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:: Seu Toninho ::

Hoje, 24/11, faz um ano que o seu Toninho, meu pai, *encerrou* sua missão aqui na terra. *Encerrou* entre aspas, sim, porque ele segue presente na memória e no coração de todos que tiveram o privilégio de conhecê-lo — e mesmo quem não o conheceu pessoalmente, mas que tem a oportunidade de ler algum de seus ricos escritos, testemunhos de vida, de fé, de amor.

Há vários textos dele aqui no Alfarrábio — não consegui filtrar tudo, mas em meio a buscas por *Papa* (sim, como eu o chamo) ou Toninho pode-se encontrar bastante coisas. Meio que aleatoriamente, pincei só duas frases enquanto repassava por alguns textos:

*Faça o que bem entender com textos meus. Sempre. Uma vez escritos, já não me pertencem. E se por acaso algum bem fizerem a alguém… Deus seja louvado! Quer paga melhor que isso?*
~ ~ ~
*Tenho para mim que toda bela sinfonia, toda cantata, concerto ou serenata, valsa ou moda de viola são trechos da sinfonia maior que é todo o Universo. Melhor: são trechos que, em momentos de arroubos, os músicos surrupiaram dos céus.*

É claro que há a saudade da presença física, da alegria dele nas reuniões em torno da mesa (farta!), de vê-lo apreciando um bom vinho, de tê-lo compartilhando, sempre sereno, suas histórias de vida, seu conhecimento e erudição — isso sem nunca ostentar a vasta cultura, mas com a humildade e o prazer de compartilhar o que sabia.

Mas me consola saber que ele tá feliz, ao lado da minha mãe, dona Benê — sim, ela também presente por aqui em textos como o *Chapéu de Palha* ou *Asas do Sonho* (este, escrito pra mim — ‘brigado, Mama). E fico feliz por ter a certeza de que o seu Toninho cumpriu, com louvor, sua missão por aqui (e segue cumprindo…).

No *santinho-lembrança* da missa de um ano dele, a sensibilidade do texto & arte do Marcelo. Valeu, brôu!

Nas fotos, um churrasco lá de 2011 (o título, *bota-fora*, é porque ele estava indo pra Brasília, proutra missão).

Bênça, papa! Bênça, Mama!

:: Dois Toninhos e uma Vassoura ::

Depois de alguns meses da *ida antes do combinado* do seu Toninho, eu e meus irmãos nos reunimos pra ajeitar as burrocracias inevitáveis e, enfim, dar um destino aos poucos pertences do Papa – a maior e inestimável herança, sem dúvida nenhuma, ele nos deixou com seu exemplo de vida. Em meio às roupas, um relógio e uma ou outra coisinha pessoal (além de algumas garrafas de vinho, que o Cacá logo quis se apropriar), um singelo e silencioso pen-drive quase passou despercebido.

Além de um blazer, coube a mim a guarda do misterioso arquivo digital, ainda que meu pai nunca tenha sido nada misterioso – muito pelo contrário. Mas o que haveria ali?, fiquei me perguntando, evitando qualquer especulação que, de resto, seria inócua. Deixei o pen-drive quietinho por uns dias, tentei não pensar nele, fui viajar com a Rose.

Até que resolvi encarar o bichinho. Entre dezenas de textos e arquivos *de trabalho*, deparo-me com um arquivinho curioso: *vassoura.docx*. Nos metadados, vejo que foi criado em setembro de 2011 – poucos meses após sua ida pra Brasília (lá por julho ou agosto, segundo o Marcelo), e um pouco mais após a ida, também *fora do combinado*, da Mama, em janeiro.

Abro o arquivo e, além do nome, o título é ainda mais curioso: *Dois Toninhos e uma vassoura*. É uma entrevista, pra alguma revista redentorista — os *dois Toninhos* são revelados logo no início, o Bicarato e o Thozzi, que imagino terem sido colegas de seminário. Já a *vassoura*… que cazzo teria a ver? Ao longo do texto, mostra-se mais do que ilustrativa: é a metáfora perfeita do exemplo de dedicação, de humildade e de vida de meu pai, e o porquê dele ter optado por, aposentado e viúvo, seguir com seu espírito missionário, fiel e servindo aos seus ideais – como sempre. Segue o texto na íntegra:

DOIS TONINHOS E UMA VASSOURA

É de conhecimento de todos que Antônio Bicarato enviuvou, os filhos encaminhados, ele aposentado. Vejam quanto de tempo livre passou a ter. Com os ideais de Afonso, que ainda o fazem vibrar, em vez de descanso, partiu para um desafio. Para surpresa de muitos, ofereceu-se para trabalhar numa distante prelazia. Como missionário. A Providência, porém, quis que ele fosse prestar serviços à CNBB, em Brasília, a pedido de seu Secretário Geral e recém nomeado bispo auxiliar da capital federal, Dom Leonardo Ulrich Steiner, OFM.

Mas, algo estranho, espirituoso, está por trás dessa história. Espirituoso em dois sentidos, o do humor, do bom, do puro humor, e o do Espírito, aquele que inspira o bem, o amor, aquele que nos oferece o dom do conselho, da sabedoria. Conversamos com dois Toninhos, o Toninho Bicarato e o Toninho Thozzi. Com o Thozzi, porque parece que ele tem a ver com a história.

Revista: Bicarato, passamos a vida inteira correndo atrás de nossos sonhos. De alguma forma, conseguimos realizar muitos deles, nunca todos. E, de repente, parece não haver mais com que sonhar. Filhos encaminhados, aposentadoria, saúde fragilizando-se… Mas, sempre há algo a ser feito. Acredito que foi isso que lhe passou pela cabeça. Como e por que você resolveu doar-se em missão, e tomou a decisão de oferecer-se para trabalhar na prelazia de São Félix do Araguaia?

Bicarato: Bem, Paulinho, a história é longa, mas tento abreviá-la. Seu começo envolve Dom Luiz Cappio, bispo da diocese da Barra-BA, que, como você e muitos sabem, é guaratinguetaense. Por ocasião da greve de fome que fez em protesto pelos desmandos cometidos contra o rio São Francisco, a revista Veja denegriu sua imagem. No meu modo de ver, ela o caluniou. Saí em sua defesa e escrevi uma carta à revista. Esta não teve a hombridade nem de responder nem de publicar a carta. Prometi nunca mais pôr os olhos em Veja – por mais que seu título me conclame a isso. Daí nasceu o sonho de um dia partilhar a dura e abnegada vida que Dom Luiz vive lá no sertão baiano, às margens do lendário e tão maltratado Velho Chico, rio que – é bom que se diga – Dom Cappio conhece da nascente à foz, na divisa do litoral da Bahia com Sergipe. Conhece inclusive as realidades de vida das populações ao longo de seu curso.

