08.01.2016

:: Pesadelo Refrigerado ::

Se há algo que sempre me intrigou é o fascínio que os EUA exercem sobre uma parcela considerável dos brasileiros (assim como no resto do mundo, mas fiquemos por aqui), e dentro dessa parcela outra mais considerável devido, em tese, ao nível cultural e de instrução. Dirão que é ingenuidade minha: nem o acesso a uma formação cultural razoável é garantia de bom-senso e discernimento, nem a autopropaganda estadunidense deveria ser menosprezada.

Mas a recente (ou nem tão recente) e crescente onda reacionária, que não raro evoca *valores* importados lá do país do norte (num patriotismo patético e contraditório ao vestir a camiseta canarinho), e que tem como um de seus paradigmas o sonho de consumo de morar em Miami, amplifica essa minha sensação de intriga. (Ressalte-se que sou um cara que não alimenta, nem nunca alimentou, nenhum sentimento xenófobo, e o que se segue são links e fatos e a análise visceral de um... estadunidense.)

Como, por exemplo, exaltar um país campeão de massacres, vários cometidos em pacatas escolas? Ou onde resistem -- e se multiplicam -- abomináveis homens de capuz, excrescências de ares medievais? Ou ainda onde rancheiros racistas se acham no direito de fazer suas próprias leis? Ou, por fim, onde na *terra do progresso* o que se vê é a proliferação de homeless inservíveis, que apenas, e tão-somente, enfeiam e custam caro? Isso pra não falar do insano apoio ao nome do Donald Trump e da ainda mais insana política de incentivo à indústria da guerra, e às guerras, entre outras aberrações.

Talvez a paranóia existencial que moldou a cultura estadunidense explique isso tudo -- e retroalimente isso tudo. Sintomaticamente, pipocou (ou viralizou) nas redes um trecho da série The Newsroom, da HBO (thanks, brôu Marcelo) -- volto logo após o vídeo:



Pesadelo Refrigerado
E, mais emblematicamente ainda, tive a grata surpresa de ganhar um daqueles presentes absolutamente inesperados, mas que parecem vir no *momento certo*. A gentileza foi do grande camarada Carlos Bueno Guedes -- um livro que, confesso, não conhecia: *Pesadelo Refrigerado*, o livro censurado de Henry Miller, nesse interessante artigo que achei na Revista Bula. Vale a pena ler o artigo, mas pincei alguns trechos do prefácio:
*... Chamar isso aqui de sociedade de povos livres é uma blasfêmia. O que temos a oferecer ao mundo além da superabundante pilhagem que com total indiferença arrancamos da terra sob a maníaca ilusão de que essa atividade insana representa progresso e iluminação?
[...]
*... não é um mundo em que eu queira viver. É um mundo adequado a monomaníacos obcecados com a ideia de progresso -- mas um falso progresso, um progresso que fede. [...] o sonhador cujos sonhos não sejam utilitários não tem lugar neste mundo.*
Miller escreveu isso em plena 2ª Guerra -- depois de passar uns 10 anos na Europa, voltou e fez uma viagem de uns três anos pelos EUA -- o livro é o relato dessas impressões de viagem, falando tudo o que ia contra o sentimento patriótico pra lá de exacerbado naquele momento. Mas, se naquele contexto a guerra era até um pretexto (discutível) pra justificar o comportamento doentio da nação, hoje nem esse pseudo-pretexto há (ou há, mas faz parte exatamente dessa cultura que se alimenta do medo, do ódio e da dor): é a cegueira de um povo que não admite, não quer ver, o fosso cruel que eles mesmos criaram. É esse *tipo sociológico*, ao mesmo tempo vítima e algoz, que faz parte de uma sociedade doentia -- e que o Miller apontou e descreveu com precisão há uns 70 anos, mas segue mais (morto-)vivo do que nunca.

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Por Paulo Bicarato, às 15:40 de 08.01.2016 - Comentem!
Categoria: Biblios

22.12.2015

:: Língua: Vida, Cinzas ::

Grande Sertão - 50Sob a tristeza de ver a notícia e as imagens, e no calor (literal) do incêndio que destruiu o Museu da Língua Portuguesa, fui até a estante e peguei o meu exemplar n° 601 (de uma tiragem de 10 mil) da edição comemorativa dos 50 anos do *Grande Sertão: Veredas*, com o catálogo e o DVD da instalação montada pela Bia Lessa pra inauguração do Museu, em 2006. Abri o catálogo a esmo e tirei a foto (ao lado), mas só depois de publicá-la fui reler todo o catálogo -- e a página que escolhi (ou que me escolheu) tinha um quê de profética:
*A linguagem e a vida são uma coisa só. Quem não fizer do idioma o espelho de sua personalidade não vive; e como a vida é uma corrente contínua, a linguagem também deve evoluir constantemente. Isto significa que como escritor devo me prestar contas de cada palavra e considerar cada palavra o tempo necessário até ela ser novamente vida. O idioma é a única porta para o infinito, mas infelizmente está oculto sob montanhas de cinzas.*
João Guimarães Rosa
Me arvorei em *ostentar* que, sim!, tenho em mãos parte do acervo do Museu. Ainda que eu saiba que todo o acervo é digitalizado, o fato de ter o catálogo e o DVD, presente da minha querídola Rose, me trouxe a lembrança de ter visitado a exposição de abertura, com a Rose, o que me deu outro significado ao próprio prédio e, claro, ao presentaço.
Mas acho que essas palavras não vão sair da minha cabeça tão cedo:
*A linguagem e a vida são uma coisa só. [...] O idioma é a única porta para o infinito, mas infelizmente está oculto sob montanhas de cinzas.*
Sei, porém, que há uns tantos abnegados que resistem em buscar essa *porta para o infinito* infefinidamente, ainda que tenham(os) que nos embrenhar *sob montanhas de cinzas*...

