:: Bricolagem musical ::

Há tempo, muito tempo,
estou longe de casa.
Aliás, minha casa não é minha
(será meu esse lugar?).
Sou apenas um rapaz (nem tão rapaz) latinoamericano, sem dinheiro no banco.
Mas vou levando a vida assim,
levando pra quem me ouvir:
certezas e esperanças pra trocar
por dores e tristezas que,
bem sei,
um dia ainda ainda irão findar.
Se trago as mãos distantes do meu peito
É que há distância entre intenção e gesto
E se o meu coração nas mãos estreito,
Me assombra a súbita impressão de incesto.
Tudo muda.
Mas não muda meu amor.
Por mais longe que eu me encontre.
Por que se chamavam homens,
também se chamavam sonhos,
e sonhos não envelhecem.
Já sei que já não sou, nem sei quem sou.
Abraça essa ternura de louco que há em mim.
Derrete com teu beijo a pena de viver.
Sob a luz da lua
mesmo com sol claro
não importa o preço que eu pague
meu negócio é viver.
E…
o mundo lá sempre a rodar.
Em cima dele, tudo vale.
Quem sabe isso quer dizer amor.
Estrada de fazer o sonho acontecer!

Porque sim: sim, eu posso sonhar e querer tudo, tudo outra vez!

:: Resistência ::

Salve, Sosaci — Sociedade dos Observadores de Saci!
Cultura e resistência, sempre!
 
Manifesto Antropófago revisitado
​Qualquer semelhança com o Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade, do ano de 1928, não se trata de mera coincidência!
 
Só o saci nos une. Sacialmente. Etnicamente. Culturalmente. No ano 449 da deglutição do Bispo Sardinha em Piratininga, e 75 anos após o lançamento do Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade, os saciólogos desta terra vão, aos pulos, convergindo em torno da única lei justa do mundo globalizado. O saci resgata nossa identidade, nossas raízes, o xis da questão tupi. Contra todas as catequeses do Império só nos interessa o que não é deles. A lei do saci.
 
Estamos fatigados de todos os colonialismos travestidos de drama roliudiano. O cinema americano devorando corações e mentes. Demente. No país onde dá status ter casa em Maiami e comprar em sales com 20% off. Estacionar no valet parking e pedir comida delivery. Por isso fazemos eco ao brado oswaldiano, contra todos os importadores da consciência enlatada. Oswald ainda grita, resquícios do nheengatú ecoando ao longe. Nunca admitimos o nascimento de Jeca Tatu entre nós. Só que o Jeca de Lobato resiste. Ele resiste ao Pato Donald, aos Poquemons, ao Raloim, às bruxas do Bush.
 
O instinto do Saci. Só Saci. Um Saci contra as histórias do homem que começam no Cabo Canaveral. A fixação do progresso por meio de catálogos e aparelhos de televisão. E os transfusores de sangue. Das veias abertas da América Latina. Antes dos norte-americanos ocuparem o Brasil, o saci já tinha descoberto a felicidade. Definida pela sacizidade de um antropófago, o próprio Saci. A transfiguração da Abóbora em carne seca. Antropofagia. Absorção do inimigo abóbora.
 
A nossa independência já foi proclamada no 7 de Setembro, em São Luís do Paraitinga. Expulsamos o imperialismo travestido de globalização hegemônica. Contra a realidade social, vestida e opressora, cadastrada em Washington e Londres, a realidade sem complexos e sem penitenciárias do saciarcado de Pindorama.
 
São Luis de Paraitinga, 31 de outubro de 2003, ano da deglutição final da abóbora
 

:: Etilíricas ::

Fala, Xico Sá: “Procura-se um comunista, desesperadamente”.

