, a resposta vem ágil e rápida, o que me intrigou ainda mais, até pelo tom jocoso, fazendo troça das minhas angústias e já trazendo ainda mais perguntas do que pistas ou respostas:
Pensei que fosse algum trabalho, estava já preocupado.
De alguma forma você bateu em porta certa. Não porque tenha já algo pra te oferecer, mas que ao menos se abre a isso. Na verdade o teu pedido é mais um entre inúmeros e eu me divirto mesmo em fazer o detetive. Consegui descobrir coisas que nem eu mesmo acreditava.
Bem, eu começo a fazer uma busca na lista telefônica e me diz que na Itália nao existem Bicarato. Tento Bicaratto, e a resposta é a mesma. Igual para Biccarato ou Bigarato e Bica Ratto. Nesse caso é muito provável que tenha havido uma modificação do nome original, algo comum nos portos de antanho.
Se você tem alguma idéia de onde tenha nascido este teu bisavô, é já muito útil. Se sabe em que ano, com uma aproxiamação de cinco pra mais ou menos, muito melhor ainda. Porque posso fazer um pedido nos registros de batismo da região em questão.
Sem isso, vou dormir sobre o assunto e amanhã tento imaginar qual nome possa ser o original.
Passam-se os dias, e o Detetive volta ao silêncio. Já me resignando e dando por vencido, esforço-me pra esquecer o caso. Mas eis que chega, inadvertidamente, um breve relato:
A tarde estava fria, as poucas almas que se aventuravam pelas poeirentas vielas corriam apressadas sem nem mesmo desconfiar de meu mais novo e angustiante quebra-cabeças. Acendi um cigarro e me encaminhei ao bar. Alonguei uma nota de dez ao barman e fiz algumas perguntas banais. De repente, sem que ele esperasse por isso, lancei a palavra-chave: Bicarato! Este nome diz algo a você? Ele não teve nem tempo de fechar a torneira da pia e correu desesperado em direção aos fundos do bar. Voltou dois segundos depois com uma enorme carabina nas mãos. Não me restou alternativa senão a de transformá-lo em um escorredor de macarrão.

Na verdade, em algumas buscas que consegui fazer o resultado foi sempre o mesmo: não existe Bicarato na Itália. Não sei e ninguém soube me dizer o significado do nome. Em geral os nomes querem dizer algo, aqui é muito comum isso. Mas ninguém soube me dizer.
O que encontrei foi um texto muito interessante. Uma tese de mestrado da Universidade de Bologna, Facoltà di Lettere e Filosofia, Corso di Laurea in Discipline delle Arti, della Musica e dello Spettacolo. O trabalho se chama IL SENSAZIONALE E IL PRODIGIOSO NELLA LETTERATURA DI CONSUMO. SECOLI XVII E XVIII. Pois bem, não li tudo ainda, mas fala das tradições e do desenvolvimento da imprensa a partir do que se poderia comparar com a literatura de cordel, claro que com os elementos do universo da Itália dos séculos citados. Entre alguns "causos" relatados e que se tranformaram em livretos, tem a história de Angelo Secchiarolo, detto Bigaratta, il "tristo Bigarato".
Era um assassino que foi condenado a morrer na forca e no dia de sua execução, 11 de junho de 1729, se recusou a beijar a cruz, fato que o tornou fonte de inspiração desse conto que fala da alma que vai para o inferno etc. etc.

As únicas referências encontradas com o nome falam de apelidos. Uma possibilidade, além do erro de registro, é que teu bisavô usasse o Bigarato também como apelido e que depois virou sobrenome. Pode ser que ele seja o primeiro da lista, não seria um fato inédito.
Por hora é só. E a busca continua.

Ouço uma coruja que canta ao longe. A lua vai alta pelo céu, conferindo uma luminosidade triste à cidade adormecida. Saio pelas ruas, na cabeça uma só intenção. Maldita hora que aceitei este trabalho. Mas o que mais posso fazer? Esta é minha vida. Meu destino é mais forte que minha vontade. Sigo.
Um assassino herege! Depois dos briguentos do século XIII, que desapareceram até mesmo dos olhos do oráculo, eis que surge um assassino herege no século XVIII. O hiato entre os séculos sugere que há ainda muitas insuspeitas e inimagináveis ocorrências sob o nome, mas a curiosidade vence a prudência, que clama pra que se deixe incólume o mistério. A tentação de fustigar o vespeiro, mesmo diante dos sinais agourentos, mescla-se à angústia pela espera por novos relatos do Detetive, que mais uma vez se abstém, por incontáveis e interminaveis dias, de se manifestar. A ansiedade me toma: confiro várias vezes ao dia a caixa de correios, sem sucesso. Até que...
Relatório nº 2
Riva del Garda, 28 de março de XXX.

Choveu por todo o dia e a névoa cobria com seu manto úmido as tristes cores do fim de inverno. Já faz dois dias que não durmo e não me alimento. Todos os casos que aceitei me deixaram destruído fisicamente, e este não poderia ser diferente. Resolvi cobrar uma antiga divida moral que tinha com o chefe da polícia local, fruto de um caso com rapazes e garotas que não vem ao caso relatar. Depois de refrescar a memória do policial, lhe pedi com a voz baixa que me caracteriza se porventura sabia algo a respeito de Bicarato. O sorriso do bigodudo homem da lei se apagou e com uma expressão soturna me sussurrou: Você também está a serviço do Boss? Comecei a entender o porquê dessa família ser assim tão misteriosa.

