:: Calhabau ::

Prosopopeias infames de uma noite etilírica. Pairam no ar ameaças de entreveros amigáveis, sem consumação, visto que, como há-de imperar a cordialidade fraternal, se entoem versos e cantos e palavrórios filosófico-inconsequentes. Descompromisso com a realidade, dir-se-ia talvez, ou processo auto-alienatório compactuado tacitamente entre os envolvidos? Ora, que esse canto torto, feito faca, corte a carne de vocês, diria o poeta, mais cônscio, sempre e claro, do valor intrínseco da palavra musicada.

Mas urge que se desaprenda um monte de coisas. Estude-se, tal um “vagabundo profissional”, o idioleto manuelês, língua nativa dos bocós e dos idiotas, única que cria (e explica) universos absurdos. Só assim para se habilitar a falar e escrever absurdezas e fazer artesanias, e poder exercer a virtude do inútil, no lugar de ser inútil: a poesia.

Mire-se e veja o exemplo-maior do Mestre Manoel de Barros: “de dentro de mim não saio nem pra pescar”, e, iluminação-maior, sacar que “as coisas não querem mais ser vistas por pessoas razoáveis – elas desejam ser olhadas de azul”.

Subterfúgios rasos de transgressão-subversão do vernáculo. Exercício lúdico-irresponsável de bricolagens com códigos. Foi há tempos imemoriais, num alfarrábio, que um pergaminho apócrifo, supostamente atribuído ao alquimista-rei que atingiu a Obra em Negro:

 

Há um desejo, um anseio, uma pretensão de demiurgo em todo escritor – como, de resto, em todo artista. Deixemos de lado (se é que é possível) a arrogância e o ego superinflado; há, no entanto, alguns que legitimamente têm o direito de se aventar a, com toda a propriedade, se dizerem Criadores. Em primeiro lugar, são aqueles que têm o domínio e o poder totais sobre a matéria-prima com que trabalham: se fazer do ofício a língua, o código, conhecer a ferramenta e saber operá-la – a pá e a lavra, ou a palavra, com todas suas nuanças e sutilezas, explorando toda a potencialidade de cada combinação de letras e símbolos, dando forma e sentido harmônicos a o que, em suma, é a mesma fonte do caos. Este, o Caos, talvez o pai de toda criação.

 

E, no processo de (re)criação, sempre, remeter-se ao Caos: só quem pode e tem o direito de subverter a ordem, em princípio, é quem a domina e pode tratá-la intimamente. Só quem faz da sintaxe o sentir natural, a respiração, o fluir imanente do tudo arrisca-se, em algum momento, a quebrá-la ou subvertê-la – humildemente, é ciente da heresia potencial que comete, mas assume o risco lúdico de, mais e mais, (re)criar. É esse (ar)riscar que justifica nossa existência – que sejam poucos os que o fazem; são os que nos redimem a todos.

 

É para quem o “código”, com tudo o que tem de secreto, divino, misterioso, torna-se familiar, cotidiano, expressando-se e sendo expresso em cada detalhe. O poder alquímico de transmutar sintaxes, baldear parágrafos intransponíveis em busca de veredas redentoras, desvendar os intrincados labirintos espelhados dos símbolos primordiais, extrapola o consciente – mas, em algum momento, a lucidez embaça a própria consciência: momento mágico que se desvela no conjunto de signos, significados e significantes, como que numa revelação absurda daquilo que ofusca por ser tão claro.

 

Duvidanças hiperbólicas não-cartesianas. Arcanos arcaicos a baralhar enigmas insondáveis de tempos imemoriais, Atlântida insondável, o gato de Schrödinger à espreita, universos quânticos inquantificáveis: há apenas o não-dizer, o imponderável, intraduzível. Re-criar, re-inventar palavras? Recombinar símbolos na busca insana de um sentido?

E eis que da dislexia inconsequente emerge: “tébua”, e faz tábula rasa de todo o cartapácio, ao mesmo tempo inflama ânimos em busca de possíveis ou interpretáveis significados. Metáforas, silepses, metonímias se retorcem em vão. Instigação petalosa-surreal: eis aí um pretupitério? Ignorem-se filólogos e quetais — interjeição? exclamação? adjetivo? substantivo? Transcenda-se a gramática convencional, e multicaracterize-se detentor, a um só tempo, de todos os atributos de todas as classes gramaticais.

Mas a infâmia, embriagada, se supera. E na disritmia (in)consequente da mixórdia um temulento tasca: “calhabau”. Retorcem-se os parcos neurônios ainda teimosamente avivados: qu’est-ce que c’est? Parlemos, xumberguemo-nos, e resignemo-nos: se “sinhô-nô”, enfeite-se a noite sem culpa. Brinquemos.

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