:: Amanda e Paula, e o preconceito ::

Viajar é sempre bom. Acho que isso é incontestável. Mas, claro, cada um vê as viagens com (ou a partir de) seu próprio olhar. Tive o privilégio de ter feito boas, ainda que não bastantes, viagens, por esse Brasilzão. Muitas delas em companhia da querida Rose, outras sozinho, uma inédita e inesperada com meu pai, pros Lençóis Maranhenses. De todas, lembranças deliciosas, cheiros e sabores únicos, paisagens e momentos inenarráveis.

Mas o que fica são as pessoas. Conhecer gentes é algo transcendental, que vai além das paisagens e da arquitetura e da História: as histórias e causos das gentes, a linguagem peculiar e os sotaques, os costumes, as religiões. Tivemos a oportunidade de conhecer (parte de) seis estados do Nordeste, contando as capitais e algumas cidades do interior: Maceió (Alagoas), Salvador (Bahia), João Pessoa (Paraíba), Teresina (Piauí), Natal (Rio Grande do Norte) e Aracaju (Sergipe). Em todas as cidades, um lugar sempre foi obrigatório: o Mercado Central.

Cada um com suas cores e cheiros e comidas típicas, o linguajar próprio, o espectro de um local de convivência que o visitante tenta, mas não consegue absorver. O mistério. Sim, nenhum deles revela todos os seus segredos: há de tudo ali, além dos comes e bebes. Há conhecimentos ancestrais, raízes e drogas benfazejas ou ainda com outros intuitos, histórias e causos que já não se sabem reais ou imaginários. Vida.

Mas sempre, em todos os lugares, há outro local especial: o bar. Depois de visitar igrejas, monumentos, lugares históricos, praias paradisíacas, é onde você para pra relaxar e rever e repensar tudo o que viu. E aqui entra uma personagem fundamental, muitas vezes desprezada: o garçom ou a garçonete que te atende.

Acho que quase sempre demos sorte nesse quesito. Sempre foi normal errar de bar e acertar de garçom, ou vice-versa. Mas em boas e várias ocasiões e lugares, acertamos na loteria, e aqui chego ao ponto, depois desse “breve” intróito, e instigado pela Rose por um “detalhe” nada desprezível lembrado por ela.

O Nordeste é um dos roteiros mais procurados no Brasil, seja por brasileiros ou estrangeiros. Tudo o que citei acima são detalhes que atiçam essa curiosidade, natural. Só que a mesma indústria do turismo, que movimenta a economia etc., realimenta as nossas mais perversas tradições e preconceitos. Ilustrando: em Aracaju, adotamos e fomos adotados por um barzinho “de turistas”. Perto da nossa pousada, o barzinho era parada obrigatória depois das caminhadas e passeios do dia. Éramos recebidos com festa pelos(as) atendentes, e particularmente pela Amanda e pela Paula, duas garotas lindas e simpáticas, cativantes, além dos rapazes.

(Um deles, de quem não me lembro o nome — desculpe-me, camarada — era mais reservado e observador. Uma noite me abordou, quase “na lata”: “eu quero essa sua bata”. Disse apenas que era Pai-de-Santo, e que queria me fazer algo. Na noite seguinte, entreguei a bata e ele e, um ou dois dias depois, ele me veio com um patuá, feito especialmente pra mim, sem pedir nada em troca. E entregou a mim com uma cerimônia que, confesso, me assustou um pouco, e me perturbou um pouco. Mas me alegrou, agradeci de coração. No outro dia, na praia, dou de cara numa barraquinha com uma bata idêntica à que dei a ele. Nunca entendi muito bem o ocorrido. Mas sou um pouco Riobaldo: “Hem? Hem? O que mais penso, testo e explico: todo-o-mundo é louco. O senhor, eu, nós, as pessoas todas. Por isso é que se carece principalmente de religião: para se desendoidecer, desdoidar. Reza é que sara loucura. No geral. Isso é que é a salvação-da-alma… Muita religião, seu moço! Eu cá, não perco ocasião de religião. Aproveito de todas. Bebo água de todo rio… Uma só, para mim, é pouca, talvez não me chegue. Rezo cristão, católico, embrenho a certo; e aceito as preces de compadre meu Quelemém, doutrina dele, de Cardéque. Mas, quando posso, vou no Mindubim, onde um Matias é crente, metodista: a gente se acusa de pecador, lê alto a Bíblia, e ora, cantando hinos belos deles. Tudo me quieta, me suspende. Qualquer sombrinha me refresca. Mas é só muito provisório. Eu queria rezar — o tempo todo. Muita gente não me aprova, acham que lei de Deus é privilégios, invariável. E eu! Bofe! Detesto! O que sou? — o que faço, que quero, muito curial. E em cara de todos faço, executado. Eu não tresmalho!”).

