15.08.2014

:: Suassuna no Céu ::

Copy&paste do blog do Leonardo Boff -- charge do Dalcio.

A chegada de Ariano Suassuna no Céu

Autores: Klévisson Viana e Bule-Bule

Nos palcos do firmamento / Jesus concebeu um plano / De montar um espetáculo / Para Deus Pai Soberano / E, ao lembrar de um dramaturgo, / Mandou buscar Ariano.

Jesus mandou-lhe um convite, / Mas Ariano não leu. / Estava noutro idioma, / Ele num canto esqueceu, / Nem sequer observou / Quem foi que lhe escreveu.

Depois de um tempo, mandou / Uma segunda missiva. / A secretária do artista / Logo a dita carta arquiva, / Dizendo: — Viagem longa / A meu mestre não cativa.

Jesus sem ter a resposta / Disse torcendo o bigode: / — Eu vejo que Suassuna / É teimoso igual a um bode. / Não pode, mas ele pensa / Que é soberano e pode!

Jesus, já perdendo a calma, / Apelou pra outro suporte. / Para cumprir a missão, / Autorizou Dona Morte: / — Vá buscar o escritor, / Mas vê se não erra o corte!

A morte veio ao País / Como turista estrangeiro, / Achando que o Brasil / Era só Rio de Janeiro. / No rastro de Suassuna, / Sobrou pra Ubaldo Ribeiro.

Porém, antes de encontrá-lo, / Sofreu um constrangimento / Passando em Copacabana, / Um malfazejo elemento / Assaltou ela levando / Sua foice e documento.

A morte ficou sem rumo / E murmurou dessa vez: / — Pra não perder a viagem / Vou vender meu picinez / Para comprar outra foice / Na loja de algum chinês.

Por um e noventa e nove / A dita foice comprou. / Passando a mão pelo aço, / Viu que ela enferrujou / E disse: — Vai essa mesma, / Pois comprar outra eu não vou!

A morte saiu bolando, / Sem direção e sem tino, / Perguntando a um e a outro / Pelo escritor nordestino, / Obteve informação, / Gratificando um menino.

Ao encontrar João Ubaldo, / Viu naufragar o seu plano, / Se lembrando da imagem / Disse: — Aqui há um engano. / Perguntou para João / Onde é que estava Ariano.

Nessa hora João Ubaldo, / Quase ficando maluco, / Tomou um susto arretado, / Quando ali tocou um cuco, / Mas, gaguejando, falou: / —Ele mora em Pernambuco!

A morte disse: — Danou-se / Dinheiro não tenho mais / Para viajar tão longe, / Mas Ariano é sagaz. / Escapou mais uma vez, / Vai você mesmo, rapaz!

Quando chegou lá no Céu / Com o escritor baiano, / Cristo lhe deu uma bronca: / — Já foi baldado o meu plano. / Pedi um da Paraíba / E você trouxe um baiano.

João Ubaldo é talentoso, / Porém não escreve tudo. / “Viva o Povo Brasileiro” / É sua obra de estudo, / Mas quero peça de humor, / Que o Céu tá muito sisudo.

Foi consultar os arquivos / Pra ressuscitar João, / Mas achou desnecessário, / Pois já era ocasião / Pra ele vir prestar contas / Ali na Santa Mansão.

Jesus olhou para a Morte / E disse assim: — Serafina, / Vejo não és mais a mesma. / Tu já foste mais malina, / Tá com pena ou tá com medo, / Responda logo, menina?!

— Jesus, eu vou lhe falar / Que preciso de dinheiro. / Ariano mora bem / No Nordeste brasileiro. / Disse o Cristo: —Tenho pressa, / Passe lá no financeiro!

— Só faço que é pra o Senhor. / Pra outro, juro não ia. / Ele que se conformasse / Com o escritor da Bahia. / Se dependesse de mim, / Ariano não morria.

A morte na internet / Comprou passagem barata. / Quase morria de susto / Naquela viagem ingrata. / De vez em quando dizia: / — Eita que viagem chata!

Uma aeromoça lhe trouxe / Duas barras de cereais. / Diz ela: — Estou de regime. / Por favor, não traga mais, / Porque se vier eu como, / Meu apetite é voraz!