Por Paulo Bicarato, às 14:30 de 22.12.2015 - Comentem!
Categoria: Biblios

10.12.2015

:: Jornalismo & Literatura ::

João do Rio
João do Rio, 1908:
*O literato do futuro é o homem que aprendeu a ver, que sente, que aprendeu a sentir, que sabe porque aprendeu a saber, cuja fantasia é um desdobramento moral da verdade, misto de impossibilidade e sensibilidade, eco da alegria, da ironia, da curiosidade, da dor do público -- o repórter.*
Eis a definição. E, pra mim, uma pretensão talvez inatingível. Talvez tardiamente só agora eu tenha um contato maior com o João do Rio, uma daquelas referências um tanto óbvias e evidentes, mas ao mesmo tempo meio que procrastinadas a sabe-se lá qual momento mais... oportuno?

Mas que tenha chegado a hora: a coleção João do Rio, em três volumes bem bacanas da Editora Carambaia: crônica, folhetim e teatro, com uma *seleção de crônicas, reportagens, contos ficcionais, entrevistas, peças, sainetes, folhetins e artigos produzidos entre 1899 e 1919. Boa parte dos textos nunca saiu em livro, apenas nos jornais – que permaneceram mais de 100 anos guardados em arquivos e bibliotecas*.

Além da minha óbvia predileção e admiração pelo Guimarães Rosa, nomes como os do Antonio Maria ou Nelson Rodrigues [*Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico (desde menino)] são daqueles que sempre me assombraram. Referências que se mesclam, umas mais, outras menos, e das quais busco beber sempre, saboreando cada construção, cada encadear de palavras e signos e significados.

E me surpreendo (mesmo com, e apesar da, ansiedade e expectativa) com João do Rio: logo nas primeiras páginas, a confirmação e superação do que eu supunha. Numa crônica sobre os *reclamos* do início do século, ele define as *tabuletas* como *os brasões da rua [...] escudos de uma complicada heráldica, do armorial da democracia e do agudo arrivismo dos séculos*, e segue com a prosa poética, deliciosamente, por mais umas quatro páginas e por ruas e avenidas do Rio de Janeiro.

Décadas antes de *movimentos* como o *new journalim* do Tom Wolfe, Gay Talese & cia., ou ainda do *jornalismo gonzo* do Hunter Thompson, arrisco dizer que o João do Rio inovou na linguagem, na forma, no olhar e no fazer jornalísticos. Se hoje há, sim, muita gente bacana, infelizmente há, também, muitos mais que (se) extrapolam e se perdem na própria arrogância. Tive o prazer de conhecer e conviver e trabalhar com um sem-número de (bons) escribas, mas ao repassar as linhas (e a biografia) do João do Rio é quase inevitável a associação direta com um camarada em particular, que atende perfeitamente à descrição que abre esse texto: o Raimundo Oliveira, o Rai. Tenho a certeza de que vou *enxergar* outros colegas nas próximas páginas dos três volumes da coleção -- o que é, confesso, uma maneira de tentar *me enxergar* e alimentar a pretensão de cronista e a implacável relação com *a musa urbana, dotada de uma alma encantadora – a rua* -- [brinde aqui, pra download].

Segundo clichê: se há algo gratificante, é isso! Desse textinho despretensioso, provocar reflexões e sentimentos, e sabe-se lá o que mais lá bem no íntimo de uns e outros. E atiçar *cronistas urbanos* como, por exemplo, o meu irmão, o Marcelo:
*a loja fica numa ladeira, ao lado duma esquina com semáforo, onde o dia inteiro soam buzinas impacientes e intolerantes.
elas me incomodam muito, muito, muito mesmo.

mas eis que cai na timeline post do Rai citando trecho do João do Rio que você mandou, sobre a rua.

no mesmo instante – no mesmo instante mesmo! – a rádio começa a tocar *the sound of the silence*, de simon & garfunkel.

buzinas gritavam nesse momento aqui do lado por causa de um caminhão com dificuldade de fazer a curva.

eu ouvi todas elas, mas não me incomodaram, pelo menos agora.

a música e o texto foram mais altos.*
Publico aqui sem pedir a anuência do próprio Marcelo. Esse foi apenas e tão-somente um comentário dele, mas deixa clara a sensibilidade do cara, né? Valeu, brôu!
Por Paulo Bicarato, às 14:34 de 10.12.2015 - 2 comentários
Categoria: Biblios

01.12.2015

:: Sobre o Design Reaça ::

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Quando o fator estético reflete o ético, e vice-versa -- ou: a ética como cultivo da *beleza*, esta no sentido do grego *ethos*, o caráter e valores morais ou, como dizia Platão, aquilo que conduz ao bem, que inspira e motiva.

Tenho, entre meus livros de cabeceira, o *Seis Propostas para o Próximo Milênio*, do Italo Calvino. Lembrei dele por causa de um artigo interessantíssimo na revista Fórum: *Design Reaça: uma anatomia do pensamento crítico pixelizado -- Como as redes sociais gestaram um padrão estético para o exercício do conservadorismo no Brasil*.