Tive um insight hoje: fiz uma pesquisa que revela que existem 13 famílias Carato na Itália e 48 Caratto, com concentração no Piemonte. Bem, se o bisavô tivesse um segundo nome, por exemplo, que começasse com "B", ele poderia ter dito à voz para algum tabelião brasileiro que se chamava "Nome B. Carato" e isso soa "Nome Bi Carato". Conjecturas!
Ao menos o nome Carato existe! Um momento! Garatto também existe e são 13 familias concentradas em Venezia. Garato também tem e são 20, quase todas em Venezia.
Pode não dar em nada esse caminho, mas é interessante.

Os raios e trovões conferiram às palavras do chefe de polícia uma dramaticidade a mais. Prontamente eu disse que sim, estava a serviço do Boss. Imediatamente ele se ajoelhou a meus pés e chorando me pediu para que interceda em seu favor. Me encontro em uma enrascada das brutas. Agora vou ter que achar esse Bicarato, custe o que custar!
Mais uma vez, frustrante! Mais interrogações e conjecturas, mas nada palpável. Pra aumentar a agonia, temo que não conseguirei arcar com os custos altíssimos de tal pesquisa detetivesca -- um *detalhe*, aliás, que nem chegou a ser negociado. Tardiamente, mando uma correspondência indagando sobre os honorários do Detetive. A resposta vem seca, quase como uma ameaça, seguida de mais um capítulo amargurante:
Quanto aos custos, não se preocupe. Voce tem casa em seu nome?

Hoje tive um dia duro. Trabalho com as garotas que estão sob minha proteção. Elas aparentemente gostam quando eu tenho um dia duro. Por isso tive pouco tempo para a minha pesquisa. Quase conseguia tirar este verdadeiro cupim que me rói os pensamentos. Não deixei de ir ao funeral do barman. Encontrei lá o chefe de polícia, que me fazia sinais com os olhos. Maldição, se não encontrar logo esse Bicarato, vou estar mesmo em uma enrascada. Pior do que daquela vez que saí com a mulher do prefeito. Bem, mas essa é uma outra história.

Padova e Venezia estão no Vêneto, a mais ou menos 50 Km uma da outra e sim, é uma região nebulosa e com frequentes problemas com a neblina. Eu me concentro na pista Vêneta.
Algumas prefeituras de cidades maiores dispõem de um arquivo público onde se podem consultar estes documentos. Tendo como boa a informação da vinda deles no início do século e com dois ou quatro filhos, isso situa o nascimento dele entre 1870 e 1880. Infelizmente o dado sobre a vovó não serve pra nada. Apenas como curiosidade: as mulheres até mais ou menos a 1ª guerra não eram nem registradas. Os poucos documentos que se encontram em geral vêm das paróquias, que funcionavam como verdadeiros centros de documentação. Mas mesmo nas paróquias a enorme maioria dos documentos é de homens. Bem, voltando, um passeio em Venezia não seria má idéia. Agora na primavera é uma boa época para ir a Venezia fazer... pesquisa de arquivos. Bem, quer dizer, entre um champanhe e outro sempre tem espaço para um empoeirado monte de papéis velhos.
Se se soubesse o nome da cidade de origem, seria um tiro quase certeiro, mas me parece que não é o caso.

Sempre que uso minha pistola tenho que fazer uma limpeza completa.
Ela está velha e usada, mas ainda me garante resultados, e isso é o que interessa. Nunca se sabe quando vou usá-la de novo, mas pelo jeito, este caso vai ser o mais endemoniado de todos o que enfrentei. Eu vou adorar.
Nada! Nenhum ponto de partida; a missão parece impossível, até mesmo pra um experiente Detetive. Seja pela decepção de não fazer jus à sua fama, seja pela inglória caçada, ela desaparece de vez. Depois disso, silêncio absoluto. Foi a última correspondência que recebi do Detetive. Temo que o Detetive tenha avançado algo, mas chegando a algum ponto mais do que arriscado e, confirmando todas as suspeitas e riscos de uma investigação tão inconsequente, tenha feito o Boss entrar em ação.

Famiglia_Bicarato
Famiglia Bicarato, recém-chegada da Itália:
da esq. p/ direita, em pé, atrás: Francesca (Queca), italiana; Teresa, italiana; Maria; Domingos.
Ainda em pé, um pouco à frente: Antonia e Cristina.
Sentados: Colomba Muscini, Giovanni Bicarato e Rosa (Rosina).
No colo: José. Sentado, centro: Bento (meu avô).
Provavelmente no ventre da Colomba: Angelina
Por Paulo Bicarato, às 16:54 de 06.01.2015 - 1 já comentou aqui
Categoria: Almanaque

29.12.2014

:: Acasos (?) ::

Contei e recontei esse causo dezenas de vezes nos últimos dias. Mas não tive a sensibilidade que a Chris Ramsthaler exprimiu, e na verdade (apesar da surpresa do encontro e da receptividade) reforçam mais ainda a dimensão do carinho e da presença marcantes do seu Toninho -- é, meu pai --, tão significativos e vivos que perduram por décadas e mais décadas.

E fico cá matutando sobre como e porque *acasos*. Como disse Guimarães Rosa, *quando nada acontece há um grande milagre acontecendo que não estamos vendo*. E pessoas são elos e instrumentos pra que esses milagres aconteçam. Apesar das minhas trapalhadas, a querídola Rose ficou firme e fomos conferir o show do Paulinho Pedra Azul, a convite e com a participação do camarada Tuia. Além do nosso menestrel Déo, ainda tivemos o prazer de conhecer outra *lenda*, o Tavito.

