:: Esperança x ódio ::

Professora por mais de 30 anos, reconhecida e querida por incontáveis ex-alunos, a Rose estava sossegada no barzinho quando, assim como em inúmeras ocasiões, ouve um alegre e extrovertido “fêssora! Há quanto tempo!”.

É uma moça de seus 20 e poucos anos, acompanhada do namorado. Um casal bonito. Abraços e beijos efusivos, e a moça faz as apresentações: “foi a melhor professora de História que tive”, diz ao rapaz, seguindo-se elogios e perguntas de ambas as partes, como em qualquer reencontro.

Na primeira deixa, porém, o rapaz dispara: “professora de História, né? Só pode ser comunista, vocês odeiam a burguesia, olha ali minha HB20, é minha, vão querer tirar de mim?”.

Ela, naturalmente assombrada com a agressividade do cara, inversamente oposta à alegria da moça, só retruca: “#elenão!”. O cara levanta ainda mais a voz, a namorada fica totalmente sem jeito, o clima fica tenso.

Seguem-se rápidos, mas longos e quase apavorantes, minutos. A agressividade verbal do rapaz é absolutamente gratuita, (pretensamente) baseada no único fato de se tratar de uma professora — de História.

O diálogo é impossível. Depois de vomitar sua ignorância e destilar seu ódio e intolerância, finalmente ele se retira, com os olhos em fúria e babando seu próprio veneno, pra vergonha da moça.

Ficam a perplexidade e o assombro, a tristeza de constatar que essa doença social e política está se espalhando como epidemia incontrolável.

Ou, pior, como uma metástase, como diz William Nozaki na CartaCapital: “Bolsonaro não controla mais o bolsonarismo — O fenômeno virou metástase no interior do tecido social e não obedece ao comando do candidato”. Segue um trecho:

“As ofensas, ameaças e perseguições, reais e virtuais, contras as mulheres que organizaram o grupo e a campanha #EleNão é mais uma mostra de que a combinação de antipetismo, crise econômica, judicialização da política, instabilidade institucional e polarização ideológica criaram um ambiente de violência física, material e simbólica que não é mais governável nem mesmo por quem alimentou esse clima de conflagração e beligerância.”

É inacreditável constatar a que ponto chegamos. Falimos como sociedade, fraternidade e direitos humanos são toscamente desprezados e atribuídos “às esquerdas”, o bem comum foi jogado no lixo por mesquinhos interesses individuais.

É triste e mais do que preocupante o cenário. Mas eu ainda tenho esperanças de que a serenidade e a sabedoria da professora, diante de um troglodita ignorante, seja um exemplo de como devemos e podemos enfrentar esses tempos sombrios.

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