Paula, Rose e Amanda

Mas voltemos à Amanda e à Paula. Numa noite, talvez pelo movimento mais sossegado no bar ou sei-lá-por-quê, ou pela hora do fechamento, convidamos as duas pra tomar a saideira com a gente. Elas negaram veementemente, explicando que o casal dono do bar, “gente do sul”, proibiu todos os funcionários de beber no bar. Por quê? Porque os clientes (turistas) não queriam beber no mesmo copo dos funcionários (segundo a tese imbecil dos donos). Eu e a Rose não conseguimos entender essa pretensa lógica e, mesmo contrariados, preferimos não insistir e nem comprometer o emprego das meninas (até porque, na verdade, os donos nem ficavam por lá — mas sempre há os olheiros…).

Tudo isso pra ilustrar só uns detalhes: a importância e a riqueza e tudo o mais que o Nordeste representa pra nós. Parafraseando e me apropriando do Poetinha Vinicius de Moraes, no “Samba da Bênção”: “és tantos como / o meu Brasil de todos os santos”. E hoje, vendo os nordestinos sendo “culpados” por termos uma segunda chance contra a barbárie, daqui a poucos dias, só me resta agradecer e louvar essa bênção que é esse Brasilzão, sem diferenças, sem preconceitos.

Esse é um pequeno exemplo do preconceito e da intolerância que seguem em voga no Brasil, e tristemente ganham mais espaço a cada dia. A Casa Grande & Senzala do Darcy Ribeiro estão aí, pra quem quiser ver, a qualquer momento, ao vivo e em cores e nas telas da Globo. E na iminência de um governo racista, misógino, preconceituoso etc., é de se lamentar que essas práticas, na verdade, sempre existiram e persistem por esse nosso Brasil. Mais uma vez, apelo ao filósofo Riobaldo: “explico ao senhor, o diabo vive dentro do homem, os crespos do homem — ou é o homem arruinado, ou o homem dos avessos. Solto, por si, cidadão, é que não tem diabo nenhum. Nenhum! — é o que digo. (…) O diabo na rua , no meio do redemunho”. As lições do Riobaldo vêm, não por acaso, lá dos sertões secos do Nordeste. Onde, também, se escondem veredas de esperança: “Estremeço. Como não ter Deus?! Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há de a gente, perdidos no vai-vem, e a vida é burra. É o aberto perigo das grandes e pequenas horas, não se podendo facilitar — é todos contra os acasos. Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois no fim dá certo”.

Segue, enfim, um texto atribuído a José Barbosa Júnior, logo após a eleição de Dilma Rousseff, em 2010, em resposta a uma estudante de Direito que, à época, tascou no tuíter: “Nordestino não é gente. Faça um favor a SP, mate um nordestino afogado!”.

“Os nordestinos devem ficar quietos! Cale a boca, povo do Nordeste!

Que coisas boas vocês têm pra oferecer ao resto do país?

Ou vocês pensam que são os bons só porque deram à literatura brasileira nomes como o do alagoano Graciliano Ramos, dos paraibanos José Lins do Rego e Ariano Suassuna, dos pernambucanos João Cabral de Melo Neto e Manuel Bandeira, ou então dos cearenses José de Alencar e a maravilhosa Rachel de Queiroz?

Só porque o Maranhão nos deu Gonçalves Dias, Aluisio Azevedo, Arthur Azevedo, Ferreira Gullar, José Louzeiro e Josué Montello, e o Ceará nos presenteou com José de Alencar e Patativa do Assaré, e a Bahia, em seus encantos, nos deu como herança Jorge Amado, vocês pensam que podem tudo?