Mas, além do show, valeu muito também por ter conhecido a Chris -- segue o relato dela:
Acaso?

Não posso acreditar em acaso quando falamos de encontros inesperados.

Sim, tive uma surpresa muito grande há uns dias. Show de Paulinho Pedra Azul, em S. Paulo, Bar Ao Vivo. Um bar em S. Paulo... quantos bares, quantos shows, em S. Paulo!

Quantas vezes queremos ver vários e nem conseguimos porque os espetáculos coincidem em dia e hora.
Pois bem! Escolhemos assistir a esta raridade, Paulinho Pedra Azul em Sampa!

Casualmente encontramos Deo Lopes (que não víamos já há alguns anos) poeta-cantor. Sentou-se conosco.
Aí, a surpresa maior nos aguardava, sem que a pudéssemos pressentir.

Tive um amigo, muito amigo, no segundo emprego da minha vida, lá se vão décadas! Saí da empresa, tive outras atividades, o tempo passou... Um dia resolvi procurar esse amigo aqui no facebook. Acabei por encontrar um filho dele, que me passou o e-mail do pai. Começamos uma correspondência por e-mail, porque ele não tinha perfil no face. Conversamos muito. Trocamos notícias, alegrias e tristezas, o que é normal na vida de todos nós. Ele, então, estava trabalhando em Brasília.

Com o decorrer do tempo e de tantas outras coisas que me exigiram dedicação total, parei de escrever para ele. Deixei 'de lado' vários amigos, vários encontros programados, por quase 2 anos. Simplesmente não consegui dar conta de tudo, embora grandes amizades, sem dúvida, mereçam nossa total dedicação.
Alguns dias antes do tal show, comecei a pensar muito naquele meu amigo e dizia para minha filha: preciso escrever para o Antonio. Repeti isto várias vezes! Mas não escrevi.

Voltando ao show, o Deo Lopes viu um amigo dele chegando e tratou de conseguir que ele se acomodasse na mesa ao nosso lado. Feitas as apresentações, a surpresa: Paulo Bicarato. Feliz com a coincidência do sobrenome, perguntei se conhecia o meu amigo Antonio. Prontamente disse: meu pai. Só que ele se foi, há 2 meses!

O ambiente, logicamente, não era propício para grandes manifestações de pesar. Só consegui dizer: É...? Que pena!... A tristeza, guardei dentro de mim.

Assim, mais uma vez, não posso acreditar no acaso. Aquele amigo que se fazia presente em meus pensamentos naqueles dias, me mandou alguém muito próximo para me dar a notícia de sua partida. Apesar de tudo, num momento de alegria. Paradoxos da vida!

Só sei dizer que quero muito encontrar novamente vocês, Paulo Bicarato e família.

Paulinho, Rose & Déo
Paulinho Pedra Azul, Rose & Déo Lopes
Por Paulo Bicarato, às 13:53 de 29.12.2014 - Comentem!
Categoria: Etilíricas

19.12.2014

:: Espirógrafo ::

Quem num si alembra dessas pecinhas? Era coisa de se perder tempo e papel e tinta de caneta:

Espiro


Pois então, seus tempos de criança voltaram -- o culpado por te fazer perder um bom tempo agora é o Nathan Friend, que criou o espirógrafo, agora muito bem rebatizado de *inspirógrafo*: vai lá, nem precisa baixar nada, é direto no browser:

>> http://nathanfriend.io/inspirograph/

E eis minha primeira brincadeirinha-teste:

inspirograph_bica


Dica valiosa do Gizmodo.
Por Paulo Bicarato, às 13:02 de 19.12.2014 - Comentem!
Categoria: Linux Vida Open Source

31.10.2014

:: Journey to Mars ::

Já garanti minha passagem :-)

Clique aqui e garanta a sua!

Por Paulo Bicarato, às 13:09 de 31.10.2014 - Comentem!
Categoria: On the Road

28.10.2014

:: Ex-Pobre ::

[sobre o contexto, digo mais lá no final]
Então: ah, eu tinha que me virar, né? Diarista aqui, outro bico ali, era sempre aquele perrengue. E nem sempre dava pra garantir nem o ranguinho básico. Assim, dureza mesmo... Mas, peraí, já tá gravando? Para, para, vamos começar de novo!

...
Ai, que bom receber vocês aqui em casa. Então: me desculpem, a faxineira é que atrasou um pouco, vocês sabem como é essa gente: acham que nós temos todo o tempo do mundo. E eu mal consegui falar com a gerente da minha lanchonete. Sabe, hoje eu estou fornecendo em média umas 200 quentinhas por dia (é *quentinha gourmet*; gostei da dica do meu sobrinho que estuda publicidade), é difícil administrar isso. Funcionário, então, é um horror! Ai! Assim, dos três que eu tenho, toda semana tem um com atestado médico, ou o filho doente, ou uma tia que morreu... Tem que ser dura -- eu não gosto, mas esse pessoal tá muito mal acostumado, só quer saber de direitos. E, olhe, tenho que estar gastando hor-ro-res cada vez que um funcionário meu sai pra algum outro empreguinho melhor ou pra estudar. Você acredita que agora até Fundo de Garantia eu tenho que estar recolhendo pra empregada lá de casa? Já não bastava o INSS?

Ai, mas não é disso que vocês vieram falar, né? Então, hoje sou uma microempresária, eu que-me-fiz, batalhei muito pra chegar aqui. Como? Ah, sim, eu fui atrás e consegui um microempréstimo pra começar minha lanchonete, mas, então, nem gosto de estar lembrando: era um balcão lá no bairro, tinha que atender uns nóia de madrugada, vender fiado... Mas, deixe isso pra lá – ai!, se puder apagar essa parte, fica melhor, né?