Revista: Pois é, Toninho, e como é que essa história acabou desembocando em Dom Leonardo?

Bicarato: Dom Leonardo entrou no contexto por um desses desígnios que só posso dizer ser de Deus. A semana em que me preparava para escrever para dom Cappio foi exatamente a semana do encerramento da Assembleia Geral da CNBB, que por primeira vez aconteceu em Aparecida. Dom Leonardo, que anos atrás trabalhou em Guará quando ainda simples frei Uli – corruptela de Ulrich, seu primeiro nome, mudado para Leonardo, nome de seu falecido pai, para facilitar –, fora conselheiro espiritual da Equipe 1 de Guará. Estando em Aparecida, quis rever o pessoal da equipe antes de retornar à sua prelazia. Marcou-se para isso um jantar no dia 10 de maio. Alceu, responsável da equipe, ligou-me na véspera convidando-me. Fui porque não podia perder essa rara ocasião de revê-lo. Na viagem de São José para Guará, conversando com meus botões, me veio o questionamento: por que não Dom Leonardo, que vive no mundo sem fim de uma prelazia, também às margens de outro rio famoso, o Araguaia, em vez de Dom Cappio? O sonho era o mesmo. O que mudava era o endereço de sua concretização. E o questionamento ia e vinha, persistente, até que, a dado momento, acheguei-me a Dom Leonardo e pedi-lhe um minuto de conversa à parte após o jantar. Ao lhe revelar o que me ia no coração, inclusive dizendo que meu anseio inicial estava voltado para o sertão baiano, ele abriu um largo sorriso, meio maroto até, e me disse: “Claro que quero, Toninho, só que não em São Félix, mas em Brasília”. Semelhantes a esse já senti outros sustos na vida. Nesse, porém, parecia haver uma mão a me amparar.

Revista: Diga lá, Thozzi, que história é essa da vassoura e que tem a ver com a história de vida do colega, que nos empolgou com a opção tomada?

Thozzi: Veja bem, Paulino. Em fevereiro, no retiro, encontramos o Toninho Bicarato muito triste. Afinal, a perda de quem nos acompanha por toda uma vida nos abala. Então, no intuito de distraí-lo e envolvê-lo, contei a história que me acontecera em Vitória-ES. Estive lá em fevereiro de 2007, para um curso do CEBI, quinze dias. Aproveitando um momento de folga, fui conhecer a igreja e o convento da Penha. Enquanto admirava a paisagem e a solidez da construção, fiquei olhando um frade franciscano que, cantando, varria o chão da igreja. Percebendo que eu o observava, ele puxou conversa, perguntou-me de onde eu era. Respondi-lhe que de São Paulo, ao que ele me disse ser de São Paulo também. Aí, contou-me que sempre fora ardoroso admirador de são Francisco e sua obra, até pensara, na infância, em ser frade… mas cresceu, tornou-se advogado-procurador do Município de São Paulo, casou-se, teve filhos e netos… Aos 65 anos ficou viúvo. E com a vida vazia! Foi quando repensou sua primeira vocação, buscou a Ordem Franciscana, e foi aceito como Irmão Menor (irmão leigo). E completou: “Sou muito feliz aqui! São sete anos já… de manhã sirvo pão aos peregrinos, ajudo a santa missa, à tarde varro a igreja e, no começo da noite, distribuo sopa aos pobres… Nunca fui tão feliz”, encerrou o frade.
Contando essa historinha ao Bicarato, ele me perguntou se eu estava sugerindo que fosse varrer a igreja. Sorrimos ambos e discorremos que não necessariamente varrer, mas gastar os dias de sua vida… ao que Ele me respondeu que estava buscando uma forma de servir a Deus… (e olhe, juro que vi nos olhos do Toninho um brilho diferente, como um menino que encontra um tesouro!…) Passou-se o tempo, e lá vai ele, vassoura em punho, para Brasília. Que santa inveja… poder ajudar… que missão ele vai pregar, agora com os filhos encaminhados e a lembrança da vida vivida…

Revista: Thozzi, como homem prático, muito chegado na vivência com o povo, educador que é, você quis apenas consolar o Bicarato ou, sutilmente, estava sugerindo uma nova forma de vida, ao lhe contar a história da vassoura?

Thozzi: Confesso que, a princípio, Paulinho, apenas buscava consolá-lo da perda imensa, mas fui me entusiasmando à medida que falava, e achei que, de fato, num serviço missionário, assim junto aos mais pobres e oprimidos, dentro de um espírito afonsiano/franciscano, a gente preenche qualquer vazio… e então, cada vez que me encontrava ou comunicava com o Toninho, perguntava da “vassoura”… ele ria… mas acho que aumentava nele a vontade de “fazer votos”, de pôr-se à disposição.

Revista: Interessante o fato. Uma forma criativa, pelo menos não muito comum, de alguém viver o “pós carreira”, a aposentadoria sem depressão, o que é muito comum, ou então perder-se no tempo, como geralmente acontece, não é Bicarato? Isso o levou à decisão ou você já havia planejado algo? A história do Thozzi teria sido um empurrãozinho?

Bicarato: Pelas respostas anteriores, Paulinho, dá pra ver que já havia antecedentes. Mas, quem foi alinhavando tudo foi Deus, que se serve de tudo, inclusive de histórias como a do Thozzi. Por caminhos que nós pensamos que somos nós que traçamos, mas na verdade foram por Ele traçados desde tempos imemoriais, Ele nos vai conduzindo, quase sempre mansamente e, quando necessário, dando os sustos que nos fazem despertar ou do comodismo ou de sonhos que não nos levam a nada. Se de nossa parte há pelo menos disponibilidade, se nos colocamos com confiança em suas mãos, se descobrimos a grandeza do servir, do que é verdadeiramente amar o irmão, nossas realizações passam de um plano puramente humano para a esfera das coisas do alto.

Revista: Que mensagem vocês podem dar aos nossos leitores?

Thozzi: No seminário, nos diziam que a Graça era única, se não aproveitada, nós a perdíamos. Hoje, tenho certeza de que a Graça age em cada momento de forma diferente: na dor, na solidão, no abandono… podemos sorrir, nos reencontrar, quando nos colocamos a serviço do outro, do pobre, do abandonado… daqueles de quem é o céu… Basta pegar a “vassoura” e servir… (“Se eu, que sou o Senhor, lavo os vossos pés… é para que façais o mesmo!”). Então, Toninho, empunhe bem a “vassoura” missionária aí na CNBB.