Quando chegou no Recife, / Ficou ela de plantão / Na porta de Ariano / Com sua foice na mão, / Resmungando: — Qualquer hora / Ele cai no alçapão!

A morte colonizada, / Pensando em lhe agradar, / Uma faixa com uma frase / Ela mandou preparar, / Dizendo: “Welcome Ariano”, / Mas ele não quis entrar.

Vendo a tal faixa, Ariano / Ficou muito revoltado. / Começou a passar mal, / Pediu pra ser internado / E a morte foi lhe seguindo / Para ver o resultado.

Eu não sei se Ariano / Morreu de raiva ou de medo. / Que era contra estrangeirismos, / Isso nunca foi segredo. / Certo é que a morte o matou / Sem lhe tocar com um dedo.

Chegou no Céu Ariano, / Tava a porta escancarada. / São Pedro quando o avistou / Resmungando na calçada, / Correu logo pra o portão, / Louvando a sua chegada.

Um anjinho de recado / Foi chamar o Soberano, / Dizendo: – O Senhor agora / Vai concretizar seu plano. / São Pedro mandou dizer / Que aqui chegou Ariano.

Jesus saiu apressado, / Apertando o nó da manta / E disse assim: — Vou lembrar / Dessa data como santa / Que a arte de Ariano / Em toda parte ela encanta.

São Pedro lá no portão / Recebeu bem Ariano, / Que chegou meio areado, / Meio confuso e sem plano. / Ao perceber que morreu, / Se valeu do Soberano.

Com um chapelão de palha / Chegou Ascenso Ferreira, / O grande Câmara Cascudo, / Zé Pacheco e Zé Limeira. / João Firmino Cabral / Veio engrossar a fileira.

E o próprio João Ubaldo / (Que foi pra lá por engano) / Veio de braços abertos / Para abraçar Ariano. / E esse falou: – Ubaldo, / Morrer não tava em meu plano!

Logo chegou Jorge Amado / E o ator Paulo Goulart. / Veio também Chico Anysio / Que começou a contar / Uma anedota engraçada / Descontraindo o lugar.

Logo chegou Jesus Cristo, / Com seu rosto bronzeado. / Veio de braços abertos, / Suassuna emocionado / Disse assim: — Esse é o Mestre, / O resto é papo furado!

Suassuna que, na vida, / Sonhou em ser imortal, / Entrou para Academia, / Mas percebeu, afinal, / Que imortal é a vida / No plano celestial.

Jesus explicou seus planos / De fazer uma companhia / De teatro e ele era / O escritor que queria / Para escrever suas peças, / Enchendo o Céu de alegria.

Nisso Ariano responde: / — Senhor, eu me sinto honrado, / Porém escrever uma obra / É serviço demorado. / Às vezes gasto dez anos / Para obter resultado.

Nisso Jesus gargalhou / E disse: — Fique à vontade. / Tempo aqui não é problema, / Estamos na eternidade / E você pode criar / Na maior tranquilidade.

Um homem bem pequenino / Com chapeuzinho banzeiro, / Com um singelo instrumento, / Tocou um coco ligeiro / Falando da Paraíba: / Era Jackson do Pandeiro.

Logo chegou Luiz Gonzaga, / Lindu do Trio Nordestino, / E apontou Dominguinhos / Junto a José Clementino / E o grande Humberto Teixeira, / Raul e Zé Marcolino.

Depois chegou Marinês / Com Abdias de lado / E Waldick Soriano, / Com um vozeirão impostado, / Cantou “Torturas de Amor”, / Como sempre apaixonado.

Veio então Silvio Romero / Com Catulo da Paixão, / Suassuna enxugou / As lágrimas de emoção / E Catulo, com seu pinho, / Cantou “Luar do Sertão”.

Leandro Gomes de Barros / Junto a Leonardo Mota, / Chegou Juvenal Galeno, / Otacílio Patriota. / Até Rui Barbosa veio / Com título de poliglota.

Chegou Regina Dourado, / Tocada de emoção, / Juntinho de Ariano, / Veio e beijou sua mão / E disse: — Na sua peça / Quero participação.

Ariano dedicou-se / Àquele projeto novo. / Ao concluir sua peça, / Jesus deu o seu aprovo / E a peça foi encenada / Finalmente para o povo.