Tem uma coisa: eu sempre estudei, e nunca faltava na escola. Por isso, minha mãe sempre recebeu o Bolsa-Família, até que eu consegui montar meu negócio e a gente não precisar mais “daquilo”. Então: tenho orgulho de dizer, foi por mérito meu que consegui uma bolsa no ProUni e tô terminando o curso de administração de empresas. Tem colega que até olha torto, mas eu sou uma microempresária, e de sucesso! Sei administrar direitinho as contas da lanchonete, e tenho até uma gerente registrada -- os outros dois são freelancers, que é uma forma de eu estar incentivando a iniciativa própria, né? Simples assim! (Gosto de falar *simples assim!* – me sinto como se desse um xeque-mate, acaba a conversa na hora.)

Ah, o começo? Então: é, foi depois que a gente se mudou aqui pro condomínio, porque minha mãe insistiu pra gente entrar no Minha Casa Minha Vida. Assim: lá, antes, onde a gente morava, nem dava pra estar pensando em negócio nenhum... Mas isso é detalhe: minha mãe e eu conquistamos, por direito, a Nossa Casa Nossa Vida. É, ela tem a dela e eu, a minha.

Mas, então: eu me fiz! Consegui mais três microempréstimos, porque sempre paguei em dia. Mas tem mais: olhe só a minha casa, toda mobiliada (a TV de 42 polegadas e vários móveis eu sei administrar os carnês, mas tem até aquela banqueta que comprei na Tok&Stok – ai, lá tem umas coisas tão assim, né?, que até uns anos atrás eu nem pensava em entrar naquela loja). Meu carro? Então: dois anos atrás eu comprei o primeiro, um “Mil”, mas agora tô com um zero quilômetro, com ar condicionado e vidro elétrico, peguei na concessionária na semana passada – financiei em cinco anos, mas ano que vem quero estar trocando de novo por outro zero. Sabe como é, né? A gente tem que manter o patrimônio que conquistou (essa foi uma das principais lições que aprendi na faculdade de administração – ai, peraí, meu iPhone tá tocando. É a chata da Lurdinha, depois ligo pra ela...) Ai, querida, aceita mais um cafezinho? Essa cafeteira é tudo de bom, você escolhe o tipo de café, mais forte ou mais fraco (esse sachezinho marrom é o meu preferido) – fique à vontade, viu?

Mas, então: no final do ano passado eu consegui estar realizando outro sonho, e fui conhecer Buenos Aires. De avião, claro! Assim: eu até que me enrolei um pouco com a língua deles – castelhano, né? –, mas foi engraçado. Eu só troquei uma parte do dinheiro que levei, até porque os argentinos gostam mesmo é de reais – dava gosto ver os olhinhos deles brilhando quando eu pagava o café da tarde com nota de R$ 50. Esse ano? Então: agora que eu já viajei "pra fora", posso estar me dando o luxo de conhecer o Brasil. E tudo de avião, né? Imagine se, como minhas tias antigamente eu fosse de ônibus lá pra terrinha, com farofa na lata de leite ninho... Então, já pesquisei na internet e tô fechando um pacote pro Nordeste – dizem que é tudo de bom lá, né? Até o povo, apesar de tudo, dizem que é simpático. Mas carne de bode, buchada de bode, isso eu não vou experimentar não, apesar de o meu avô, que veio de lá, sempre dizer que tinha saudade dessas coisas...

Ai, olha o iPhone tocando de novo, só um minutinho. (Lurdinha, eu tô dando uma entrevista, te encontro no salão da Martinha às 5 da tarde, tá bom? Tchau, querida!) Assim, né? A Lurdinha ainda não tá acostumada com o salão que a Martinha montou, antes a gente fazia as unhas todas juntas, aqui na garagem de casa mesmo (quando nem tinha piso e nem cobertura). Era assim, mais divertido, mas agora a gente aprendeu a ter mais classe, né? Mas, olha, é difícil pra Martinha, viu? Ela já contratou umas três ou quatro meninas que não param no salão – cada hora é uma que consegue um emprego melhorzinho ou então prefere estar investindo nos estudos. Tem uma, até, que foi pra São Paulo estudar na USP – geografia, vê se pode? Pra que que ela quer estar estudando isso? E, assim, essa aí já falou até que pensa em estudar no exterior – como é o nome mesmo? Ciência sem Fronteiras, né?

Então, ó, eu fico pensando: onde é que a gente vai parar? Mas, ãh? Em quem vou votar? Então, ainda não sei, sabe? Até porque político é tudo igual -- cê viu a *Veja* dessa semana? É, eu sou assinante da Veja, leio tudinho. Mas, então: ninguém nunca faz nada pela gente mesmo. A gente, que é “mêide-bái-a-gente-mesmo”, fica nessa encruzilhada...
Obs.: rascunhei isso ainda antes do primeiro turno. Relutei em publicar: ainda que não mude um vírgula, achei que ficou com um gosto um pouco ácido e, mesmo com a ironia evidente, talvez pudesse ser mal-interpretado. E, obviamente, porque se trata de uma crítica a uma pequena parcela da população – poderia seguir o mesmíssimo roteirinho e retratar não um *ex-pobre*, mas um legítimo representante da *nova classe média*, reconhecedor das políticas públicas adotadas nos últimos anos.