Como que negando as *seis propostas*, o artigo mostra como a feiúra deliberada e a pobreza estética são padrões assumidos pelo *design reaça* (penso em como, até certo ponto, esse padrão *pobre* é responsável por ficarmos em desvantagem na *batalha da comunicação* -- *não é possível que não exista nenhum designer de direita em todo o país*, diz o autor, Murilo Cleto, historiador e mestre em Cultura e Sociedade). Ou, como resumiu o brôu Marcelo, *nunca o pensamento rasteiro e superficial foi 'tão bem' elaborado; é o ideário da estupidez na sua 'melhor' forma, para quem não lê, só vê figurinha*.

Vale ler na íntegra, mas seguem uns trechos:
*O resultado desta modalidade de pensamento que se vende como crítico não poderia ser outro. Além dos desmontes do senso comum com mais senso comum, e não menos, multiplicam-se como nunca boatos sem qualquer verificação que dizem mais sobre quem compartilha do que efetivamente sobre o seu objeto de crítica.*
[...]
*Em geral, os memes políticos nas redes são bem-sucedidos porque são, em primeiro lugar, autossuficientes. Quer dizer, bastam por si próprios, sem a necessidade de links que fundamentem com maior espessura sua posição. E, por isso, vêm apresentados com imagem e texto. Mas, mais do que isso, porque orientam com ideias feitas as interpretações sobre questões atuais sem a necessidade de qualquer elaboração maior, preenchendo o vácuo deixado tanto pela urgência quanto pela desconfiança algo generalizada nas instituições.*
Mas fui buscar o texto que tá na contracapa da minha edição das *Seis Propostas*:
*Declaração de ética, mais que de poética, as conferências que Calvino preparou para a Universidade Harvard representam o testamento artístico de um dos protagonistas literários do fim de milênio. Em meio à crise contemporânea da linguagem, cada vez mais aguda, o grande escritor italiano identifica as seis qualidades que apenas a literatura pode salvar - leveza, rapidez, exatidão, visibilidade, multiplicidade, consistência -, virtudes a nortear não apenas a atividade dos escritores mas cada um dos gestos de nossa existência. Feitas de divagações, memórias, trechos autobiográficos, as Seis propostas de Calvino constituem um precioso legado do milênio para as gerações do ano 2000.*
Peço desculpas ao Calvino se o invoco aqui por causa exatamente do contrário do que ele pregou. Mas é o que me consola me serve como antídoto diante das agressões, éticas e estéticas, a que somos submetidos. Vou reler, mais uma vez, o Calvino.
Por Paulo Bicarato, às 14:47 de 01.12.2015 - Comentem!
Categoria: Pensatas

24.11.2015

:: Seu Toninho ::

Hoje, 24/11, faz um ano que o seu Toninho, meu pai, *encerrou* sua missão aqui na terra. *Encerrou* entre aspas, sim, porque ele segue presente na memória e no coração de todos que tiveram o privilégio de conhecê-lo -- e mesmo quem não o conheceu pessoalmente, mas que tem a oportunidade de ler algum de seus ricos escritos, testemunhos de vida, de fé, de amor.

Há vários textos dele aqui no Alfarrábio -- não consegui filtrar tudo, mas em meio a buscas por *Papa* (sim, como eu o chamo) ou Toninho pode-se encontrar bastante coisas. Meio que aleatoriamente, pincei só duas frases enquanto repassava por alguns textos:
*Faça o que bem entender com textos meus. Sempre. Uma vez escritos, já não me pertencem. E se por acaso algum bem fizerem a alguém... Deus seja louvado! Quer paga melhor que isso?*
~ ~ ~
*Tenho para mim que toda bela sinfonia, toda cantata, concerto ou serenata, valsa ou moda de viola são trechos da sinfonia maior que é todo o Universo. Melhor: são trechos que, em momentos de arroubos, os músicos surrupiaram dos céus.*
É claro que há a saudade da presença física, da alegria dele nas reuniões em torno da mesa (farta!), de vê-lo apreciando um bom vinho, de tê-lo compartilhando, sempre sereno, suas histórias de vida, seu conhecimento e erudição -- isso sem nunca ostentar a vasta cultura, mas com a humildade e o prazer de compartilhar o que sabia.

Mas me consola saber que ele tá feliz, ao lado da minha mãe, dona Benê -- sim, ela também presente por aqui em textos como o *Chapéu de Palha* ou *Asas do Sonho* (este, escrito pra mim -- 'brigado, Mama). E fico feliz por ter a certeza de que o seu Toninho cumpriu, com louvor, sua missão por aqui (e segue cumprindo...).

No *santinho-lembrança* da missa de um ano dele, a sensibilidade do texto & arte do Marcelo. Valeu, brôu!

Nas fotos, um churrasco lá de 2011 (o título, *bota-fora*, é porque ele estava indo pra Brasília, proutra missão).


Bênça, papa! Bênça, Mama!

PapaMama1ano

Por Paulo Bicarato, às 16:07 de 24.11.2015 - 1 já comentou aqui
Categoria: Pensatas

13.11.2015

:: Polêmica ::

Sobre o *esvaziamento* e a banalização das palavras -- by Renata Corrêa:
Queridas pessoas da imprensa,

Eu sei. Não fiz faculdade de jornalismo. Talvez eu esteja falando bobagem. Sou apenas uma roteirista. Eu escrevo ficção. Umas coisas que saem da minha cabecinha e que vivem e existem só numa representação. Mas como parte do nosso material de trabalho é o mesmo, a língua portuguesa, gostaria de falar sobre o uso da palavra "polêmica".