Bicarato: Deus te ouça, Thozzi, Deus te ouça. Que ele continue me dando forças. À medida que os dias passam, a saudade dos filhos – sem falar na saudade da Benê, que é sentida onde quer que eu esteja – vai crescendo, e então a doação tem de ser também cada vez maior. E é mesmo só a Graça que nos sustenta. Agora, mesmo trilhando caminho íngreme e pedregoso, com tropeços, desânimos, desolações e incompreensões, a felicidade que se sente é a felicidade de quem é amado e acarinhado por Deus, privilegiado até!

:: Toninho & Benê, 27/5 ::

Mensagem do meu pai, sêo Toninho.

Queridos filhos:

Hoje, dia 27 de maio, é uma data muito importante para mim. Foi o dia em que sua mãe e eu nos conhecemos. Fiz um pequeno texto para não deixar passar em branco essa data.

50 Anos de Dois Olhares

27 de maio de 1962! 27 de maio de 2012! Domingo lá, domingo cá.
Cinquenta anos separando duas datas,
enquanto uma vida a dois as une e faz delas como que uma só.
Os muitos fatos e passos existidos, vividos, percorridos lado a lado
embaraham-se na memória, perdem-se até no emaranhado de milhares de dias,
impossíveis quase de serem guardados todos.
Mas o coração está indelevelmente marcado
pelos significados profundos que esses fatos nele deixaram gravados.
A luz de um olhar que pelos olhos do outro penetrou,
e foi bater no mais íntimo do ser de cada um, ainda brilha.
E, quiçá, mais que naquele primeiro instante.
Brilha como facho que, de dentro, ilumina a vida.
A luz dos dela, a minha, a dos meus, a dela.

Não importa que ela tenha apressado o passo e chegado antes. Não importa.
A caminhada já completa 50 anos e continua,
pois sinto ainda as suas mãos agarradas às minhas,
ajudando-me a tilhar o último trecho, a última escalada a galgar.
E sei que a glória em que ela está imersa um dia nos devolverá o estar juntos.
Para sempre!

Toninho
27/05/2012

:: Bota-Fora do seu Toninho ::

Domingão com direito a churrasco com trilha sonora à base de fita K-7. É, em tempos high-tech, quando quebra o toca-CD a gente apela pro que tem à mão… Mas o mais importante foi que a gente se reuniu pra um *bota-fora* do seu Toninho, que deve ficar um pouco mais longe — só geograficamente falando, claro.

Mas, distâncias à parte, ficamos felizes por saber que o *Papa* tá contente, e seguindo sua *missão* — no sentido mais amplo que essa palavra tem, como ele mesmo explica. É uma história que vem já de uns bons anos, passa pela *heróica atitude de Dom Frei Luiz Flávio Cappio*, nas palavras do próprio seu Toninho, e tem, claro, a plena concordância-cumplicidade da dona Benê. Os links aí dizem mais. Por enquanto, fica o registro do churrasquim, já dando água na boca pro próximo, tão logo o seu Toninho dê uma folga lá das bandas do Planalto Central.

Fotos, aqui. Segue o slideshow:

:: Gentileza gera gentileza ::

Das voltas que o mundo dá. Ou: sincronicidades inesperadas e fortuitas do dia-a-dia.
Há algumas semanas, a Rose, enquanto fazia uma caminhada, achou uma carteira de habilitação na rua. Fez o mínimo que se poderia esperar dela: tirou uma foto e publicou no feicebúqui, perguntando se alguém conhecia o rapaz. Em poucos dias, a irmã dele fez contato e veio o desfecho: a carteira foi entregue.

Causo simples, não haveria nada demais em uma atitude dessas, mas gratificante ver como pequenas atitudes ainda servem como exemplo do poder que as redes sociais têm (ainda!) de fazer o bem e aproximar pessoas.

Só que… a história não acaba aí. (mais…)

:: Amanda e Paula, e o preconceito ::

Viajar é sempre bom. Acho que isso é incontestável. Mas, claro, cada um vê as viagens com (ou a partir de) seu próprio olhar. Tive o privilégio de ter feito boas, ainda que não bastantes, viagens, por esse Brasilzão. Muitas delas em companhia da querida Rose, outras sozinho, uma inédita e inesperada com meu pai, pros Lençóis Maranhenses. De todas, lembranças deliciosas, cheiros e sabores únicos, paisagens e momentos inenarráveis.

Mas o que fica são as pessoas. Conhecer gentes é algo transcendental, que vai além das paisagens e da arquitetura e da História: as histórias e causos das gentes, a linguagem peculiar e os sotaques, os costumes, as religiões. Tivemos a oportunidade de conhecer (parte de) seis estados do Nordeste, contando as capitais e algumas cidades do interior: Maceió (Alagoas), Salvador (Bahia), João Pessoa (Paraíba), Teresina (Piauí), Natal (Rio Grande do Norte) e Aracaju (Sergipe). Em todas as cidades, um lugar sempre foi obrigatório: (mais…)

:: Missão: Bicarato ::

Mistérios insondáveis nos rondam. Existem pra instigar a imaginação ou tripudiar da nossa pretensa sapiência ou perturbar nossos espíritos — ou tudo ao mesmo tempo. Das fímbrias do tempo (essa abstração e aberração que nos fustiga), quando até mesmo o oráculo Gúgôl se mantém em silêncio e se recusa a vislumbrar qualquer pista, um mistério assola: quem, o quê é, de onde vem o intrigante nome *Bicarato*?

Início do século (do milênio!) passado, meu bisavô chegava ao Brasil, vindo da Itália. Sem lenço nem documento. Giovanni Bicarato (ou Bigarato) e Colomba Bicarato (idem) vieram com as filhas Francesca e Teresia (ou Teresa) e mais um ou dois filhos — dados básicos cobrem-se de névoas, embaralhando ainda mais as parcas pistas que poderiam ser algum ponto de partida pra alguma investigação. A chegada? Entre 1901 e 1904. A região de origem? Também nebulosa: entre Padova e Veneza.