Mas o tom amargo se deveu por eu ter presenciado dois ou três relatos de, sim, *ex-pobres*, aqueles que nunca deixarão de sê-lo pela ingratidão de não verem o que foi proporcionado pra que deixassem uma condição de penúria. Eles negam o próprio protagonismo (isso é papo de petista), e eufemisticamente (ou melhor, ilusoriamente) adotam o discurso reaça-neoliberal de autossuficiência, da meritocracia, do *self-made-man*.

Ah, sim! Tem uns pitacos valiosos do copoanheiro Adauto aí -- a culpa não é só minha, não.
Por Paulo Bicarato, às 15:14 de 28.10.2014 - 1 já comentou aqui
Categoria: PretoNoBranco

23.10.2014

:: Miguilim ::

Nesse turbilhão de informações, vira-e-mexe me surpreendo com um jornal da semana passada ou retrasada (algum suplemento cultural que guardei pra ler com calma), ou ainda com algum link aberto numa das dezenas de abas aqui do Firefox (que, da mesma maneira, abri em algum momento e deixei pra ler depois). Aí é que vou tentar me lembrar de onde surgiu aquele link: alguém me enviou? será de algum post do feicebúqui ou tuíter? foi um link-do-link-do-link... de onde? Na maioria das vezes, desisto de tentar rastrear esses passos -- fica o gostinho de *mistério*, se contrapondo à instantaneidade de uma googlada pra se checar uma informação simples.

Esse intróito vem pra justificar essa grata surpresa: uma moça italiana comentando nada menos que o *Miguilim*, do Guimarães Rosa. Assisti umas três vezes, tentando captar o que ela diz -- é, ainda que descendente de italianos, não *parlo niente, cáspita!*. Me contentei em me deliciar mais com a emoção da moça, que compartilho aqui (depois, descobri o blog dela e a fonte do vídeo):


Ao mesmo tempo, mandei o link pra quem de direito: seu Toninho (sim, meu pai). A resposta veio rápida -- curta, mas que ainda vai render outros papos:
Oi, Pô.
Uma análise muito interessante. Destrincha o livro todo.
Pena que não consegui guardar tudo. Em essência, ela diz que se trata de cenas simples, ou aparentemente simples, da vida, de uma vida localizada, mas que se aplica à vida universal. Diz que Rosa não narra uma história, mas a história. É uma história nostálgica, mas não de uma nostalgia puramente lembrança morta do passado, mas uma nostalgia que envolve todo o espaço. Conta, por exemplo, que Miguilim (Migulim, para ela) pergunta à mãe o que é o mar. Diante da resposta da mãe de que o mar é uma coisa muito grande, Miguilim compara a nostalgia ao mar...

Pai.
(Em tempo: *Pô* é meu apelido de infância, é como sou chamado até hoje na *famiglia*.) Do alto da sua vasta (vastíssima!) erudição, meu pai já me confessou que lamenta pouco ter lido o Rosa (comento mais a seguir) e, além das minhas impertinentes referências, é interessante como ele interpreta a interpretação-leitura de uma italiana. Mas, claro, uma coisa puxa outra, e vou eu fuçar aqui no meu baú virtual e reencontro uma mensagem de 2005, do copoanheiro Rai, este sim um legítimo roseano -- como se pode comprovar:
Cê não vai acreditar o que sucedeu comigo noite passada. Sonhei que estava na roça do Miguilim, o Mutum. Foi muito legal, acordei emocionado.

No sonho, eu estava vendo ele e a preta véia que é chegada na cachaça e mora num cafofo no fundo da roça, que agora não me recordo do nome e nem consigo encontrar meu exemplar de "Manuelzão e Miguilim", naquela passagem que eles estão fazendo um túmulo para enterrar as coisas do Ditinho. O mais emocionante é que os dois estavam conversando e só repetiam a frase da mãe enquanto ela lavava o pé do muleque morto e ficava repetindo "como era bonito o meu filhinho, como era bonito o cabelinho dele", e eles ficavam botando pedrinhas no túmulo e depois começaram a chorar. Foi um sonho, realmente.

O pior é que já procurei o livro para dar uma relida nesta parte, mas acho que minha irmã carregou o dito cujo na última vez que ela esteve aqui em casa. O pior, ou melhor, é que este sonho, como todo sonho, acho, tem toda aquela atmosfera onírica que fica com uma imagem embaçada e não dava para ver direito a cara do miguilim e da preta véia. Eu só recordo que os dois estavam de roupa branca e agachados num lugar que parecia o quintal da roça da minha mãe e que eu estava vendo eles de um lugar meio afastado, que dava para ver as duas siluetas de lado.

Nunca tinha sonhado com nada do Rosa, nem de outros escritores que costumo reler com frequência e paixão, antes e, sinceramente, acho que este foi uma dádiva. Foi uma puta experiência. Pena que durou pouco, pelo menos é o que me parece. Mas é isto, Bicarato, acho que cê vai gostar de saber sobre este sucedido. Agora vou ter que correr que a Dona Maria vai passar aqui para a gente ir ao cinema. Depois a gente proseia mais. Amplexos (como cê mêsss diz) e ósculos.

Rai.
Que o Miguilim é um dos alter-egos do Rosa, todos sabemos. A mítica imagem do médico emprestando os óculos pro Miguilim, que magicamente passa a enxergar o mundo, é antológica. Não à toa, a dona Calina, prima do Rosa, fundou o grupo Miguilim (mais aqui): sou testemunha de como, literalmente, o Rosa abriu horizontes pra muitos garotos e garotas de Cordisburgo, que passaram a enxergar muito além do Mutum. Que o diga a querida Magna, a Menina da Terceira Margem do Rio -- reproduzo o causo aqui:
Esse sertão do tamanho do mundo tem veredas que se cruzam e a gente fica sem entender como e por quê. Ou: as veredas existem só pra se cruzarem, mesmo...