Na peça de Ariano / Só participa alma pura. / Ariano virou santo, / Corrigiu sua postura. / Lá no Céu ganhou o título / Padroeiro da cultura.

Os artistas que por ele / Já nutriam grande encanto / Agora estando em apuros, / Residindo em qualquer canto, / Lembra de Santo Ariano / E acende vela pro santo.

Ariano foi Quixote / Que lutou de alma pura. / Contra a arte descartável / Vestiu a sua armadura / Em qualquer dia do ano / Eu digo: viva Ariano / Padroeiro da Cultura!

FIM

suassuna
Por Paulo Bicarato, às 14:12 de 15.08.2014 - Comentem!
Categoria: Biblios

14.08.2014

:: À Flor da Pele ::

aflordapele


13 de agosto, início da tarde, meu pai me liga pra comentar sobre o acidente fatídico com o candidato Eduardo Campos. Mas, além da vítima ilustre, meu pai estava preocupado se havia algum conhecido meu, colega jornalista, na equipe. Não, não conhecia nenhum deles -- Alexandre Severo, fotógrafo; Percol, assessor; Marcelo Lyra, cinegrafista; Pedrinho Valadares, assessor de campanha; Geraldo Magela Barbosa da Cunha, piloto; e Marcos Martins, piloto.

Mas logo na sequência pipocaram links pra um projeto do fotógrafo Alexandre Severo [site/portfólio aqui], que recebeu menção honrosa no prêmio Wladimir Herzog. O ensaio fotográfico fala por si, mas, além da bela apresentação a seguir, assinada por João Valadares, pensei apenas que o nome, *À Flor da Pele*, bem poderia prescindir da crase -- *A Flor da Pele* --, além da associação direta com *A Cor da Pele*. Mas tô divagando... fiquemos com o belíssimo e sensível ensaio do Alexandre.

severoÀ Flor da Pele

Nasceram sem cor, numa família de pretos. Três irmãos que sobrevivem fugindo da luz, procurando alegria no escuro. O mais novo diz que é branco vira-lata. Os insultos do colégio viraram identidade. A mãe cochicha que são anjinhos. Eles têm raça sim. São filhos de mãe negra. O pai é moreno. Estiraram língua para as estatísticas e, por um defeito genético, nasceram albinos. Negros de pele branca. A chance dos três nascerem assim na mesma família era de uma em um milhão. Nasceram. Dos cinco irmãos, apenas a mais nova é filha de outro pai. Esta é a história do contrário.

>> https://www.youtube.com/watch?v=MulO4kftPtE
Por Paulo Bicarato, às 14:08 de 14.08.2014 - Comentem!
Categoria: Coleguinhas

08.08.2014

:: Aqualung ::

Camarada recém-conhecido, e que descobrimos ser primo de outro camarada véio-de-guerra, diz que sempre me via no *escritório* (ou: parada obrigatória pós-expediente) e me associava a uma imagem antológica: nada mais nada menos que a silhueta do Ian Anderson, do Jethro Tull.

Isso é pra quem pode, né? :-)

Jethro Tull
Por Paulo Bicarato, às 15:19 de 08.08.2014 - Comentem!
Categoria: Egotrip

04.08.2014

:: Menino-Passarinho ::

passarim
Surge um moleque, do nada, e se aboleta numa árvore. Por sorte ou azar, foi escolher logo um bairro nobre, próximo a um shopping. Dão-lhe o apelido de menino-passarinho -- ele sonha em ser mágico, *daqueles de baralho*.

Mas o moleque incomoda: chegam a sugerir que *derrubem a árvore para ver se ele vai embora*, sofismam tentando esconder o olhar sanitarista (*não existe preconceito em relação a ele, o problema é a atitude que ele tem* -- que atitude?).

*De onde eu venho todo mundo vive em árvores, moça. E eu já morei em outra dessas no fim da rua. Escolhi esta aqui porque testei e nela foi mais fácil colocar minha coisas.* Mas ele também angaria a simpatia de alguns (ainda que minoria, criam um cinturão de proteção), e ganha alimentos, roupas, sobras dos outros. Com duas garrafinhas de refrigerante pela metade, ele divide seu nada com a repórter: *pode levar essa, moça; uma só já dá pra mim*.