Isso sem falar no humor brasileiro, de quem sugamos de vocês os talentos do genial Chico Anysio, do eterno trapalhão Renato Aragão, de Tom Cavalcante e até mesmo do palhaço Tiririca, que foi eleito o deputado federal mais votado pelos… pasmem… PAULISTAS!!!

E já que está na moda o cinema brasileiro, ainda poderia falar de atores como os cearenses José Wilker, Luiza Tomé, Milton Moraes e Emiliano Queiróz, o inesquecível Dirceu Borboleta, ou ainda do paraibano José Dumont ou de Marco Nanini, pernambucano.

Ah! E ainda os baianos Lázaro Ramos e Wagner Moura, que será eternizado pelo “carioca” Capitão Nascimento, de Tropa de Elite, 1 e 2.

Música? Não, vocês nordestinos não poderiam ter coisa boa a nos oferecer, povo analfabeto e sem cultura…

Ou pensam que teremos que aceitar vocês por causa da aterradora simplicidade e majestade de Luiz Gonzaga, o Rei do Baião? Ou das lindas canções de Nando Cordel e dos seus conterrâneos pernambucanos Alceu Valença, Dominguinhos, Geraldo Azevedo e Lenine? Isso sem falar nos paraibanos Zé e Elba Ramalho e do cearense Fagner…

E não poderia deixar de lembrar também da genial família Caymmi e suas melodias doces e baianas a embalar dias e noites repletas de poesia…

Ah! Nordestinos…

Além de tudo isso, vocês ainda resistiram à escravatura? E foi daí que nasceu o mais famoso quilombo, símbolo da resistência dos negros à força opressora do branco que sabe o que é melhor para o nosso país? Por que vocês foram nos dar Zumbi dos Palmares? Só para marcar mais um ponto na sofrida e linda história do seu povo?

Um conselho, pobres nordestinos. Vocês deveriam aprender conosco, povo civilizado do sul e sudeste do Brasil. Nós, sim, temos coisas boas a lhes ensinar.

(…)

Minha mensagem então é essa: – Calem a boca, nordestinos!

Calem a boca, porque vocês não precisam se rebaixar e tentar responder a tantos absurdos de gente que não entende o que é, mesmo sendo abandonado por tantos anos pelo próprio país, vocês tirarem tanta beleza e poesia das mãos calejadas e das peles ressecadas de sol a sol.

Calem a boca, e deixem quem não tem nada pra dizer jogar suas palavras ao vento. Não deixem que isso os tire de sua posição majestosa na construção desse povo maravilhoso, de tantas cores, sotaques, religiões e gentes.

Calem a boca, porque a história desse país responderá por si mesma a importância e a contribuição que vocês nos legaram, seja na literatura, na música, nas artes cênicas ou em quaisquer situações em que a força do seu povo falou mais alto e fez valer a máxima do escritor: “O sertanejo é, antes de tudo, um forte!”

Que o Deus de todos os povos, raças, tribos e nações, os abençoe, queridos irmãos nordestinos!”

:: Esperança x ódio ::

Professora por mais de 30 anos, reconhecida e querida por incontáveis ex-alunos, a Rose estava sossegada no barzinho quando, assim como em inúmeras ocasiões, ouve um alegre e extrovertido “fêssora! Há quanto tempo!”.

É uma moça de seus 20 e poucos anos, acompanhada do namorado. Um casal bonito. Abraços e beijos efusivos, e a moça faz as apresentações: “foi a melhor professora de História que tive”, diz ao rapaz, seguindo-se elogios e perguntas de ambas as partes, como em qualquer reencontro.

Na primeira deixa, porém, o rapaz dispara: “professora de História, né? Só pode ser comunista, vocês odeiam a burguesia, olha ali minha HB20, é minha, vão querer tirar de mim?”.

Ela, naturalmente assombrada com a agressividade do cara, inversamente oposta à alegria da moça, só retruca: “#elenão!”. O cara levanta ainda mais a voz, a namorada fica totalmente sem jeito, o clima fica tenso.

Seguem-se rápidos, mas longos e quase apavorantes, minutos. A agressividade verbal do rapaz é absolutamente gratuita, (pretensamente) baseada no único fato de se tratar de uma professora — de História.