Lá pelos idos de 1999, escapei uns dias e fui conhecer Cordisburgo, um *quase-lugar* que foi o berço do Guimarães Rosa. Vai que, tomando uma cerveja num boteco lá, fiquei sabendo dos *Miguilins* --crianças da cidade que eram incentivadas a lerem Rosa para depois apresentarem, narrando/interpretando/re-vivendo cada conto. Mais um pouco de conversa, e consegui agendar uma apresentação exclusiva de alguns Miguilins. Levado à casa de um deles, no quintal, meia dúzia de adolescentes me cercaram e começaram a declamar Burrinho Pedrês, Matraga e muito mais.

Não dá pra descrever a emoção. Mas uma das meninas conseguiu tirar de mim todas as lágrimas que nunca tive, recriando ali, ao vivo e em cores, letra por letra, toda a *Terceira Margem do Rio*. Saí dali mais vivo, mais leve, mais apaixonado pelo Rosa e por todos os Miguilins desse sertão sem fim.

Passam-se mais uns anos e, em 2001, um evento de/sobre o Rosa toma conta da *Casa das Rosas*, em plena Avenida Paulista. Lá, entre filmes, fotos, escritos, trouxeram também alguns Miguilins. Entre eles, revejo a Menina da Terceira Margem, aquela mesma que me fez chorar em Cordisburgo. Revivi e renasci mais uma vez.

Já contei essa historinha aqui mesmo no Alfarrábio, e a novidade vem agora: eis que, de repente, recebo uma mensagem de quem? Ela mesma, a Menina da Terceira Margem, a Magna --sim, pra completar, ela tem um nome mais do que apropriado...
Oi! Sou a Magna do Grupo Miguilim, de Cordisburgo. Vi seu comentário e não pude deixar de me emocionar. Moro em BH e faço Letras na UFMG. Gostaria de trocar idéias.
Li, reli, trili a mensagem, tentando acreditar que era verdade. E é!

Naquele dia, em Cordisburgo, fiz questão de pegar *autógrafos* de todos os Miguilins. Cada um, com letrinhas caprichadas, deixou uma citação do Rosa cercada de desenhinhos. Claro, tenho essa cadernetinha guardada até hoje --o *autógrafo* dessa moça-miguilim, ah! não vendo por nada desse mundo.
Ah, duvidam, é? Taí a prova:
Magna

Mas, das histórias e causos do Miguilim, lembro vagamente que, há tempos, li um relato de alguém que teve um parente que provavelmente teria servido de inspiração pra uns dos personagens do conto... (sim, lembrança vaga mesmo). Então, lá vamos nós garimpar essas internets -- nas penumbras da memória, sabia que o texto foi publicado num suplemento literário de algum jornalão, mas qual? Fuça daqui, fuça dali (não me perguntem o passo-a-passo), eureka! O texto é do sociólogo Sérgio Abranches, e saiu na Ilustríssima, em 17 de junho de 2012. Se alguém tem dúvidas sobre Miguilim ser um dos alter-egos do Rosa, segue:
Arquivo Aberto - Memórias que viram histórias
Vovô Juca e Miguilim

Curvelo, anos 1950
Sérgio Abranches

Guimarães Rosa é uma influência quase atávica, meio mágica. Nós somos do mesmo pedaço do sertão cerrado mineiro. Nossas biografias têm uma conexão de profunda significação para mim e consequências importantes para Guimarães.

Meu bisavô, avô de minha mãe, era um excepcional médico, em Curvelo, cidade vizinha à Cordisburgo de Guimarães. Era "o médico do Curvelo", desses que o interior raramente tem, respeitado pela comunidade médica mineira como "par inter pares". De formação germânica, era austero e distante. Mas sabia deixar claras suas preferências e seu afeto.

Um dos gestos dele que mais me encantavam era o de me entregar um novo estilingue -falávamos bodoque em Curvelo-, na minha infância, sempre que eu chegava para passar as férias.

Ele escolhia a melhor forquilha, o melhor pedaço de couro, a mais elástica câmera de pneu, tudo cortado meticulosamente com seu canivete afiado. Minha mãe, sempre cheia de cuidados, proibia tudo o que lhe parecia perigoso. Bodoque, então, nem pensar.

Chegávamos à casa de "vovô Juca", ele nos beijava e me dava o novo bodoque, de alta precisão para estilingues artesanais, que eu ostentaria pendurado no pescoço como um colar de galardão.

Sua autoridade de patriarca anulava e calava toda contra-ordem. Se dizia podia, então podia. Se dizia não, era não, universalmente, obediência geral. Logo bodoque podia e pronto.

"Não pode matar passarinho, é só para colher frutas", dizia.

A precisão era necessária, pois, para colher frutas sem estragá-las, era preciso atingir o ponto mínimo que unia o talo à fruta. Assim colhia mangas, laranjas e mexericas.

Ele nunca me contou de sua vida. O que sei e sabia me foi contado por minha avó e por minha mãe.

Por isso, foi com espanto e maravilhamento que o encontrei, inesperado e desconhecido, ao final da história de "Manuelzão e Miguilim": o doutor que descobre que Miguilim é curto da vista, lhe empresta os óculos redondos e elimina momentaneamente sua miopia. José Lourenço Vianna, o médico do Curvelo, meu bisavô, entrava a cavalo na história de Miguilim!