Tia Angelina, a filha mais nova do casal, já nonagenária, ainda sussurrava lmebranças esparsas. Dizia que sempre ouvia a nona, Colomba Muscini, dizer que era do *Estado Romano*, e ouvia também falar em Viterbo. A nona, aliás, já havia enviuvado quando se casou com o nono, Giovanni. De seu primeiro marido, nem sequer o nome se sabe. Os dois filhos do casal morreram na epidemia de gripe espanhola, ainda na Itália (segundo uma outra tia). Mas há controvérsias: provavelmente devem ter sido vítimas de qualquer outra epidemia, muito comum na Europa daqueles tempos, já que a gripe espanhola arrasou o Velho Continente nos idos de 1918 — alguns anos depois, portanto, da vinda deles para o Brasil.

As poucas informações disponíveis trazem mais dúvidas e embaralham ainda mais o tabuleiro: na Certidão de Nascimento de meu vô, o nome da mãe dele não é Colomba Bicarato, e sim Colomba Muscini. Já a avó materna carrega outro nome, Cesarini.

Nessa busca insana, eis que em algum momento o oráculo Gúgôl vislumbrou algo: uma única referência, datada de… 1277! Como uma pérola valiosa, tratei de ao menos fotografá-la:

Anno 1277 – 20 marzo
Bigarato da Portovenere e Bennato Moscone da Vernazza, volendo porre un termine alle liti, che hanno per causa d’una rissa, successa alla spiaggia di Vernazza, dinanzi a Giacomo de Ricardo da Portovenere e ad Armanno de Vegio da Vernazza eleggono arbitro Rollandino Bigarato, fratello di detto Galvano, le due parti si condonano le reciproche offese e si dannoi il bacio della pace. Not. Guglielmo de S. Georgio Reg. V pp 16 17v.

[Na tradução do seu Toninho, meu pai]:
Ano 1277 – Em 20 de março
Bigarato, de Portovenere, e Bennato Moscone, de Vernazza, desejando pôr fim às demandas que tinham por causa de uma rixa, acontecida na praia de Vernazza, diante de Giacomo de Ricardo, de Portovenere, e de Armanno de Vegio, de Vernazza, [Bigarato e Bennato] elegem como árbitro Rollandino Bigarato, irmão do dito Galvano (Penso, pelo contexto, que Galvano seja o primeiro nome de Bigarato). As duas partes se perdoam as recíprocas ofensas e dão-se o beijo da paz.

Ou: há um *buraco* de sete séculos sem nenhuma referência à minha família. Nas buscas, apelei pro improvável: além da grafia atual, *Bicarato*, arrisquei *Bicaratto* e *Bigarato*, entre outras. Nadica de nada.

Já abatido pelo desânimo, resolvi apelar pra uma ajuda profissional. Chegam-me notícias alvissareiras de que, na Itália, um detetive de renome — mas ao mesmo tempo, e por isso mesmo, recluso em seu rincão, já aposentado, desvendera em priscas eras segredos ainda mais obscuros. Após tentativas infrutíferas, e já exauridas minhas forças, consigo um contato do misterioso detetive. Arrisco, mesmo sem ter qualquer noção de como eu poderia arcar com os altos custos de tão ousada empreitada. Estranhamente, a resposta vem ágil e rápida, o que me intrigou ainda mais, até pelo tom jocoso, fazendo troça das minhas angústias e já trazendo ainda mais perguntas do que pistas ou respostas:

Pensei que fosse algum trabalho, estava já preocupado.
De alguma forma você bateu em porta certa. Não porque tenha já algo pra te oferecer, mas que ao menos se abre a isso. Na verdade o teu pedido é mais um entre inúmeros e eu me divirto mesmo em fazer o detetive. Consegui descobrir coisas que nem eu mesmo acreditava.
Bem, eu começo a fazer uma busca na lista telefônica e me diz que na Itália nao existem Bicarato. Tento Bicaratto, e a resposta é a mesma. Igual para Biccarato ou Bigarato e Bica Ratto. Nesse caso é muito provável que tenha havido uma modificação do nome original, algo comum nos portos de antanho.
Se você tem alguma idéia de onde tenha nascido este teu bisavô, é já muito útil. Se sabe em que ano, com uma aproxiamação de cinco pra mais ou menos, muito melhor ainda. Porque posso fazer um pedido nos registros de batismo da região em questão.
Sem isso, vou dormir sobre o assunto e amanhã tento imaginar qual nome possa ser o original.

Passam-se os dias, e o Detetive volta ao silêncio. Já me resignando e dando por vencido, esforço-me pra esquecer o caso. Mas eis que chega, inadvertidamente, um breve relato:

A tarde estava fria, as poucas almas que se aventuravam pelas poeirentas vielas corriam apressadas sem nem mesmo desconfiar de meu mais novo e angustiante quebra-cabeças. Acendi um cigarro e me encaminhei ao bar. Alonguei uma nota de dez ao barman e fiz algumas perguntas banais. De repente, sem que ele esperasse por isso, lancei a palavra-chave: Bicarato! Este nome diz algo a você? Ele não teve nem tempo de fechar a torneira da pia e correu desesperado em direção aos fundos do bar. Voltou dois segundos depois com uma enorme carabina nas mãos. Não me restou alternativa senão a de transformá-lo em um escorredor de macarrão.

Na verdade, em algumas buscas que consegui fazer o resultado foi sempre o mesmo: não existe Bicarato na Itália. Não sei e ninguém soube me dizer o significado do nome. Em geral os nomes querem dizer algo, aqui é muito comum isso. Mas ninguém soube me dizer.
O que encontrei foi um texto muito interessante. Uma tese de mestrado da Universidade de Bologna, Facoltà di Lettere e Filosofia, Corso di Laurea in Discipline delle Arti, della Musica e dello Spettacolo. O trabalho se chama IL SENSAZIONALE E IL PRODIGIOSO NELLA LETTERATURA DI CONSUMO. SECOLI XVII E XVIII. Pois bem, não li tudo ainda, mas fala das tradições e do desenvolvimento da imprensa a partir do que se poderia comparar com a literatura de cordel, claro que com os elementos do universo da Itália dos séculos citados. Entre alguns “causos” relatados e que se tranformaram em livretos, tem a história de Angelo Secchiarolo, detto Bigaratta, il “tristo Bigarato”.
Era um assassino que foi condenado a morrer na forca e no dia de sua execução, 11 de junho de 1729, se recusou a beijar a cruz, fato que o tornou fonte de inspiração desse conto que fala da alma que vai para o inferno etc. etc.

As únicas referências encontradas com o nome falam de apelidos. Uma possibilidade, além do erro de registro, é que teu bisavô usasse o Bigarato também como apelido e que depois virou sobrenome. Pode ser que ele seja o primeiro da lista, não seria um fato inédito.
Por hora é só. E a busca continua.