Polêmica é uma uma situação de debates e controvérsia. Nas redes sociais praticamente tudo gera muitos debates e controvérsia e polarização -- mesmo assuntos que, pelo bom senso, pelo sentimento de humanidade sequer deveriam ter a denominação de polêmica. A defesa da pedofilia, por exemplo.

Tolstoi era um escritor russo maneirinho. Ele pensava que deveríamos, como defesa da nossa humanidade, chamar as coisas pelo nome delas. Sou super do time dele.

Então queridas pessoas da imprensa, eu gostaria de ajudar vocês a entender coisas que não são polêmica para que vocês possam encontrar o nome correto para elas.

- Ataques misóginos contra Lola Aronovich não são polêmica. Chama-se crime.

- Os ataques contra a atriz Tais Araújo não se chamam polêmica. O nome que se dá é racismo.

- Geraldo Alckmin fechar escolas e mandar a tropa de choque para cima de adolescentes que as ocupam não gera polêmica. Gera violência do estado contra cidadãos exercendo seu livre direito de se manifestar.

- Namorado enforcar a namorada não é polêmica. É assassinato e feminicídio.

- Quando homens atacam e debocham da hashtag primeiro assédio isso não é polêmica. É machismo.

- Quando um secretário de estado espanca a esposa repetidas vezes e o seu governador sai em sua defesa, o nome disso não é polêmica. É canalhice. Se vocês não puderem usar a palavra canalhice, citem a lei maria na penha.

- O que aconteceu em Mariana com o derrame de lama tóxica destruindo vidas e o meio ambiente não gerou nenhuma polêmica também. Gerou mortes por conduta irresponsável. E gerou também uma desconfiança irreversível no que vocês escrevem.

O uso da palavra polêmica nesses casos só mostra o não posicionamento diante de questões difíceis e dolorosas. Não se posicionar significa estar do lado do agressor. E o uso desse eufemismo contemporâneo vazio e babaca não vai salvar vocês da mediocridade. E nem dos passaralhos, que fique claro.
Por Paulo Bicarato, às 12:23 de 13.11.2015 - Comentem!
Categoria: PretoNoBranco

26.10.2015

:: Culturas Vivas ::

Agromerarte
Essa semana passada foi particularmente interessante -- o que não quer dizer que não tenhamos surpresas e causos interessantes no resto do ano, já que a capacidade do ser humano é infinita, seja pra criar ou pra fazer besteiras. Mas apesar do episódio deplorável de pedofilia explícita do MasterChef ou a baixaria na livraria Cultura, ou ainda o histórico Enem, que colocou em pauta discussões pertinentes e urgentes, e a emocionante homenagem ao Vladimir Herzog na Catedral da Sé, entre inúmeros outros fatos que ganharam destaque, registro aqui dois exemplos que me reforçam a esperança nessa nossa tão desesperançada espécie: comunidades, coletivos independentes, *gentes* se articulando e botando a mão na massa pra fazer a diferença, incrementando articulações e conversas e vivências entre arte, cultura, ciência, tecnologia, sociedade, ecologia, tradições e o que mais der na telha.
Tropixel


Falo de duas iniciativas (eventos?, festas?, intervenções? -- ou tudo isso e mais) que se desenrolaram, prática e sintomaticamente, nos mesmos dias, com objetivos essenciais em perfeita sintonia, ainda que distantes centenas de quilômetros uma da outra: o Agromerarte, na comunidade do Jardim Pedramar, em Jacareí, e o Tropixel, em Ubatuba. Em comum, fundamentalmente, o espírito colaborativo e de construção conjunta de conhecimento, de coisas e fazeres.

De intervenções artísticas a oficinas e workshops (de manifestações culturais tradicionais à apropriação de tecnologias), passando por ações comunitárias, graffiti, feira da roça (de artesanato a produtos orgânicos e pingas), e mais música e literatura (com direito a inauguração da Biblioteca Comunitária no Pedramar), o Agromerarte e o Tropixel são provas vivas de que ideais podem e devem ser compartilhados e construídos coletivamente -- e produzem, sim, resultados concretos, dão sequência a processos que se autofortalecem e geram referências riquíssimas pra outras iniciativas.

Sei que esses são apenas dois exemplos entre incontáveis outros que pipocam, ou emergem, por aí. Tenho plena consciêncida de que as personagens e agentes envolvidos são inúmeros, e corro o risco de ser até injusto em citar apenas dois amigos -- mas faço questão de registrar minha admiração ao Thiago Vinicius e ao Felipe Fonseca, respectivamente dois dos *cabeças* à frente do Cultura no Morro e do Ubalab. Parabéns, e obrigado, camaradas!
Por Paulo Bicarato, às 14:17 de 26.10.2015 - 2 comentários
Categoria: Linux Vida Open Source

19.10.2015

:: Salve, Poetinha! ::

Se o Vinicius aprovaria ou não, são outros 500... Mas, pra marcar esses 102 anos que ele completa hoje, fiquemos com esse registro de uns dois anos atrás -- compartilho a culpa com os comparsas Alê Freitas e Vivian, no extinto Bar do Mauro. Saravá, Vinicius!

Por Paulo Bicarato, às 12:43 de 19.10.2015 - Comentem!
Categoria: Etilíricas

07.10.2015

:: Rosa Onipresente ::

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*Quem sabe direito o que uma pessoa é? Antes sendo: julgamento é sempre defeituoso, porque o que a gente julga é o passado.*
*Eu sou é eu mesmo. Divirjo de todo o mundo...*
*Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa.*
Se há algo que me dá aquela pontinha de orgulho (com toda humildade e com muitas dúvidas se realmente mereço) é ser visto, por muitos amigos e amigas, como uma espécie de *referência* quando o assunto é, nada mais nada menos, Guimarães Rosa.