O diálogo é impossível. Depois de vomitar sua ignorância e destilar seu ódio e intolerância, finalmente ele se retira, com os olhos em fúria e babando seu próprio veneno, pra vergonha da moça.

Ficam a perplexidade e o assombro, a tristeza de constatar que essa doença social e política está se espalhando como epidemia incontrolável.

Ou, pior, como uma metástase, como diz William Nozaki na CartaCapital: “Bolsonaro não controla mais o bolsonarismo — O fenômeno virou metástase no interior do tecido social e não obedece ao comando do candidato”. Segue um trecho:

“As ofensas, ameaças e perseguições, reais e virtuais, contras as mulheres que organizaram o grupo e a campanha #EleNão é mais uma mostra de que a combinação de antipetismo, crise econômica, judicialização da política, instabilidade institucional e polarização ideológica criaram um ambiente de violência física, material e simbólica que não é mais governável nem mesmo por quem alimentou esse clima de conflagração e beligerância.”

É inacreditável constatar a que ponto chegamos. Falimos como sociedade, fraternidade e direitos humanos são toscamente desprezados e atribuídos “às esquerdas”, o bem comum foi jogado no lixo por mesquinhos interesses individuais.

É triste e mais do que preocupante o cenário. Mas eu ainda tenho esperanças de que a serenidade e a sabedoria da professora, diante de um troglodita ignorante, seja um exemplo de como devemos e podemos enfrentar esses tempos sombrios.

:: Pó ::

Insones, os parcos neurônios insistem em se digladiar. É, eles não se entendem: esse papo entre razão e paixão pende pra razão, neurônios que são, mas há um grupinho de rebelados que resvalou pro coração. E, não sei como, esse bandinho de neurônios vermelhos, sinistros, gauches, desgarrados, são capazes de uma balbúrdia quase lisérgica: flashes de lucidez (?) mesclados a insights pseudontelectualóides com pitadas de tragédia grega e toscos registros de poeira de estrada.

Tudo ao mesmo tempo, ouço vozes do Jack London, do Kerouac, do Leminski, do Baudelaire. O uivo do Ginsberg. Um corvo, assum preto, crocita: raven, never, raven, never, raven, never, raven, never, raven…

O pó da estrada brilha nos meus olhos. Pergunte ao pó, Bandini. Há tempo, muito tempo, que eu estou longe de casa, e o meu blusão de couro se estragou. Mas, com diploma de sofrer de outra Universidade, sei que minha hora e minha vez hão de chegar. Sou Burrinho Pedrês, sou Matraga! Porque se chamavam homens, também se chamavam sonhos. E sonhos não envelhecem…

Mas não sei declinar todo o verbo, verbi gratia, ainda que me ressoe: “rosa, rosae, rosae, rosam, rosa, rosa. rosae, rosarum, rosis, rosas, rosae, rosis”. O velho bardo já se perguntava: “o que há num simples nome? O que chamamos rosa, sob uma outra designação teria igual perfume?”. E, se todas as rosas do mundo desaparecessem, o nome “rosa” ainda assim continuaria tendo significado?

É muito mais do que o nome, o perfume, a graça, os signos todos que são mais presentes do que aqueles neurônios racionais possam interpretar. Clamo à rosa, Rose, mas não há como fugir do Rosa, nas palavras do Riobaldo, filosofando na poeira, no pó do sertão: “o senhor… mire, veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam, verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra montão”.

O pó da estrada embaça os zóio. Mas… “tem horas em que penso que a gente carecia, de repente, de acordar de alguma espécie de encanto”.

:: Calhabau ::

Prosopopeias infames de uma noite etilírica. Pairam no ar ameaças de entreveros amigáveis, sem consumação, visto que, como há-de imperar a cordialidade fraternal, se entoem versos e cantos e palavrórios filosófico-inconsequentes. Descompromisso com a realidade, dir-se-ia talvez, ou processo auto-alienatório compactuado tacitamente entre os envolvidos? Ora, que esse canto torto, feito faca, corte a carne de vocês, diria o poeta, mais cônscio, sempre e claro, do valor intrínseco da palavra musicada.