Ouço uma coruja que canta ao longe. A lua vai alta pelo céu, conferindo uma luminosidade triste à cidade adormecida. Saio pelas ruas, na cabeça uma só intenção. Maldita hora que aceitei este trabalho. Mas o que mais posso fazer? Esta é minha vida. Meu destino é mais forte que minha vontade. Sigo.

Um assassino herege! Depois dos briguentos do século XIII, que desapareceram até mesmo dos olhos do oráculo, eis que surge um assassino herege no século XVIII. O hiato entre os séculos sugere que há ainda muitas insuspeitas e inimagináveis ocorrências sob o nome, mas a curiosidade vence a prudência, que clama pra que se deixe incólume o mistério. A tentação de fustigar o vespeiro, mesmo diante dos sinais agourentos, mescla-se à angústia pela espera por novos relatos do Detetive, que mais uma vez se abstém, por incontáveis e interminaveis dias, de se manifestar. A ansiedade me toma: confiro várias vezes ao dia a caixa de correios, sem sucesso. Até que…

Relatório nº 2
Riva del Garda, 28 de março de XXX.

Choveu por todo o dia e a névoa cobria com seu manto úmido as tristes cores do fim de inverno. Já faz dois dias que não durmo e não me alimento. Todos os casos que aceitei me deixaram destruído fisicamente, e este não poderia ser diferente. Resolvi cobrar uma antiga divida moral que tinha com o chefe da polícia local, fruto de um caso com rapazes e garotas que não vem ao caso relatar. Depois de refrescar a memória do policial, lhe pedi com a voz baixa que me caracteriza se porventura sabia algo a respeito de Bicarato. O sorriso do bigodudo homem da lei se apagou e com uma expressão soturna me sussurrou: Você também está a serviço do Boss? Comecei a entender o porquê dessa família ser assim tão misteriosa.

Tive um insight hoje: fiz uma pesquisa que revela que existem 13 famílias Carato na Itália e 48 Caratto, com concentração no Piemonte. Bem, se o bisavô tivesse um segundo nome, por exemplo, que começasse com “B”, ele poderia ter dito à voz para algum tabelião brasileiro que se chamava “Nome B. Carato” e isso soa “Nome Bi Carato”. Conjecturas!
Ao menos o nome Carato existe! Um momento! Garatto também existe e são 13 familias concentradas em Venezia. Garato também tem e são 20, quase todas em Venezia.
Pode não dar em nada esse caminho, mas é interessante.

Os raios e trovões conferiram às palavras do chefe de polícia uma dramaticidade a mais. Prontamente eu disse que sim, estava a serviço do Boss. Imediatamente ele se ajoelhou a meus pés e chorando me pediu para que interceda em seu favor. Me encontro em uma enrascada das brutas. Agora vou ter que achar esse Bicarato, custe o que custar!

Mais uma vez, frustrante! Mais interrogações e conjecturas, mas nada palpável. Pra aumentar a agonia, temo que não conseguirei arcar com os custos altíssimos de tal pesquisa detetivesca — um *detalhe*, aliás, que nem chegou a ser negociado. Tardiamente, mando uma correspondência indagando sobre os honorários do Detetive. A resposta vem seca, quase como uma ameaça, seguida de mais um capítulo amargurante:

Quanto aos custos, não se preocupe. Voce tem casa em seu nome?

Hoje tive um dia duro. Trabalho com as garotas que estão sob minha proteção. Elas aparentemente gostam quando eu tenho um dia duro. Por isso tive pouco tempo para a minha pesquisa. Quase conseguia tirar este verdadeiro cupim que me rói os pensamentos. Não deixei de ir ao funeral do barman. Encontrei lá o chefe de polícia, que me fazia sinais com os olhos. Maldição, se não encontrar logo esse Bicarato, vou estar mesmo em uma enrascada. Pior do que daquela vez que saí com a mulher do prefeito. Bem, mas essa é uma outra história.

Padova e Venezia estão no Vêneto, a mais ou menos 50 Km uma da outra e sim, é uma região nebulosa e com frequentes problemas com a neblina. Eu me concentro na pista Vêneta.
Algumas prefeituras de cidades maiores dispõem de um arquivo público onde se podem consultar estes documentos. Tendo como boa a informação da vinda deles no início do século e com dois ou quatro filhos, isso situa o nascimento dele entre 1870 e 1880. Infelizmente o dado sobre a vovó não serve pra nada. Apenas como curiosidade: as mulheres até mais ou menos a 1ª guerra não eram nem registradas. Os poucos documentos que se encontram em geral vêm das paróquias, que funcionavam como verdadeiros centros de documentação. Mas mesmo nas paróquias a enorme maioria dos documentos é de homens. Bem, voltando, um passeio em Venezia não seria má idéia. Agora na primavera é uma boa época para ir a Venezia fazer… pesquisa de arquivos. Bem, quer dizer, entre um champanhe e outro sempre tem espaço para um empoeirado monte de papéis velhos.
Se se soubesse o nome da cidade de origem, seria um tiro quase certeiro, mas me parece que não é o caso.

Sempre que uso minha pistola tenho que fazer uma limpeza completa.
Ela está velha e usada, mas ainda me garante resultados, e isso é o que interessa. Nunca se sabe quando vou usá-la de novo, mas pelo jeito, este caso vai ser o mais endemoniado de todos o que enfrentei. Eu vou adorar.

Nada! Nenhum ponto de partida; a missão parece impossível, até mesmo pra um experiente Detetive. Seja pela decepção de não fazer jus à sua fama, seja pela inglória caçada, ela desaparece de vez. Depois disso, silêncio absoluto. Foi a última correspondência que recebi do Detetive. Temo que o Detetive tenha avançado algo, mas chegando a algum ponto mais do que arriscado e, confirmando todas as suspeitas e riscos de uma investigação tão inconsequente, tenha feito o Boss entrar em ação.

Famiglia Bigarato

Famiglia Bicarato, recém-chegada da Itália:
da esq. p/ direita, em pé, atrás: Francesca (Queca), italiana; Teresa, italiana; Maria; Domingos.
Ainda em pé, um pouco à frente: Antonia e Cristina.
Sentados: Colomba Muscini, Giovanni Bicarato e Rosa (Rosina).
No colo: José. Sentado, centro: Bento (meu avô).
Provavelmente no ventre da Colomba: Angelina

:: Acasos (?) ::

Contei e recontei esse causo dezenas de vezes nos últimos dias. Mas não tive a sensibilidade que a Chris Ramsthaler exprimiu, e na verdade (apesar da surpresa do encontro e da receptividade) reforçam mais ainda a dimensão do carinho e da presença marcantes do seu Toninho — é, meu pai –, tão significativos e vivos que perduram por décadas e mais décadas.