Se ele voou do Rio pra Sampa só pra nos dar uma lição, fez muito bem feito. 'Brigado, Passarim!
*Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão...
Eu passarinho!*
>> Mário Quintana
O causo tá aqui, e o final feliz, aqui.

Segundo clichê: comentário do seu Toninho, mais conhecido como *meu pai*:
Esqueçamos tudo e fiquemos com o "final feliz".
Prova de que Deus ainda não se esqueceu do mundo é que para um "Pio de Almeida" mais um que outro morador da Veiga Filho, o "Menino-Passarinho" encontrou Marias Nilzas, Dulces Santucci, Lucianas Sodré, Marias Rosálias, Gabrielas Nunes, Eduardos Lemos e Nicks Ayer.
Estes podem ter certeza: no dia que "partirem daqui" farão parte da linha de frente da "Unidos da Veiga Filho", mas não cá em baixo. Lá em cima.
Terceiro clichê: Nicolau, Belisa, Gabi, Eduardo, Rosália, Luciana, Cauê e Tamiê: eis as mães e pães do Gabriel, o menino-passarinho -- a história tá aqui.

mães do Gabriel
Por Paulo Bicarato, às 14:56 de 04.08.2014 - Comentem!
Categoria: Etilíricas

24.07.2014

:: De: João Grilo e Chicó -- para: Ariano Suassuna ::

João GriloHá tempos eu não via uma homenagem tão bacana, belíssima mesmo -- e ainda mais nesses tempos em que se vão João Ubaldo, Rubem Alves... e, agora, o Mestre Ariano Suassuna.

Mas os atores Matheus Nachtergale e Selton Mello -- ou melhor, o João Grilo e o Chicó -- deixam provas de que a obra de um autor é muito maior do que ela mesma. Eles mostram, nos belos textos-homenagens ao Mestre Suassuna, que não apenas interpretaram as personagens (o que não lhes tira os méritos como atores, ótimos), mas incorporaram a filosofia armorial, a crítica, o bom humor e a verve do Suassuna.

Entre inúmeros outros textos, mais ou menos críticos, destaco as homenagens do João Grilo e do Chicó por terem sido duas personagens que popularizaram a obra do Mestre, com o *Auto da Compadecida*, dirigido por Guel Arraes em 2000, inspirado na peça homônima que Suassuna escreveu em 1955.


"Carta para Ariano,

Quem te escreve agora é o Cavalo do teu Grilo. Um dos cavalos do teu Grilo. Aquele que te sente todos os dias, nas ruas, nos bares, nas casas. Toda vez que alguém, homem, mulher, criança ou velho, me acena sorrindo e nos olhos contentes me salva da morte ao me ver Grilo.

Esse que te escreve já foi cavalgado por loucos caubóis: por Jó, cavaleiro sábio que insistia na pergunta primordial. Por Trepliev, infantil édipo de talento transbordante e melancólicas desculpas. Fui domado por cavaleiros de Shakespeare, de Nelson, de Tchekov. Fui duas vezes cavalgado por Dias Gomes. Adentrei perigosas veredas guiado por Carrière, por Büchner e Yeats. Mas de todos eles, meu favorito foi teu Grilo.

O Grilo colocou em mim rédeas de sisal, sem forçar com ferros minha boca cansada. Sentou-se sem cela e estribo, à pelo e sem chicote, no lombo dolorido de mim e nele descansou. Não corria em cavalgada. Buscava sem fim uma paragem de bom pasto, uma várzea verde entre a secura dos nossos caminhos. Me fazia sorrir tanto que eu, cavalo, não notava a aridez da caminhada. Eu era feliz e magro e desdentado e inteligente. Eu deixava o cavaleiro guiar a marcha e mal percebia a beleza da dor dele. O tamanho da dor dele. O amor que já sentia por ele, e por você, Ariano.

Depois do Grilo de você, e que é você, virei cavalo mimado, que não aceita ser domado, que encontra saídas pelas cêrcas de arame farpado, e encontra sempre uma sombra, um riachinho, um capim bom. Você Ariano, e teu João Grilo, me levaram para onde há verde gramagem eterna. Fui com vocês para a morada dos corações de toda gente daqui desse país bonito e duro.