"Era o doutor José Lourenço, do Curvelo. Tudo podia."

Essa descoberta foi, infelizmente tardia. Aconteceu seis meses depois de ele ter morrido, quando eu tinha 16 anos. Acompanhei seus últimos momentos e nunca me esqueci do olhar de amor, orgulho e gratidão, em seus olhinhos muito azuis. O orgulho vinha das conversas longas que tínhamos, eu falando da mais variadas coisas e ele ouvindo, com a vida por um fio, sem forças para falar muito, poupando fôlego. Disse à minha mãe que eu havia me tornando um jovem muito culto.

Queria tê-lo interrogado, aflito de curiosidade, maravilhado e orgulhoso, sobre como chegou ao Mutum para descobrir a miopia de Miguilim.

Descobri depois que sua jornada até o Mutum era, na verdade, a transposição literária da gratidão de Guimarães Rosa ao médico, meu bisavô, que, em sua casa de Cordisburgo, em visita ao seu Rosa, o pai, descobriu que aquele menino predestinado a ser o maior entre os maiores da literatura brasileira era míope.

E lhe emprestou seus óculos redondinhos e ele viu que o seu mundo de Cordisburgo, o qual conhecia por partes, micropedaços que enxergava ajoelhado nas folhagens e nas pedras, sempre muito de perto, sem nunca perceber o conjunto com precisão, era bonito. "O Mutum era bonito! Agora ele sabia". Miguilim, reproduz aquela descoberta infantil crucial de Guimarães Rosa.

Na minha adolescência, mergulhava nos livros de Guimarães sempre com a sensação de encontrar ecos na minha alma. Ele via com muito mais poesia, profundidade e exatidão aquelas coisas do sertão que me impregnaram de sensações indeléveis e se inscreveram em minha memória inapagáveis.

Sérgio Abranches, PhD, sociólogo, cientista político, analista político e escritor. Autor de Copenhague: Antes e Depois, Civilização Brasileira, 2010, sobre a política global do clima; e de O Pelo Negro do Medo, romance, Record, 2012. Prêmio Jornalistas&Cia HSBC de Imprensa e Sustentabilidade: Personalidade do Ano em Sustentabilidade 2011. Prêmio Chico Mendes de Jornalismo Socioambiental 2013 (rádio).
Mas voltemos ao seu Toninho, comentando outro vídeo que mandei há algum tempo:
Pô, querido filho!

Terminados serviços "urgentes" que preencheram toda a semana, estou me dando uma folga para ver os e-mails, mais devido ao cansaço do que por não ter o que fazer. Foi então que abri o "Trecho do Guimarães Rosa". Se eu, que nada entendo do Rosa, me maravilhei, imagino você...

O Grande Sertão é, como a Bíblia, inesgotável em seu conteúdo. Quanto mais se volta à sua leitura, mais dele se tiram saberes.

Guimarães é mesmo alguém que, por mais lido e estudado que seja, sempre terá "boa-nova" para comunicar.

Pra completar, o Lima Duarte ainda recita um verso do Catulo da Paixão Cearense, pra mim um dos maiores intérpretes da alma do sertanejo.

Benditos esses homens que sabem captar nuanças do linguajar e idiossincrasias do nosso povo, que são imperceptíveis aos olhos do comum dos mortais. Perpetuam no história o "jeito brasileiro de ser".

Pai.
Ele se refere a, nada mais nada menos, que Inezita Barroso e Lima Duarte, mais Teo Azevedo na viola. Aliás, sei que, lá na década de 70, a querídola Nydia participou da produção de um espetáculo com o Lima Duarte interpretando o Grande Sertão:


Guimarães Rosa, Augusto Matraga, Riobaldo Tatarana, Diadorim, Manoelzão, Miguilim... Esses cabras me perseguem sem dó, e agradeço a Deus por essa bênção. Se não, como explicar os eternos reencontros com Miguilins?

A pergunta é retórica, não quero nem pretendo achar a(s) resposta(s). E sigo relendo o Rosa.
Por Paulo Bicarato, às 15:12 de 23.10.2014 - Comentem!
Categoria: Biblios

16.10.2014

:: Pra Entrar pros Anais ::

Aviso: este blog se dedica, entre outras questões menos (ou mais) *nobres*, ao jornalismo. Este post, aparentemente sadô-masô, deve ser lido sob esta ótica (pelo menos é nossa intenção). 'Brigado.

Notícia de um ano atrás, lembro-me de tê-la vista na época, mas talvez a *emoção* me tenha impedido de registrá-la aqui. Deu (ôps!) n'ODiário, de Londrina, Paraná: *Vibrador ecologicamente correto transforma prazer em terror em Maringá*. Sem nenhum dúvida, merece *entrar pros (nos?) anais* (ôps! ôps!) do jornalismo, sob a rubrica *história universal da infâmia* -- menos que a notícia em si (se é verídica ou não, é o que menos importa), mas principal e fundamentalmente pela forma com que foi relatada com a sensibilidade e, digamos, singeleza, pelo escriba Clóvis Augusto Melo. Segue:
Um homem solitário. Um filme pornô. E uma abobrinha. Esses três itens, aparentemente sem nenhuma, ou pouca, conexão, se tornaram personagens de uma história inusitada em Maringá nesta semana. E que acabou em uma cirurgia de emergência.