E fico cá matutando sobre como e porque *acasos*. Como disse Guimarães Rosa, *quando nada acontece há um grande milagre acontecendo que não estamos vendo*. E pessoas são elos e instrumentos pra que esses milagres aconteçam. Apesar das minhas trapalhadas, a querídola Rose ficou firme e fomos conferir o show do Paulinho Pedra Azul, a convite e com a participação do camarada Tuia. Além do nosso menestrel Déo, ainda tivemos o prazer de conhecer outra *lenda*, o Tavito.

Mas, além do show, valeu muito também por ter conhecido a Chris — segue o relato dela:

Acaso?

Não posso acreditar em acaso quando falamos de encontros inesperados.

Sim, tive uma surpresa muito grande há uns dias. Show de Paulinho Pedra Azul, em S. Paulo, Bar Ao Vivo. Um bar em S. Paulo… quantos bares, quantos shows, em S. Paulo!

Quantas vezes queremos ver vários e nem conseguimos porque os espetáculos coincidem em dia e hora.
Pois bem! Escolhemos assistir a esta raridade, Paulinho Pedra Azul em Sampa!

Casualmente encontramos Deo Lopes (que não víamos já há alguns anos) poeta-cantor. Sentou-se conosco.
Aí, a surpresa maior nos aguardava, sem que a pudéssemos pressentir.

Tive um amigo, muito amigo, no segundo emprego da minha vida, lá se vão décadas! Saí da empresa, tive outras atividades, o tempo passou… Um dia resolvi procurar esse amigo aqui no facebook. Acabei por encontrar um filho dele, que me passou o e-mail do pai. Começamos uma correspondência por e-mail, porque ele não tinha perfil no face. Conversamos muito. Trocamos notícias, alegrias e tristezas, o que é normal na vida de todos nós. Ele, então, estava trabalhando em Brasília.

Com o decorrer do tempo e de tantas outras coisas que me exigiram dedicação total, parei de escrever para ele. Deixei ‘de lado’ vários amigos, vários encontros programados, por quase 2 anos. Simplesmente não consegui dar conta de tudo, embora grandes amizades, sem dúvida, mereçam nossa total dedicação.
Alguns dias antes do tal show, comecei a pensar muito naquele meu amigo e dizia para minha filha: preciso escrever para o Antonio. Repeti isto várias vezes! Mas não escrevi.

Voltando ao show, o Deo Lopes viu um amigo dele chegando e tratou de conseguir que ele se acomodasse na mesa ao nosso lado. Feitas as apresentações, a surpresa: Paulo Bicarato. Feliz com a coincidência do sobrenome, perguntei se conhecia o meu amigo Antonio. Prontamente disse: meu pai. Só que ele se foi, há 2 meses!

O ambiente, logicamente, não era propício para grandes manifestações de pesar. Só consegui dizer: É…? Que pena!… A tristeza, guardei dentro de mim.

Assim, mais uma vez, não posso acreditar no acaso. Aquele amigo que se fazia presente em meus pensamentos naqueles dias, me mandou alguém muito próximo para me dar a notícia de sua partida. Apesar de tudo, num momento de alegria. Paradoxos da vida!

Só sei dizer que quero muito encontrar novamente vocês, Paulo Bicarato e família.


Paulinho Pedra Azul, Rose & Déo Lopes

:: Miguilim ::

Nesse turbilhão de informações, vira-e-mexe me surpreendo com um jornal da semana passada ou retrasada (algum suplemento cultural que guardei pra ler com calma), ou ainda com algum link aberto numa das dezenas de abas aqui do Firefox (que, da mesma maneira, abri em algum momento e deixei pra ler depois). Aí é que vou tentar me lembrar de onde surgiu aquele link: alguém me enviou? será de algum post do feicebúqui ou tuíter? foi um link-do-link-do-link… de onde? Na maioria das vezes, desisto de tentar rastrear esses passos — fica o gostinho de *mistério*, se contrapondo à instantaneidade de uma googlada pra se checar uma informação simples.

Esse intróito vem pra justificar essa grata surpresa: uma moça italiana comentando nada menos que o *Miguilim*, do Guimarães Rosa. Assisti umas três vezes, tentando captar o que ela diz — é, ainda que descendente de italianos, não *parlo niente, cáspita!*. Me contentei em me deliciar mais com a emoção da moça, que compartilho aqui (depois, descobri o blog dela e a fonte do vídeo):

Ao mesmo tempo, mandei o link pra quem de direito: seu Toninho (sim, meu pai). A resposta veio rápida — curta, mas que ainda vai render outros papos:

Oi, Pô.
Uma análise muito interessante. Destrincha o livro todo.
Pena que não consegui guardar tudo. Em essência, ela diz que se trata de cenas simples, ou aparentemente simples, da vida, de uma vida localizada, mas que se aplica à vida universal. Diz que Rosa não narra uma história, mas a história. É uma história nostálgica, mas não de uma nostalgia puramente lembrança morta do passado, mas uma nostalgia que envolve todo o espaço. Conta, por exemplo, que Miguilim (Migulim, para ela) pergunta à mãe o que é o mar. Diante da resposta da mãe de que o mar é uma coisa muito grande, Miguilim compara a nostalgia ao mar…

Pai.

(Em tempo: *Pô* é meu apelido de infância, é como sou chamado até hoje na *famiglia*.) Do alto da sua vasta (vastíssima!) erudição, meu pai já me confessou que lamenta pouco ter lido o Rosa (comento mais a seguir) e, além das minhas impertinentes referências, é interessante como ele interpreta a interpretação-leitura de uma italiana. Mas, claro, uma coisa puxa outra, e vou eu fuçar aqui no meu baú virtual e reencontro uma mensagem de 2005, do copoanheiro Rai, este sim um legítimo roseano — como se pode comprovar:

Cê não vai acreditar o que sucedeu comigo noite passada. Sonhei que estava na roça do Miguilim, o Mutum. Foi muito legal, acordei emocionado.