Depois do Grilo de você, que é você também, que sou eu, fui morar lá no rancho dos arquétipos, onde tem néctar de mel, água fresca e uma sombra brasileira, com rede de chita e tudo. De lá, vê-se a pedra do reino, uns cariris secos e coloridos, uns reis e uns santos. De lá, vejo você na cadeira de balanço de palhinha, contando, todo elegante, uma mesma linda estória pra nós. Um beijo, meu melhor cavaleiro.

Teu,
Matheus Nachtergale"
.::|::."E o Brasil ficou mais pobre.
E triste.
Ariano, poeta entendedor do Brasil profundo.
Defensor de nossa riqueza cultural e emocional.
Sua obra descomunal fica para sempre.
Tive a honraria graúda de dar vida a um de seus passarinhos (era como se referia a seus personagens queridos).
Chicó fui eu, Chicó é Ariano, Chicó é tu.
Chicó e João Grilo têm morada no coração dos brasileiros.
E na minha mente e coração sempre estarão gravadas as palavras sublimes que proferi em O Auto da Compadecida:

"Cumpriu sua sentença. Encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca do nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados."

Celebre-se o homem, celebre-se o brasileiro, celebre-se o artesão das palavras.
E se um dia perguntarem se tudo que criou foi exatamente assim como ele idealizou, imaginarei Ariano dizendo com um sorriso de menino nos lábios: "Não sei, só sei que foi assim.""

Selton Mello


No vídeo, trecho do filme com o julgamento do João Grilo, que tem por advogada Nossa Senhora:



Por Paulo Bicarato, às 13:33 de 24.07.2014 - Comentem!
Categoria: Biblios

15.07.2014

:: Balada para un Loco ::

Astor Piazzolla & Amelita Baltar - *Balada para un loco*

Letra e versão em português aqui.

Por Paulo Bicarato, às 14:30 de 15.07.2014 - Comentem!
Categoria: Pensatas

13.06.2014

:: Walk Again ::

Miguel Nicolelis: o pontapé foi apenas o primeiro passo. Conheça os bastidores do projeto Walk Again.


Por Paulo Bicarato, às 14:34 de 13.06.2014 - Comentem!
Categoria: Primeira Edição

23.05.2014

:: Ô, fôia, quéisso? ::

Tem colega aqui que jura que é *apenas* um errinho, um clique errado na hora de publicar. A Pollyana concorda, mas eu fico mêsss é com o sifonáptero na parte posterior do pavilhão auricular. Cumãssim?

Matéria publicada no site (não vi na edição impressa, recebo a edição regional), aqui, com data de ontem, 23/5, quando salvei a tela, traz materinha recauchutada e deixa explícita a data original: 29/5/2001 -- sim, isso mêss: 13 anos atrás!

folha01


Fui lá nos arquivos digitais da própria fôia, aqui -- a data é da edição impressa, 30/5/2001:

folha02


Sei lá, entendem? Tirem suas conclusões.

O post original do feicebúqui tá aqui, com a tela salva no dia 20/5.
Por Paulo Bicarato, às 15:56 de 23.05.2014 - Comentem!
Categoria: PretoNoBranco

22.04.2014

:: Manual do Polemista de Plantão ::

Segundo as lições de tio rei, a fórmula não é muito complicada, mas é preciso atenção pa sincronizar todos os elementos de forma a parecer (só parecer) algo coerente e uniforme. Vamos lá:
- odeie as esquerdas, todas! se você teve a desventura de nascer canhoto, aplique o cilício em penitência eterna, e esforce-se por escrever com a mão direita (isso vai entortar ainda mais sua escrita);
- seja politicamente correto, mas ao contrário: destile toda sua verborragia contra mulheres, gays, minorias, índios, negros, pobres, o papa, as mães dos esquerdistas, as avós dos esquerdistas, o Lula (pai dos esquerdistas), qualquer coisa que remeta à cor vermelha, qualquer coisa que fale em igualdade, fraternidade;
- cultue a tradição, a família e a propriedade como se vivêssemos no século XIV, por aí;
- vá aos EUA pelo menos uma vez por ano, pra se desintoxicar desse paisinho subdesenvolvido em que teve o azar de nascer e é condenado a viver -- e exiba, orgulhoso, como você consumiu e consumiu e consumiu (você não *gasta*, *consome*) em um monte de tanqueiras desnecessárias e passeios insossos;
- eleja uma crise por mês -- na falta de opção, ponha sempre a culpa no preço do tomate: é batata!;
- em seus textos, deixe pra lá a coerência, inclusive a formal: qualquer relação causal entre os fatos (negativos) e os culpados (sempre o governo, claro) é absolutamente dispensável -- a falácia é sua arma mais poderosa;
- destile ódio e não poupe adjetivos, principalmente exaltando seu rico vocabulário (ninguém precisa entender mesmo);
- pode deixar explícito seu insucesso amoroso, e revele que sua adolescência foi frustrada (porque sempre pautada pela *razão*, deixando as *paixões*, ora, pros fracos e sensíveis) -- assim você se exime de culpa e se torna vítima do aparelhamento ideológico a que fomos submetidos;
- seja chato, babaca, imbecil, e comemore as pedradas com o gozo de quem não sabe e nem quer aprender a gozar (é uma gozação pra com os outros e pra consigo mesmo, entende?).
Alguém mais tem dicas?