Mas: *a coragem que não faltasse; para engulir, a pôlpa de buriti e carnes de rês brava*. Foi nessa culinária sertaneja que a caríssima Letícia Massula me *reencontrou*, depois de um bom par de anos (décadas?).

É, pra mim, uma honra sem tamanho, uma *homenagem* que, sinceramente, encaro como uma responsabilidade que, de certa forma, tomei pra mim mas não sei o quanto sou capaz de corresponder. *As coisas assim a gente não perde nem abarca. Cabem é no brilho da noite. Aragem do sagrado. Absolutas estrelas.*

Mas daqui, da telinha do computador, e no meio do asfalto desse sertão urbano, a Letícia resgata os buritis das veredas pra me alegrar o dia. *Tudo, aliás, é a ponta de um mistério, inclusive os fatos. Ou a ausência deles. Duvida? Quando nada acontece há um milagre que não estamos vendo.*

Ou, ainda: *viver é etecetera*. *O real não está na saída nem na chegada. Ele se dispõe para a gente é no meio da travessia.*

Só me resta agradecer, de coração, ao carinho e à lembrança da Letícia (e de tantos outros amigos e amigas). E saudar, sempre e mais e mais, o Mestre Guimarães Rosa, eterno nesse universo único que ele criou, mas que criou vida própria e se re-significa a todo momento, nas letras, nas bifurcações desses nossos (des)caminhos, nos redemunhos da vida -- ou numa receita culinária.
*A vida também é para ser lida. Não literalmente, mas em seu supra-senso. E a gente por enquanto, só lê por linhas tortas.*
Ah! E, claro, a receita da Letícia tá lá na Cozinha da Matilde.
Por Paulo Bicarato, às 15:46 de 07.10.2015 - Comentem!
Categoria: Etilíricas

05.10.2015

:: Mobilidade Interpretada ::

Questão de interpretação, né? Ou de interesses. Ou ambas.

No domingo retrasado, a *fôia* trouxe reportagem no caderno *cotidiano* (à dir.) dizendo que *paulistanos deixam o carro em casa, em trânsito diminui*, com direito a chamada de capa: *economia fraca reduz o trânsito em São Paulo*. Resumidamente: minimiza medidas da gestão Haddad, como a redução de limites de velocidade e a implantação de faixas de ônibus e ciclovias, e atribui a mudança de comportamento, *segundo especialistas* (sempre eles), à crise econômica, que *reduz a presença de automóveis nas ruas*. É claro que a fórmula inclui todos esses fatores, mas o texto arrisca-se até a ser engraçadinho e tenta ser irônico: *em outras palavras, o desempenho do trânsito ainda fica abaixo do de um patinete elétrico, mas deixou de ser igual ao de um medalhista de marcha atlética*.

Já neste domingo, agora no caderno *classificados* (à esq.), a abordagem vai noutra direção: *pesquisas confirmam percepção do ciclista de que pedalar em SP melhorou*. Dificilmente eu leria essa reportagem, até pelo caderno em que saiu, não fosse o personagem que abre a matéria: o brôu Cacá, ou o publicitário Antonio Carlos Bicarato.

Discutir mobilidade urbana a sério, sem partidarismos, é uma coisa -- e que ganha repercussão e elogios até na França --, já identificar tendências de mercado e mudanças de profundas de comportamento, é outra. Só depende da editoria.

Segundo clichê: Haddad, no El País: "Oposição em SP chega ao ponto de chamar ciclista de comunista".

>> Clique nas imagens pra ler as matérias -- pra acessar o conteúdo da fôia, abra esse site e cole os respectivos links.

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Por Paulo Bicarato, às 12:33 de 05.10.2015 - 1 já comentou aqui
Categoria: PretoNoBranco

26.08.2015

:: Dois Toninhos e uma Vassoura ::

Depois de alguns meses da *ida antes do combinado* do seu Toninho, eu e meus irmãos nos reunimos pra ajeitar as burrocracias inevitáveis e, enfim, dar um destino aos poucos pertences do Papa – a maior e inestimável herança, sem dúvida nenhuma, ele nos deixou com seu exemplo de vida. Em meio às roupas, um relógio e uma ou outra coisinha pessoal (além de algumas garrafas de vinho, que o Cacá logo quis se apropriar), um singelo e silencioso pen-drive quase passou despercebido.

Além de um blazer, coube a mim a guarda do misterioso arquivo digital, ainda que meu pai nunca tenha sido nada misterioso – muito pelo contrário. Mas o que haveria ali?, fiquei me perguntando, evitando qualquer especulação que, de resto, seria inócua. Deixei o pen-drive quietinho por uns dias, tentei não pensar nele, fui viajar com a Rose.

Até que resolvi encarar o bichinho. Entre dezenas de textos e arquivos *de trabalho*, deparo-me com um arquivinho curioso: *vassoura.docx*. Nos metadados, vejo que foi criado em setembro de 2011 – poucos meses após sua ida pra Brasília (lá por julho ou agosto, segundo o Marcelo), e um pouco mais após a ida, também *fora do combinado*, da Mama, em janeiro.