No sonho, eu estava vendo ele e a preta véia que é chegada na cachaça e mora num cafofo no fundo da roça, que agora não me recordo do nome e nem consigo encontrar meu exemplar de “Manuelzão e Miguilim”, naquela passagem que eles estão fazendo um túmulo para enterrar as coisas do Ditinho. O mais emocionante é que os dois estavam conversando e só repetiam a frase da mãe enquanto ela lavava o pé do muleque morto e ficava repetindo “como era bonito o meu filhinho, como era bonito o cabelinho dele”, e eles ficavam botando pedrinhas no túmulo e depois começaram a chorar. Foi um sonho, realmente.

O pior é que já procurei o livro para dar uma relida nesta parte, mas acho que minha irmã carregou o dito cujo na última vez que ela esteve aqui em casa. O pior, ou melhor, é que este sonho, como todo sonho, acho, tem toda aquela atmosfera onírica que fica com uma imagem embaçada e não dava para ver direito a cara do miguilim e da preta véia. Eu só recordo que os dois estavam de roupa branca e agachados num lugar que parecia o quintal da roça da minha mãe e que eu estava vendo eles de um lugar meio afastado, que dava para ver as duas siluetas de lado.

Nunca tinha sonhado com nada do Rosa, nem de outros escritores que costumo reler com frequência e paixão, antes e, sinceramente, acho que este foi uma dádiva. Foi uma puta experiência. Pena que durou pouco, pelo menos é o que me parece. Mas é isto, Bicarato, acho que cê vai gostar de saber sobre este sucedido. Agora vou ter que correr que a Dona Maria vai passar aqui para a gente ir ao cinema. Depois a gente proseia mais. Amplexos (como cê mêsss diz) e ósculos.

Rai.

Que o Miguilim é um dos alter-egos do Rosa, todos sabemos. A mítica imagem do médico emprestando os óculos pro Miguilim, que magicamente passa a enxergar o mundo, é antológica. Não à toa, a dona Calina, prima do Rosa, fundou o grupo Miguilim (mais aqui): sou testemunha de como, literalmente, o Rosa abriu horizontes pra muitos garotos e garotas de Cordisburgo, que passaram a enxergar muito além do Mutum. Que o diga a querida Magna, a Menina da Terceira Margem do Rio — reproduzo o causo aqui:

Esse sertão do tamanho do mundo tem veredas que se cruzam e a gente fica sem entender como e por quê. Ou: as veredas existem só pra se cruzarem, mesmo…

Lá pelos idos de 1999, escapei uns dias e fui conhecer Cordisburgo, um *quase-lugar* que foi o berço do Guimarães Rosa. Vai que, tomando uma cerveja num boteco lá, fiquei sabendo dos *Miguilins* –crianças da cidade que eram incentivadas a lerem Rosa para depois apresentarem, narrando/interpretando/re-vivendo cada conto. Mais um pouco de conversa, e consegui agendar uma apresentação exclusiva de alguns Miguilins. Levado à casa de um deles, no quintal, meia dúzia de adolescentes me cercaram e começaram a declamar Burrinho Pedrês, Matraga e muito mais.

Não dá pra descrever a emoção. Mas uma das meninas conseguiu tirar de mim todas as lágrimas que nunca tive, recriando ali, ao vivo e em cores, letra por letra, toda a *Terceira Margem do Rio*. Saí dali mais vivo, mais leve, mais apaixonado pelo Rosa e por todos os Miguilins desse sertão sem fim.

Passam-se mais uns anos e, em 2001, um evento de/sobre o Rosa toma conta da *Casa das Rosas*, em plena Avenida Paulista. Lá, entre filmes, fotos, escritos, trouxeram também alguns Miguilins. Entre eles, revejo a Menina da Terceira Margem, aquela mesma que me fez chorar em Cordisburgo. Revivi e renasci mais uma vez.

Já contei essa historinha aqui mesmo no Alfarrábio, e a novidade vem agora: eis que, de repente, recebo uma mensagem de quem? Ela mesma, a Menina da Terceira Margem, a Magna –sim, pra completar, ela tem um nome mais do que apropriado…

Oi! Sou a Magna do Grupo Miguilim, de Cordisburgo. Vi seu comentário e não pude deixar de me emocionar. Moro em BH e faço Letras na UFMG. Gostaria de trocar idéias.

Li, reli, trili a mensagem, tentando acreditar que era verdade. E é!

Naquele dia, em Cordisburgo, fiz questão de pegar *autógrafos* de todos os Miguilins. Cada um, com letrinhas caprichadas, deixou uma citação do Rosa cercada de desenhinhos. Claro, tenho essa cadernetinha guardada até hoje –o *autógrafo* dessa moça-miguilim, ah! não vendo por nada desse mundo.

Ah, duvidam, é? Taí a prova:

Mas, das histórias e causos do Miguilim, lembro vagamente que, há tempos, li um relato de alguém que teve um parente que provavelmente teria servido de inspiração pra uns dos personagens do conto… (sim, lembrança vaga mesmo). Então, lá vamos nós garimpar essas internets — nas penumbras da memória, sabia que o texto foi publicado num suplemento literário de algum jornalão, mas qual? Fuça daqui, fuça dali (não me perguntem o passo-a-passo), eureka! O texto é do sociólogo Sérgio Abranches, e saiu na Ilustríssima, em 17 de junho de 2012. Se alguém tem dúvidas sobre Miguilim ser um dos alter-egos do Rosa, segue:

Arquivo Aberto – Memórias que viram histórias
Vovô Juca e Miguilim

Curvelo, anos 1950
Sérgio Abranches

Guimarães Rosa é uma influência quase atávica, meio mágica. Nós somos do mesmo pedaço do sertão cerrado mineiro. Nossas biografias têm uma conexão de profunda significação para mim e consequências importantes para Guimarães.

Meu bisavô, avô de minha mãe, era um excepcional médico, em Curvelo, cidade vizinha à Cordisburgo de Guimarães. Era “o médico do Curvelo”, desses que o interior raramente tem, respeitado pela comunidade médica mineira como “par inter pares”. De formação germânica, era austero e distante. Mas sabia deixar claras suas preferências e seu afeto.

Um dos gestos dele que mais me encantavam era o de me entregar um novo estilingue -falávamos bodoque em Curvelo-, na minha infância, sempre que eu chegava para passar as férias.

Ele escolhia a melhor forquilha, o melhor pedaço de couro, a mais elástica câmera de pneu, tudo cortado meticulosamente com seu canivete afiado. Minha mãe, sempre cheia de cuidados, proibia tudo o que lhe parecia perigoso. Bodoque, então, nem pensar.

Chegávamos à casa de “vovô Juca”, ele nos beijava e me dava o novo bodoque, de alta precisão para estilingues artesanais, que eu ostentaria pendurado no pescoço como um colar de galardão.