P.S.: post sujeito a atualizações permanentes, devido à *riqueza* do tema...
Por Paulo Bicarato, às 16:02 de 22.04.2014 - 1 já comentou aqui
Categoria: PretoNoBranco

27.03.2014

:: Pegue sua Toalha ::

Se vai ter água, é mero detalhe.
toalha_dont_panic.jpg
*A toalha é um dos objetos mais úteis para um mochileiro interestelar. Em parte devido a seu valor prático: você pode usar a toalha como agasalho quando atravessar as frias luas de Beta de Jagla; pode deitar-se sobre ela nas reluzentes praias de areia marmórea de Santragino V, respirando os inebriantes vapores marítimos; você pode dormir debaixo dela sob as estrelas que brilham avermelhadas no mundo desértico de Kakrafoon; pode usá-la como vela para descer numa minijangada as águas lentas e pesadas do rio Moth; pode umedecê-la e utilizá-la para lutar em um combate corpo a corpo; enrolá-la em torno da cabeça para proteger-se de emanações tóxicas ou para evitar o olhar da Terrível Besta Voraz de Traal (um animal estonteantemente burro, que acha que, se você não pode vê-lo, ele também não pode ver você -- estúpido feito uma anta, mas muito, muito voraz); você pode agitar a toalha em situações de emergência para pedir socorro; e naturalmente pode usá-la para enxugar-se com ela se ainda estiver razoavelmente limpa.

Porém o mais importante é o imenso valor psicológico da toalha. Por algum motivo, quando um estrito (isto é, um não-mochileiro) descobre que um mochileiro tem uma toalha, ele automaticamente conclui que ele tem também escova de dentes, esponja, sabonete, lata de biscoitos, garrafinha de aguardente, bússola, mapa, barbante, repelente, capa de chuva, traje espacial, etc, etc. Além disso, o estrito terá prazer em emprestar ao mochileiro qualquer um desses objetos, ou muitos outros, que o mochileiro por acaso tenha “acidentalmente perdido”. O que o estrito vai pensar é que, se um sujeito é capaz de rodar por toda a Galáxia, acampar, pedir carona, lutar contra terríveis obstáculos, dar a volta por cima e ainda assim saber onde está sua toalha, esse sujeito claramente merece respeito.*
Isso tudo porque acabamos de receber um aviso:
*Povo da Terra, atenção, por favor.
Aqui fala Prostetnic Vogon Jeltz, do Conselho de Planejamento do Hiperespaço Galático. Como todos vocês certamente já sabem, os planos para o desenvolvimento das regiões periféricas da Galáxia exigem a construção de uma via expressa hiperespacial que passa pelo seu sistema estelar e infelizmente o seu planeta é um dos que terão que ser demolidos. O processo levará pouco menos de dois minutos terrestres. Obrigado.*

[terror!]