Abro o arquivo e, além do nome, o título é ainda mais curioso: *Dois Toninhos e uma vassoura*. É uma entrevista, pra alguma revista redentorista -- os *dois Toninhos* são revelados logo no início, o Bicarato e o Thozzi, que imagino terem sido colegas de seminário. Já a *vassoura*... que cazzo teria a ver? Ao longo do texto, mostra-se mais do que ilustrativa: é a metáfora perfeita do exemplo de dedicação, de humildade e de vida de meu pai, e o porquê dele ter optado por, aposentado e viúvo, seguir com seu espírito missionário, fiel e servindo aos seus ideais – como sempre. Segue o texto na íntegra:
DOIS TONINHOS E UMA VASSOURA

É de conhecimento de todos que Antônio Bicarato enviuvou, os filhos encaminhados, ele aposentado. Vejam quanto de tempo livre passou a ter. Com os ideais de Afonso, que ainda o fazem vibrar, em vez de descanso, partiu para um desafio. Para surpresa de muitos, ofereceu-se para trabalhar numa distante prelazia. Como missionário. A Providência, porém, quis que ele fosse prestar serviços à CNBB, em Brasília, a pedido de seu Secretário Geral e recém nomeado bispo auxiliar da capital federal, Dom Leonardo Ulrich Steiner, OFM.

Mas, algo estranho, espirituoso, está por trás dessa história. Espirituoso em dois sentidos, o do humor, do bom, do puro humor, e o do Espírito, aquele que inspira o bem, o amor, aquele que nos oferece o dom do conselho, da sabedoria. Conversamos com dois Toninhos, o Toninho Bicarato e o Toninho Thozzi. Com o Thozzi, porque parece que ele tem a ver com a história.

Revista: Bicarato, passamos a vida inteira correndo atrás de nossos sonhos. De alguma forma, conseguimos realizar muitos deles, nunca todos. E, de repente, parece não haver mais com que sonhar. Filhos encaminhados, aposentadoria, saúde fragilizando-se... Mas, sempre há algo a ser feito. Acredito que foi isso que lhe passou pela cabeça. Como e por que você resolveu doar-se em missão, e tomou a decisão de oferecer-se para trabalhar na prelazia de São Félix do Araguaia?

Bicarato: Bem, Paulinho, a história é longa, mas tento abreviá-la. Seu começo envolve Dom Luiz Cappio, bispo da diocese da Barra-BA, que, como você e muitos sabem, é guaratinguetaense. Por ocasião da greve de fome que fez em protesto pelos desmandos cometidos contra o rio São Francisco, a revista Veja denegriu sua imagem. No meu modo de ver, ela o caluniou. Saí em sua defesa e escrevi uma carta à revista. Esta não teve a hombridade nem de responder nem de publicar a carta. Prometi nunca mais pôr os olhos em Veja – por mais que seu título me conclame a isso. Daí nasceu o sonho de um dia partilhar a dura e abnegada vida que Dom Luiz vive lá no sertão baiano, às margens do lendário e tão maltratado Velho Chico, rio que – é bom que se diga – Dom Cappio conhece da nascente à foz, na divisa do litoral da Bahia com Sergipe. Conhece inclusive as realidades de vida das populações ao longo de seu curso.

Revista: Pois é, Toninho, e como é que essa história acabou desembocando em Dom Leonardo?

Bicarato: Dom Leonardo entrou no contexto por um desses desígnios que só posso dizer ser de Deus. A semana em que me preparava para escrever para dom Cappio foi exatamente a semana do encerramento da Assembleia Geral da CNBB, que por primeira vez aconteceu em Aparecida. Dom Leonardo, que anos atrás trabalhou em Guará quando ainda simples frei Uli – corruptela de Ulrich, seu primeiro nome, mudado para Leonardo, nome de seu falecido pai, para facilitar –, fora conselheiro espiritual da Equipe 1 de Guará. Estando em Aparecida, quis rever o pessoal da equipe antes de retornar à sua prelazia. Marcou-se para isso um jantar no dia 10 de maio. Alceu, responsável da equipe, ligou-me na véspera convidando-me. Fui porque não podia perder essa rara ocasião de revê-lo. Na viagem de São José para Guará, conversando com meus botões, me veio o questionamento: por que não Dom Leonardo, que vive no mundo sem fim de uma prelazia, também às margens de outro rio famoso, o Araguaia, em vez de Dom Cappio? O sonho era o mesmo. O que mudava era o endereço de sua concretização. E o questionamento ia e vinha, persistente, até que, a dado momento, acheguei-me a Dom Leonardo e pedi-lhe um minuto de conversa à parte após o jantar. Ao lhe revelar o que me ia no coração, inclusive dizendo que meu anseio inicial estava voltado para o sertão baiano, ele abriu um largo sorriso, meio maroto até, e me disse: “Claro que quero, Toninho, só que não em São Félix, mas em Brasília”. Semelhantes a esse já senti outros sustos na vida. Nesse, porém, parecia haver uma mão a me amparar.

Revista: Diga lá, Thozzi, que história é essa da vassoura e que tem a ver com a história de vida do colega, que nos empolgou com a opção tomada?