É, acho que conheço um dos últimos sobreviventes, mas o cara tá longe… saudades dos bons proseios em Parahytinga, São Luiz, sob os olhares sacizísticos, fraternalmente ateus ao lado da minha formação católica, sempre recheados de citações de escritores os mais variados e explanações etimológicas que iam do latim ao grego e ao russo, passando pelo alemão e recaindo nos mineirismos causísticos (como de fato é mêsssm!), e, etilírica e inevitavelmente, como se pode deduzir, outros saciológos da mesma laia, ou de outras várias, pretinho-branco: saravá!, se juntavam pra poetar e discutir a inevitável implantação da utopia nas terras brasilis, numa Ursal de veias abertas de hermanos multifacetados.

Isso sob o olhar nipônico sempre atento, silente e observador, de quem sabe mais do que diz, e com as sempre precisas observações da professora iluminada e iluminosa, mestra em contextualizar as visões na realidade concreta e sensível das nossas gentes.

O mundo dá voltas, como numa partitura em espiral grafitada num poste que reproduz, só pra quem sabe e pode ver, a música-tema da revolução, um hermetismo acessível a poucos iniciados mas contraditoriamente aberto a mentes abertas (?)…

(Só não vou citar nomes pra não correr o risco de ser um entreguista, alcaguete, e dar de bandeja pro coiso que nos persegue.)

:: Gentileza gera gentileza ::

Das voltas que o mundo dá. Ou: sincronicidades inesperadas e fortuitas do dia-a-dia.
Há algumas semanas, a Rose, enquanto fazia uma caminhada, achou uma carteira de habilitação na rua. Fez o mínimo que se poderia esperar dela: tirou uma foto e publicou no feicebúqui, perguntando se alguém conhecia o rapaz. Em poucos dias, a irmã dele fez contato e veio o desfecho: a carteira foi entregue.

Causo simples, não haveria nada demais em uma atitude dessas, mas gratificante ver como pequenas atitudes ainda servem como exemplo do poder que as redes sociais têm (ainda!) de fazer o bem e aproximar pessoas.

Só que… a história não acaba aí. Se não bastasse o desfecho feliz, o melhor estava por vir. Mais uns dias e eis que ela recebe uma mensagem inbox:

“Olá, Rose! Sou o pai do Ricardo. Fiquei muito satisfeito humano com a sua atitude. Ficamos  surpresos. Precisamos de pessoas exemplares assim. obrigado. Abçs.”

Pra resumir, segue o diálogo:

Gentil: “Olá Rose! Conheço um tal de Toninho Bicarato que morava em São Paulo. Por acaso é seu parente? Abç.”

Rose: “Olá, Gentil! Que bom que consegui localizar o Ricardo e deu tudo certo. Seu Toninho Bicarato é meu sogro, mas infelizmente ele faleceu já tem quatro anos. Mas de onde vcs se conheceram? É que os filhos dele amam saber das pessoas que conheceram seu Toninho Bicarato.”

Gentil: “Ok, Rose! Lamento. Se for esse Toninho, ele era maestro de um grupo de canto numa igreja em Ermelino Matarazzo. Depois ele se mudou para Aparecida. Vamos ver se é esse.”

Rose: “É ele mesmo, nosso querido Toninho Bicarato.”

Na sequência, o Gentil disse que gostaria muito de nos conhecer, e prometeu que assim que possível, virá fazer uma visita — que, espero, possa acontecer em breve. São causos como esse que me dão a certeza de que não há coincidências, e o acaso atua onde e quando menos se espera. O sr. Gentil conheceu meu pai em Ermelino Matarazzo, Zona Leste de SP, há pelo menos uns 55 anos. Hoje ele mora em São Bento do Sapucaí. E o documento achado na rua se deu em Jacareí.

Fica, além do gesto e da atitude da Rose, e da simpatia e reconhecimento do sr. Gentil, a constatação de que meu pai, o seu Toninho, e minha mãe, dona Benê, deixaram marcas e ótimas lembranças por onde passaram. Mais uma prova disso foi o ocorrido há alguns anos em SP, quando conheci inesperadamente a Chris Ramsthaler, numa feliz noite provocada pelo camarada Tuia, e intermediada (sem nenhum prévio acordo) pelo nosso querido menestrel Déo. A bênça, Papa e Mama, e segue o causo: “Acasos (?)”.