Mas urge que se desaprenda um monte de coisas. Estude-se, tal um “vagabundo profissional”, o idioleto manuelês, língua nativa dos bocós e dos idiotas, única que cria (e explica) universos absurdos. Só assim para se habilitar a falar e escrever absurdezas e fazer artesanias, e poder exercer a virtude do inútil, no lugar de ser inútil: a poesia.

Mire-se e veja o exemplo-maior do Mestre Manoel de Barros: “de dentro de mim não saio nem pra pescar”, e, iluminação-maior, sacar que “as coisas não querem mais ser vistas por pessoas razoáveis – elas desejam ser olhadas de azul”.

Subterfúgios rasos de transgressão-subversão do vernáculo. Exercício lúdico-irresponsável de bricolagens com códigos. Foi há tempos imemoriais, num alfarrábio, que um pergaminho apócrifo, supostamente atribuído ao alquimista-rei que atingiu a Obra em Negro:

 

Há um desejo, um anseio, uma pretensão de demiurgo em todo escritor – como, de resto, em todo artista. Deixemos de lado (se é que é possível) a arrogância e o ego superinflado; há, no entanto, alguns que legitimamente têm o direito de se aventar a, com toda a propriedade, se dizerem Criadores. Em primeiro lugar, são aqueles que têm o domínio e o poder totais sobre a matéria-prima com que trabalham: se fazer do ofício a língua, o código, conhecer a ferramenta e saber operá-la – a pá e a lavra, ou a palavra, com todas suas nuanças e sutilezas, explorando toda a potencialidade de cada combinação de letras e símbolos, dando forma e sentido harmônicos a o que, em suma, é a mesma fonte do caos. Este, o Caos, talvez o pai de toda criação.

 

E, no processo de (re)criação, sempre, remeter-se ao Caos: só quem pode e tem o direito de subverter a ordem, em princípio, é quem a domina e pode tratá-la intimamente. Só quem faz da sintaxe o sentir natural, a respiração, o fluir imanente do tudo arrisca-se, em algum momento, a quebrá-la ou subvertê-la – humildemente, é ciente da heresia potencial que comete, mas assume o risco lúdico de, mais e mais, (re)criar. É esse (ar)riscar que justifica nossa existência – que sejam poucos os que o fazem; são os que nos redimem a todos.

 

É para quem o “código”, com tudo o que tem de secreto, divino, misterioso, torna-se familiar, cotidiano, expressando-se e sendo expresso em cada detalhe. O poder alquímico de transmutar sintaxes, baldear parágrafos intransponíveis em busca de veredas redentoras, desvendar os intrincados labirintos espelhados dos símbolos primordiais, extrapola o consciente – mas, em algum momento, a lucidez embaça a própria consciência: momento mágico que se desvela no conjunto de signos, significados e significantes, como que numa revelação absurda daquilo que ofusca por ser tão claro.

 

Duvidanças hiperbólicas não-cartesianas. Arcanos arcaicos a baralhar enigmas insondáveis de tempos imemoriais, Atlântida insondável, o gato de Schrödinger à espreita, universos quânticos inquantificáveis: há apenas o não-dizer, o imponderável, intraduzível. Re-criar, re-inventar palavras? Recombinar símbolos na busca insana de um sentido?

E eis que da dislexia inconsequente emerge: “tébua”, e faz tábula rasa de todo o cartapácio, ao mesmo tempo inflama ânimos em busca de possíveis ou interpretáveis significados. Metáforas, silepses, metonímias se retorcem em vão. Instigação petalosa-surreal: eis aí um pretupitério? Ignorem-se filólogos e quetais — interjeição? exclamação? adjetivo? substantivo? Transcenda-se a gramática convencional, e multicaracterize-se detentor, a um só tempo, de todos os atributos de todas as classes gramaticais.

Mas a infâmia, embriagada, se supera. E na disritmia (in)consequente da mixórdia um temulento tasca: “calhabau”. Retorcem-se os parcos neurônios ainda teimosamente avivados: qu’est-ce que c’est? Parlemos, xumberguemo-nos, e resignemo-nos: se “sinhô-nô”, enfeite-se a noite sem culpa. Brinquemos.