Thozzi: Veja bem, Paulino. Em fevereiro, no retiro, encontramos o Toninho Bicarato muito triste. Afinal, a perda de quem nos acompanha por toda uma vida nos abala. Então, no intuito de distraí-lo e envolvê-lo, contei a história que me acontecera em Vitória-ES. Estive lá em fevereiro de 2007, para um curso do CEBI, quinze dias. Aproveitando um momento de folga, fui conhecer a igreja e o convento da Penha. Enquanto admirava a paisagem e a solidez da construção, fiquei olhando um frade franciscano que, cantando, varria o chão da igreja. Percebendo que eu o observava, ele puxou conversa, perguntou-me de onde eu era. Respondi-lhe que de São Paulo, ao que ele me disse ser de São Paulo também. Aí, contou-me que sempre fora ardoroso admirador de são Francisco e sua obra, até pensara, na infância, em ser frade... mas cresceu, tornou-se advogado-procurador do Município de São Paulo, casou-se, teve filhos e netos... Aos 65 anos ficou viúvo. E com a vida vazia! Foi quando repensou sua primeira vocação, buscou a Ordem Franciscana, e foi aceito como Irmão Menor (irmão leigo). E completou: “Sou muito feliz aqui! São sete anos já... de manhã sirvo pão aos peregrinos, ajudo a santa missa, à tarde varro a igreja e, no começo da noite, distribuo sopa aos pobres... Nunca fui tão feliz”, encerrou o frade.
Contando essa historinha ao Bicarato, ele me perguntou se eu estava sugerindo que fosse varrer a igreja. Sorrimos ambos e discorremos que não necessariamente varrer, mas gastar os dias de sua vida... ao que Ele me respondeu que estava buscando uma forma de servir a Deus... (e olhe, juro que vi nos olhos do Toninho um brilho diferente, como um menino que encontra um tesouro!...) Passou-se o tempo, e lá vai ele, vassoura em punho, para Brasília. Que santa inveja... poder ajudar... que missão ele vai pregar, agora com os filhos encaminhados e a lembrança da vida vivida...

Revista: Thozzi, como homem prático, muito chegado na vivência com o povo, educador que é, você quis apenas consolar o Bicarato ou, sutilmente, estava sugerindo uma nova forma de vida, ao lhe contar a história da vassoura?

Thozzi: Confesso que, a princípio, Paulinho, apenas buscava consolá-lo da perda imensa, mas fui me entusiasmando à medida que falava, e achei que, de fato, num serviço missionário, assim junto aos mais pobres e oprimidos, dentro de um espírito afonsiano/franciscano, a gente preenche qualquer vazio... e então, cada vez que me encontrava ou comunicava com o Toninho, perguntava da “vassoura”... ele ria... mas acho que aumentava nele a vontade de “fazer votos”, de pôr-se à disposição.

Revista: Interessante o fato. Uma forma criativa, pelo menos não muito comum, de alguém viver o “pós carreira”, a aposentadoria sem depressão, o que é muito comum, ou então perder-se no tempo, como geralmente acontece, não é Bicarato? Isso o levou à decisão ou você já havia planejado algo? A história do Thozzi teria sido um empurrãozinho?

Bicarato: Pelas respostas anteriores, Paulinho, dá pra ver que já havia antecedentes. Mas, quem foi alinhavando tudo foi Deus, que se serve de tudo, inclusive de histórias como a do Thozzi. Por caminhos que nós pensamos que somos nós que traçamos, mas na verdade foram por Ele traçados desde tempos imemoriais, Ele nos vai conduzindo, quase sempre mansamente e, quando necessário, dando os sustos que nos fazem despertar ou do comodismo ou de sonhos que não nos levam a nada. Se de nossa parte há pelo menos disponibilidade, se nos colocamos com confiança em suas mãos, se descobrimos a grandeza do servir, do que é verdadeiramente amar o irmão, nossas realizações passam de um plano puramente humano para a esfera das coisas do alto.

Revista: Que mensagem vocês podem dar aos nossos leitores?

Thozzi: No seminário, nos diziam que a Graça era única, se não aproveitada, nós a perdíamos. Hoje, tenho certeza de que a Graça age em cada momento de forma diferente: na dor, na solidão, no abandono... podemos sorrir, nos reencontrar, quando nos colocamos a serviço do outro, do pobre, do abandonado... daqueles de quem é o céu... Basta pegar a “vassoura” e servir... (“Se eu, que sou o Senhor, lavo os vossos pés... é para que façais o mesmo!”). Então, Toninho, empunhe bem a “vassoura” missionária aí na CNBB.

Bicarato: Deus te ouça, Thozzi, Deus te ouça. Que ele continue me dando forças. À medida que os dias passam, a saudade dos filhos – sem falar na saudade da Benê, que é sentida onde quer que eu esteja – vai crescendo, e então a doação tem de ser também cada vez maior. E é mesmo só a Graça que nos sustenta. Agora, mesmo trilhando caminho íngreme e pedregoso, com tropeços, desânimos, desolações e incompreensões, a felicidade que se sente é a felicidade de quem é amado e acarinhado por Deus, privilegiado até!
Por Paulo Bicarato, às 17:33 de 26.08.2015 - 1 já comentou aqui
Categoria: Pensatas

26.05.2015

:: De Bandeja ::

Meritocracia, né? Quer que desenhe? Taí: nosso 'brigado ao ilustrador australiano Toby Morris, com tradução do Catavento.


