:: Pó ::

Insones, os parcos neurônios insistem em se digladiar. É, eles não se entendem: esse papo entre razão e paixão pende pra razão, neurônios que são, mas há um grupinho de rebelados que resvalou pro coração. E, não sei como, esse bandinho de neurônios vermelhos, sinistros, gauches, desgarrados, são capazes de uma balbúrdia quase lisérgica: flashes de lucidez (?) mesclados a insights pseudontelectualóides com pitadas de tragédia grega e toscos registros de poeira de estrada.

Tudo ao mesmo tempo, ouço vozes do Jack London, do Kerouac, do Leminski, do Baudelaire. O uivo do Ginsberg. Um corvo, assum preto, crocita: raven, never, raven, never, raven, never, raven, never, raven…

O pó da estrada brilha nos meus olhos. Pergunte ao pó, Bandini. Há tempo, muito tempo, que eu estou longe de casa, e o meu blusão de couro se estragou. Mas, com diploma de sofrer de outra Universidade, sei que minha hora e minha vez hão de chegar. Sou Burrinho Pedrês, sou Matraga! Porque se chamavam homens, também se chamavam sonhos. E sonhos não envelhecem…

Mas não sei declinar todo o verbo, verbi gratia, ainda que me ressoe: “rosa, rosae, rosae, rosam, rosa, rosa. rosae, rosarum, rosis, rosas, rosae, rosis”. O velho bardo já se perguntava: “o que há num simples nome? O que chamamos rosa, sob uma outra designação teria igual perfume?”. E, se todas as rosas do mundo desaparecessem, o nome “rosa” ainda assim continuaria tendo significado?

É muito mais do que o nome, o perfume, a graça, os signos todos que são mais presentes do que aqueles neurônios racionais possam interpretar. Clamo à rosa, Rose, mas não há como fugir do Rosa, nas palavras do Riobaldo, filosofando na poeira, no pó do sertão: “o senhor… mire, veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam, verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra montão”.

O pó da estrada embaça os zóio. Mas… “tem horas em que penso que a gente carecia, de repente, de acordar de alguma espécie de encanto”.

:: Valtinho ::

Figurinha impagável é o Valtinho. Sempre metido nos perrengues mais improváveis, ele nunca — nunca! — deixa de lado o bom humor (já brinquei mais de uma vez de rifá-lo por um dia entre os demais departamentos: diversão garantida ou seu dinheiro de volta).

Protagonista de causos antológicos, numa mescla de ingenuidade e malandragem ele consegue até dar nó na segurança presidencial — já conseguiu pegar carona com a comitiva após uma coletiva. Pode-se deduzir que, quando cola na mesa do boteco, é garantia de boas risadas — e isso porque ele não bebe…

Pois ontem, durante o merecido happy-hour, eis que ele chega todo pimpão, exibindo mais uma etapa do aparelho dentário, agora com detalhes azuis. E eis que, como sempre, ele vem com umas tiradas sabe-se lá de onde (leia-se imaginando sua indefectível vozinha de taquara rachada):

— Pô, gente, mó legal aquele comercial que o cara usa o desinfetante Ajax e a mulherada cai tudo em cima…

(Segundos de silêncio, todos tentando entender.) Como assim? Até que alguém arrisca decifrar — não seria desodorante? E, em vez de Ajax,Axe?

— É, é isso aí mêsss, mas é tudo a mesma coisa, né? — concorda o Neguinho-gente-boa.

Comentário geral: é bom tomar cuidado, Valtinho — se já tá confundindo desinfetante com desodorante, a coisa tá feia…

[Como o Valtinho rende, deixo a segunda parte desse post a cargo do copoanheiro Adauto, que conta mais um pouquinho. Só pra completar, segue flagrante dos dois lambe-lambes gêmeos, Valtinho & Wendell, separados no nascimento.]

Segundo clichê: como era de se esperar, surgem mais causos do Valtinho aí nos comentários =^)