Sua autoridade de patriarca anulava e calava toda contra-ordem. Se dizia podia, então podia. Se dizia não, era não, universalmente, obediência geral. Logo bodoque podia e pronto.

“Não pode matar passarinho, é só para colher frutas”, dizia.

A precisão era necessária, pois, para colher frutas sem estragá-las, era preciso atingir o ponto mínimo que unia o talo à fruta. Assim colhia mangas, laranjas e mexericas.

Ele nunca me contou de sua vida. O que sei e sabia me foi contado por minha avó e por minha mãe.

Por isso, foi com espanto e maravilhamento que o encontrei, inesperado e desconhecido, ao final da história de “Manuelzão e Miguilim”: o doutor que descobre que Miguilim é curto da vista, lhe empresta os óculos redondos e elimina momentaneamente sua miopia. José Lourenço Vianna, o médico do Curvelo, meu bisavô, entrava a cavalo na história de Miguilim!

“Era o doutor José Lourenço, do Curvelo. Tudo podia.”

Essa descoberta foi, infelizmente tardia. Aconteceu seis meses depois de ele ter morrido, quando eu tinha 16 anos. Acompanhei seus últimos momentos e nunca me esqueci do olhar de amor, orgulho e gratidão, em seus olhinhos muito azuis. O orgulho vinha das conversas longas que tínhamos, eu falando da mais variadas coisas e ele ouvindo, com a vida por um fio, sem forças para falar muito, poupando fôlego. Disse à minha mãe que eu havia me tornando um jovem muito culto.

Queria tê-lo interrogado, aflito de curiosidade, maravilhado e orgulhoso, sobre como chegou ao Mutum para descobrir a miopia de Miguilim.

Descobri depois que sua jornada até o Mutum era, na verdade, a transposição literária da gratidão de Guimarães Rosa ao médico, meu bisavô, que, em sua casa de Cordisburgo, em visita ao seu Rosa, o pai, descobriu que aquele menino predestinado a ser o maior entre os maiores da literatura brasileira era míope.

E lhe emprestou seus óculos redondinhos e ele viu que o seu mundo de Cordisburgo, o qual conhecia por partes, micropedaços que enxergava ajoelhado nas folhagens e nas pedras, sempre muito de perto, sem nunca perceber o conjunto com precisão, era bonito. “O Mutum era bonito! Agora ele sabia”. Miguilim, reproduz aquela descoberta infantil crucial de Guimarães Rosa.

Na minha adolescência, mergulhava nos livros de Guimarães sempre com a sensação de encontrar ecos na minha alma. Ele via com muito mais poesia, profundidade e exatidão aquelas coisas do sertão que me impregnaram de sensações indeléveis e se inscreveram em minha memória inapagáveis.

Sérgio Abranches, PhD, sociólogo, cientista político, analista político e escritor. Autor de Copenhague: Antes e Depois, Civilização Brasileira, 2010, sobre a política global do clima; e de O Pelo Negro do Medo, romance, Record, 2012. Prêmio Jornalistas&Cia HSBC de Imprensa e Sustentabilidade: Personalidade do Ano em Sustentabilidade 2011. Prêmio Chico Mendes de Jornalismo Socioambiental 2013 (rádio).

Mas voltemos ao seu Toninho, comentando outro vídeo que mandei há algum tempo:

Pô, querido filho!

Terminados serviços “urgentes” que preencheram toda a semana, estou me dando uma folga para ver os e-mails, mais devido ao cansaço do que por não ter o que fazer. Foi então que abri o “Trecho do Guimarães Rosa”. Se eu, que nada entendo do Rosa, me maravilhei, imagino você…

O Grande Sertão é, como a Bíblia, inesgotável em seu conteúdo. Quanto mais se volta à sua leitura, mais dele se tiram saberes.

Guimarães é mesmo alguém que, por mais lido e estudado que seja, sempre terá “boa-nova” para comunicar.

Pra completar, o Lima Duarte ainda recita um verso do Catulo da Paixão Cearense, pra mim um dos maiores intérpretes da alma do sertanejo.

Benditos esses homens que sabem captar nuanças do linguajar e idiossincrasias do nosso povo, que são imperceptíveis aos olhos do comum dos mortais. Perpetuam no história o “jeito brasileiro de ser”.

Pai.

Ele se refere a, nada mais nada menos, que Inezita Barroso e Lima Duarte, mais Teo Azevedo na viola. Aliás, sei que, lá na década de 70, a querídola Nydia participou da produção de um espetáculo com o Lima Duarte interpretando o Grande Sertão:

Guimarães Rosa, Augusto Matraga, Riobaldo Tatarana, Diadorim, Manoelzão, Miguilim… Esses cabras me perseguem sem dó, e agradeço a Deus por essa bênção. Se não, como explicar os eternos reencontros com Miguilins?

A pergunta é retórica, não quero nem pretendo achar a(s) resposta(s). E sigo relendo o Rosa.

:: Eis uma Santa ::

Dona Maria Ribeiro da Silva Tavares se encantou, aos 102 anos. Eis aí uma pessoa que dignifica a espécie e considero como a expressão perfeita de como Guimarães Rosa se referia ao *passamento*:

*as pessoas não morrem, ficam encantadas*

Ou, parafraseando o Manuel Bandeira:

*imagino Maria entrando no céu:
– Licença, meu branco!
E São Pedro bonachão:
– Entra, Maria. Você não precisa pedir licença*

Mandei a notícia pro seo Toninho (ou: meu pai), que resumiu:

Exemplos de santas e santos como Maria Ribeiro,
graças a Deus, existem e não são poucas(os).
Pena que nossa mídia, QUASE TODA vendida ao crime,
só tem olhos para rebeliões e fugas de presídios.
Enriqueça seu blogue, Paulo, exibindo casos como esse.

Como sou um cara obediente, registro aqui minha pequena homenagem a essa *Santa*. ‘Brigado, dona Maria! 🙂

*Se a mídia se dedicasse a mais coisas boas ao invés de tanta desgraça, talvez a sociedade estivesse contaminada não de medo e vingança, mas de afeto.* (A frase é da Nathalia, que não conheço, e me chegou via Feicebúqui.)

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Maria Ribeiro da Silva Tavares fundou, em 1942, o Patronato Lima Drummond, que abriga presidiários do regime semiaberto

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Dona Maria com o cuidador Roberto Sotello,
em férias na lagoa dos Patos (RS)


Maria Tavares rodeada por seus anjos em 2013,
no patronato Lima Drumond, em Porto Alegre