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Por Paulo Bicarato, às 14:39 de 26.05.2015 - Comentem!
Categoria: PretoNoBranco

20.04.2015

:: Tikmu'un ::

Já faz alguns dias: fazendo a checagem diária dos feeds, paro num artigo ou outro, e marco outros pra ler depois. Fiz isso com um que, por longo, li apenas o *lead*, e comentei com a querídola Rose sobre a afirmação de que *a noção de “progresso” é inexistente entre os Tikmu’un e talvez entre os povos ameríndios em geral*. Foi o estopim pra atiçar a socióloga Rose, que solta a pérola: *num tem jeito de caber uma palavra na outra*, e daí viajarmos lá pro início do século XIX, no lema do nosso *lábaro estrelado*: *Ordem e Progresso*, e todo o conceito positivista do Auguste Comte et caterva.
Não há, pros Tikmu’un, nossa noção de *progresso* -- o que o artigo explora bem. Daí pra *ordem* foi um pulo: não sou sociólogo, mas suponho que, na cosmogonia indígena, *ordem* seja apenas a harmonia natural (que inclui a *violência* das caçadas, as guerras e combates com tribos inimigas etc.) que vem a ser quebrada (ou está fadada a ser quebrada) pelo... *progresso*.
Essa é a fórmula básica, europeizada, que moldou a nossa *civilização* ocidental. Somos frutos desse modo de pensamento, cartesiano-e-reto-e-frio-e-seco. Ignoramos, em nome do *progresso* (e da *ordem*?) nossa ancestralidade, nossa relação natural com o meio ambiente, nossa espiritualidade inerente -- e nos desumanizamos.
Sei lá, mas a cada dia me convença de que tá na hora de *desprogredirmos*. Como afirma o Viveiros de Castro, *o chocalho do xamã é um acelerador de partículas* -- precisamos redescobrir o potencial nato dessa *tecnologia* adormecida.

Ah, sim, a fonte tá aqui: A “Marcha do Progresso” e os Tikmu’un -- Pesquisadora aponta refinamento das músicas e festas de grupo indígena pressionado por séculos, e destaca: sua visão de mundo pode ser alternativa à vida voraz e brutal a que nós, os “ãyuhuK”, nos habituamos
Por Paulo Bicarato, às 16:37 de 20.04.2015 - 2 comentários
Categoria: Egotrip

17.04.2015

:: Professorinha Paz & Amor ::

E chegou o momento de a Professorinha se aposentar. Mais de 30 anos de labuta diária, muitas vezes com jornadas duplas ou triplas, encarando os queridos *monstrinhos* -- numa conta-de-padaria, foram algumas dezenas de milhares de alunos. No fecebúqui, ela faz um pequeno post-registro, que gera mais de 350 curtidas e um outro tanto de comentários.

Todos carinhosos, como hão de ser, já marcados pelas saudades que a *professorinha paz&amor* vai deixar nas salas de aula -- *vamos viajar de Kombi e curtir a vida de hippie*, promete-e-cobra uma aluna, enquanto outra ameaça: *eu quero a minha professora de volta AGORA!*.

O estereótipo *paz&amor* gerou carinhosamente, por parte dos alunos, o apelido *hippira*, ou *hippie-caipira*, e até um flashmob com um grupo de alunas à caráter [ver aqui] -- sim, a própria Professorinha emprestou seu guarda-roupa pras meninas...

Mas, muito além do visual, o *paz&amor* é de caráter, e um exercício diário, que a garotada reconhece: *que continue ensinando às pessoas aquilo que todos devem saber, afinal esse é o seu dom e não precisa estar só numa sala de aula para ensinar ou aprender*, diz outra aluna.

E, conferindo os comentários que não param de chegar, se emocionando com todos, de repente ela pára em um e se derrama em lágrimas. É de um garoto dizendo que a ama e agradece por ter tido a Professorinha em sua vida, fazendo coro a praticamente todos os outros comentários. Mas ela me explica as lágrimas, provocando também as minhas: o garoto é do tipo problemático, *tranqueirinha*, que já se envolveu com drogas e otras cositas...

A cena ilustra o que sempre moveu a Professorinha: todos os seus anos de trabalho foram cumpridos como uma *missão*, no maior sentido da palavra, voltada aos mais carentes e necessitados. De todos os comentários, é exatamente o de um garoto mais carente (o que o levou a se envolver com drogas etc.?) o que mais a comove.
Isso, entre inúmeras outras qualidades, resume o porquê de eu amar a Professorinha Rose. 'Brigado, minha querídola ;-)

Por Paulo Bicarato, às 17:30 de 17.04.2015 - 1 já comentou aqui
Categoria: Etilíricas

14.04.2015

:: Banco de Reservas ::

Talvez a melhor *ilustração* -- mas real, não metafórica -- do famigerado projeto de lei 4.330, mais conhecido como a *lei da terceirização*, veio do camarada Alê Freitas. Ainda bem que ele escolheu ser cantor-compositor, titular das melhores seleções aqui da terrinha. Se fosse jogador de futebol de salão...
No meu tempo de fábrica, nas tardes de sexta, quando faltavam alguns pra completar os dez do futebol de salão, alguém sempre falava:

- Ah, chama alguns terceirizados, eles sempre querem jogar com a gente.

Não era discriminação, era uma verdade, pois os terceirizados só podiam frequentar o clube, a ADC, caso fossem convidados pelos ditos empregados diretos e com uma justificativa plausível, ainda por cima.

Triste realidade, justificar a presença de alguém com a ausência de outro alguém...

Era natural, o ensaio sobre a cegueira, de Saramago, só que vivida, não ensaiada.

Assim como era natural a vaquinha que fazíamos todo ano pra cesta de Natal do terceirizado mais próximo.

Era uma festa só, no departamento, quando um terceirizado conseguia ser efetivado.

Não sei o termo técnico correto.

Acho que a palavra efetivar tem mais a ver com temporário, mas não importa, a verdade é que deixar de ser terceirizado era uma vitória, uma alegria, motivo de festa e de mais craques amadores para o nosso tão esperado futebol de salão das sextas à tarde.

Por outro lado, minhas chances de ficar na reserva eram maiores.

Sem mais...

Afreitas
Por Paulo Bicarato, às 13:46 de 14.04.2015 - 1 já comentou aqui
Categoria: Pensatas