O homem de 63 anos estava em casa, alta madrugada de uma terça-feira sem graça, e decidiu assistir a um filme pornográfico. Entusiasmado com as performances dos atores, resolveu inserir um pouco mais de prazer em sua vida. Na falta de um consolo, revirou a despensa e reparou que, nas formas inocentes de uma abobrinha, havia um instrumento erótico em potencial.

Voltou à sala, o sexo correndo solto no DVD. Excitado, sacou da fruta (sim, é uma fruta) e introduziu seu vibrador ecologicamente correto no ânus. Triste destino o do vegetal, que escapou da panela para cair diretamente no fogo de uma paixão proibida.

O prazer se transforma em medo. Desconhecendo o poder de sucção de seu próprio reto, o homem se vê às voltas com uma abobrinha entalada e que não quer mais sair. Desesperado, tenta arrancar a fruta cilíndrica a todo custo - e quebra a dita ao meio. Um pedaço de tamanho considerável teimosamente se aloja no âmago do homem, cuja excitação inicial deu lugar a um terror incontrolável.

Às favas com a privacidade. Para salvar o próprio traseiro, é preciso colocá-lo na reta. Encaminha-se ao hospital, diz que há um objeto estranho em seu ânus. Enrola para dizer o que é e como foi parar lá dentro. Os médicos alertam que qualquer tipo de intervenção tem risco redobrado se eles não souberem exatamente o que aconteceu, e como. Pedem que o homem se acalme e sente para contar detalhadamente seu caso. Ele permanece em pé e se rende às argumentações dos especialistas. Conta tudo, afogueadamente, mas falando baixinho.

É um caso sério. Guias são preenchidas, exames são solicitados. Um raio-x descortina o renitente pedaço de abobrinha no interior do homem, a prova de um impossível caso de amor entre dois espécimes de reinos distintos. Aturdidos, os médicos decidem que é um caso de cirurgia. E de urgência.

O procedimento é realizado, o SUS - esse instituto tão criticado e vilipendiado - custeia a devolução da dignidade ao maringaense incauto. Aquele pedaço de mau caminho foi definitivamente retirado da vida dele.
Por Paulo Bicarato, às 14:59 de 16.10.2014 - 3 comentários
Categoria: Primeira Edição

08.10.2014

:: D. Pedro, o *Demonão* ::

carta_D_Pedro

Pra quem não conseguiu ler o original:
*Este lindo paçarinho
Canta, brinca, pica e fura
Mas quando torna repicar,
He mais doce a pica-dura*
Bilhetinho safadinho, né? Mas esse é um blog de respeito, e o post em questão tem outro propósito: alimentar, com o bilhete acima, o nosso repertório histórico, independentemente de vivermos essa época chata de pseudo-moralismo politicamente correto. Pois então, esse é só um exemplo de como o imperador D. Pedro I se correspondia com sua amante, a Marquesa de Santos. Auto-apelidado de *Demonão*, D. Pedro endereçava as cartinhas picantes à *Titília* (Domitila) -- o pesquisador Paulo Rezzutti publicou 94 cartas, datadas de 1824, pela Geração Editorial.

Titília_Demonão
Por Paulo Bicarato, às 15:56 de 08.10.2014 - Comentem!
Categoria: Biblios

29.09.2014

:: Jarbas, *o* Cara ::

Solidariedade, sustentabilidade, criatividade: tenho orgulho de dizer que sou amigo do Jarbas Noronha, um exemplar (graças a Deus, nem tão raro assim) de *gente do bem*. Já falei dele aqui no Alfarrábio mais de uma vez, e um causo é melhor que o outro: aqui, aqui e aqui.

Por Paulo Bicarato, às 14:56 de 29.09.2014 - 1 já comentou aqui
Categoria: Linux Vida Open Source

24.09.2014

:: Eis uma Santa ::

Dona Maria Ribeiro da Silva Tavares se encantou, aos 102 anos. Eis aí uma pessoa que dignifica a espécie e considero como a expressão perfeita de como Guimarães Rosa se referia ao *passamento*:
*as pessoas não morrem, ficam encantadas*
Ou, parafraseando o Manuel Bandeira:
*imagino Maria entrando no céu:
- Licença, meu branco!
E São Pedro bonachão:
- Entra, Maria. Você não precisa pedir licença*
Mandei a notícia pro seo Toninho (ou: meu pai), que resumiu:
Exemplos de santas e santos como Maria Ribeiro,
graças a Deus, existem e não são poucas(os).
Pena que nossa mídia, QUASE TODA vendida ao crime,
só tem olhos para rebeliões e fugas de presídios.
Enriqueça seu blogue, Paulo, exibindo casos como esse.
Como sou um cara obediente, registro aqui minha pequena homenagem a essa *Santa*. 'Brigado, dona Maria! :-)

*Se a mídia se dedicasse a mais coisas boas ao invés de tanta desgraça, talvez a sociedade estivesse contaminada não de medo e vingança, mas de afeto.* (A frase é da Nathalia, que não conheço, e me chegou via Feicebúqui.)

Leia mais:
>> Idosa que era cuidada por presos morre aos 102 anos em Porto Alegre
Maria Ribeiro da Silva Tavares fundou, em 1942, o Patronato Lima Drummond, que abriga presidiários do regime semiaberto

>> Presos tomam conta de mulher de 102 anos

Dona_Maria
Dona Maria com o cuidador Roberto Sotello,
em férias na lagoa dos Patos (RS)


Dona_Maria
Maria Tavares rodeada por seus anjos em 2013,
no patronato Lima Drumond, em Porto Alegre
Por Paulo Bicarato, às 15:06 de 24.09.2014 - Comentem!
Categoria: Primeira Edição