*Esta surpresa é injustificável. Todos os planos do projeto, bem como a ordem de demolição, estão em exposição no seu departamento local de planejamento, em Alfa Centauro, a 50 dos seus anos terrestres, e portanto todos vocês tiveram muito tempo para apresentar qualquer reclamação formal, e agora é tarde demais para criar caso.*

[mais terror, e alguém consegue enviar uma mensagem aos Vogons]

*Como assim, nunca estiveram em Alfa Centauro? Ora bolas, humanidade, fica só a quatro anos-luz daqui! Desculpem, mas se vocês não se dão ao trabalho de se interessar pelas questões locais, o problema é de vocês.*
Tô eu relendo, depois de uns bons anos, *O guia do mochileiro das galáxias*. Quando do informe e comentários do digníssimo Prostetnic Vogon Jeltz, do Conselho de Planejamento do Hiperespaço Galático, não consegui deixar de associar com a atual situação que vivemos com relação ao abastecimento de água na Grande São Paulo, e as brilhantes *propostas* do sr. governador -- o projeto existe, tá logo ali em Alfa Centauro, e a culpa é nossa por não termos tido interesse em conhecê-lo...

Baseado na prestigiosa colaboração do brôu Marcelo], a conclusão:
Alpha Tauri, ou α Tau, ou الدبران, ou ainda Aldebaran, fonte de energia de 39 galáxias, vai vendo, quase impotente, sua capacidade de produção e distribuição caindo a cada dia, por absoluta falta de competência do Comitê Estelar.

douglas-adams-google-doodle-110313.jpg
Por Paulo Bicarato, às 17:02 de 27.03.2014 - Comentem!
Categoria: Primeira Edição

19.02.2014

::

Direto de Passos (MG), mas via Sampa, o copoanheiro Rai manda a homenagem pra Dona Çote, tia dele -- e, com certeza, *tia* de muita gente por lá... As Minas, e o mundo, ficam menos doces, mas deixam doces lembranças.

Tacho_a.jpg

Tacho_b.jpg

Tacho_c.JPG
:: Dona Çote ::

Um trago amargo
inunda o mundo
a cada vez que
morre
uma doceira
em Minas.
Ficam órfãos os filhos,
sobrinhos, netos, bisnetos,
as frutas e os tachos.
Perdem-se todos
os pontos.
Perdem-se as línguas.
Amolecem-se
os mármores
de cortar pedaços.
Choram torneiras
para dentro dos sacos
eternamente brancos
de se lavar
cidras amarguradas.
Suspendem-se
descalços
os pés de todos
os moleques.
Dessaborizam-se
os sonhos infantis.
Mela-se o voo das
abelhinhas,
perdidas,
em derredor.
Atordoam-se as
chaminés,
sufocam-se as
fornalhas e
entristecem-se as
escumadeiras.
Entardecem-se os dias
sem doçuras.
Deus devia
deixar a elas
que também
vivessem para
sempre
aqui na terra.
Iguais as
lembranças suas.
Por Paulo Bicarato, às 14:12 de 19.02.2014 - Comentem!
Categoria: Etilíricas

29.01.2014

:: Emborná ::

Eis meu alforje ou emborná ou picuá ou matula ou... e seus adereços:
- bottom *criei, tive como*: presente do Felipe Fonseca
- miniaturas MetaRec e open hardware, feitas em impressora 3D: presentes do Otávio Savietto
- o próprio alforje, direto de São Thomé das Letras: presente do Dalmo Garcia
- graffiti ao fundo: obra do Tainã Moreno

Gracias, mutchas gracias, camaradas! :-)

matula.jpg
Por Paulo Bicarato, às 09:47 de 29.01.2014 -
Categoria: Linux Vida Open Source

08.01.2014

:: Valeu, 2013! ::

É, eu fui um dos que não viam a hora de 2013 terminar. A impressão é a de que a Copa do Mundo chegaria, mas o ano teimava em continuar ali, reservando algumas pegadinhas até os últimos segundos -- ou depois, ainda.

Mas quero me redimir e pedir desculpas e, mais, agradecer a 2013: foi um ano difícil, sim, mas um ano de muito aprendizado, de muitas alegrias, de emoções várias. O ano, o mês, o dia são criações arbitrárias (por mais que sejam regidos por rotações e translações etc.), e servem como marcos pra renovação constante, pra esperança ganhar fôlego, como disse o Drummond.

Em resumo: valeu, 2013! E que 2014 venha com tudo, como novos e diferentes desafios, alegrias, emoções -- e surpresas!
Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão. 


Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez com outro número e outra vontade de acreditar que daqui para adiante vai ser diferente.

