Sob a manchete que grita que o *Vale do Paraíba é a região mais violenta do estado de São Paulo*, a foto se abre em seis colunas e ocupa quase toda a capa do jornal. O azul do céu emoldura três policiais, armas em punho, avançando por entre barracos do que se supõe uma favela. Fica explícita a relação *violência – miséria – repressão*.

Na reportagem, página inteira ilustrada por mais fotos de PMs em ação. Em todos os textos, números e mais números se sucedem, a partir de estatísticas da Secretaria da Segurança Pública, entremeados por frases burocráticas que ressaltam a necessidade de um *plano de ação para frear o aumento da violência*, que tem *forte relação com o tráfico de drogas*, definido como *prioridade* para o combate. Análises superficiais, ainda que vindas de especialistas renomados, atribuem as causas a um *problema de gestão* que culminam na óbvia constatação de que *a estratégia atual não está funcionando*, com ressalvas de que a *polícia foi mais eficaz, prendendo e apreendendo mais*.
O tom geral: segurança pública é sinônimo de repressão, e de todos os lados a solução aponta para a necessidade do *aumento do efetivo policial*. Depois de percorrer a página inteira, somente no último parágrafo do último texto há a menção ao fato de que *políticas de prevenção ao crime são tímidas e as ações de segurança pública, desarticuladas*, e a constatação que deveria ser a primeira de todas: *não há políticas preventivas, como investimentos em lazer, esporte e cultura*. Prevenção, portanto, é o de menos.
No mesmo dia, ficamos sabendo que o governador paulista quer trocar o nome da Polícia Militar para *Força Pública*, com a intenção de *aproximar a polícia da população*. Bela jogada de marketing: seria o primeiro estado em que a polícia ficaria sem o termo *militar* -– a expressão *Polícia Militar* passou a ser utilizada em 1970, durante a ditadura, por imposição do Exército.
Da análise fria do jornal, com números exibidos às pencas para corroborar a necessidade de mais e mais repressão, ao marketing oportunista (redundância, né?), parece que ninguém se lembra que a construção de cidades estéreis, que nos distanciam uns dos outros, é um modelo absolutamente fracassado. Sem que seja revista toda a nossa concepção de cidade -– enquanto espaços de convivência, por excelência -–, qualquer repressão só vai estimular mais violência.
Lá nos anos 1960, Jane Jacobs lançou o
*Vida e Morte das Grandes Cidades*. Em resumo, ela dizia apenas que a rua quando movimentada, frequentada e apropriada é capaz de garantir a única segurança contra a violência: basta a presença do outro. Simples, e nem precisa de repressão.
Segundo clichê: vale a pena conferir o belo texto do Wellington Cançado (prazer, cara!) publicado pelo Marcelo Terça-Nada:
*A insurgência das pipas (e outros jogos potencialmente subversivos)*. Por enquanto, fica só o link. Mas voltarei ao tema, sem dúvida.
Rosana comentou:
É isso aí Bica. Segurança é mais que um policial com arma em punho! Valeu também pelo link "A insurgência das pipas".Host: 200-168-191-133.customer.tdatabrasil.net.br