Para você, desejo o sonho realizado. O amor esperado. 
A esperança renovada. 


Para você, desejo todas as cores desta vida. Todas as alegrias que puder sorrir, todas as músicas que puder emocionar. 


Para você neste novo ano, desejo que os amigos sejam mais cúmplices, que sua família esteja mais unida, que sua vida seja mais bem vivida.

Gostaria de lhe desejar tantas coisas. Mas nada seria suficiente para repassar o que realmente desejo a você. Então, desejo apenas que você tenha muitos desejos. Desejos grandes e que eles possam te mover a cada minuto, rumo à sua felicidade!

- Carlos Drummond de Andrade
Por Paulo Bicarato, às 13:32 de 08.01.2014 - Comentem!
Categoria: Pensatas

03.01.2014

:: Em 2014... ::

Sei que não devia me assustar mais com as artimanhas e estratégias publicitárias e marquetísticas (até porque, a essa altura, tô mais pra publicitário do que pra jornalista...), mas certas coisas incomodam. E muito. Quando um verbo tão belo como *compartilhar* passa a ser sinônimo de sucesso comercial feicebuquiano -- como li na *análise* de um expert, que ironizou o sentido fraterno e franciscano do termo --, ou quando outro verbo, *desapegar*, também é totalmente subvertido e vira mote pra um site de vendas online, penso que são sinais de que a inversão de valores tá chegando a um ponto insustentável.

Nesse mundinho consumista, em que tudo e todos são mercadorias e em que a competitividade vira agresssividade e é estimulada a níveis fatais, palavras como *ganhar* e *perder* deixam de ser apenas antagônicas -- a semântica se extrapola e, de verbos, passam a ter contornos adjetivados: a primeira, sinônimo de sucesso; a segunda, de fracasso.

Mas eis que me deparo com um textinho do Alexandre Caliman que me serve de alívio:
Desejo que o próximo ano seja um ano de muitas perdas, pra mim e pra você. Vamos perder tempo jogando conversa fora. Vamos perder a pressa. Vamos perder a culpa, o medo de amar. Vamos perder a cabeça, nos apaixonar todos os dias. Vamos perder a vergonha. Perder o juízo quando o coração pedir, desejar, implorar... Vamos perder nossa certezas, o ódio, o preconceito, as "frescuras", os melindres, o ego. Vamos perder tudo aquilo que a gente sabe que é bom perder (e a gente sabe)! E... quando a gente perder o que não quer... vamos perder a mania de achar que somos perdedores. A gente não perde nada, porque nada, nem ninguém, nos pertence de fato...
Faço minhas as palavras do Caliman. E, nessa linha, gostaria de complementar, reforçando o mantra que rezo todas as manhãs e somando aos votos de saúde&paz&amor e ao meu eterno agradecimento por tudo o que aprendi e vivo aprendendo todos os dias:
Desejo, sim, de coração, que eu e todos ganhemos muito esse ano. Mas como ninguém ganha nada de graça, e nada vem de graça, nem o pão nem a cachaça, que eu tenha a graça de alimentar a cada dia minha fé e minha esperança em dias melhores, em um mundo mais justo e humano. Que eu tenha coragem pra encarar as adversidades, aliada à sabedoria de estar sempre pronto a aprender mais e à humildade de reconhecer os meus limites. E que possamos, todos os dias, desfrutar e espalhar e compartilhar a alegria -- e o prazer -- de saber ver a beleza de um sorriso, de um abraço, de brincar e de não se levar a sério demais.
Por Paulo Bicarato, às 15:55 de 03.01.2014 - Comentem!
Categoria: Pensatas

02.01.2014

:: Back to the 90's ::

alfa_retro.jpg


Tá estranhando essa imagem? Pois veja então ela *animada*, cheia de gifzinhos e otras cositas típicas lá dos anos 90, início dos 2000, quando o Geocities ainda imperava. O resultado é do projeto Deleted City, de arqueologia digital, do designer Richard Vigjen. Se quiser ver como seria o seu site naqueles moldes, confira aqui.

[Confira a matéria e a entrevista completas com o idealizador do projeto na revista SeLeCt]

Por Paulo Bicarato, às 15:41 de 02.01.2014 - Comentem!
Categoria: Tecnologices